terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Jantar

Eu gosto da tua família aos teus olhos. Gosto de me imaginar na mesa, como se fosse uma mosca que pousa na salada de batatas, quase invisível aos debatedores que insistem em fazer uma retrospectiva dos sucessos alcançados nos últimos meses. Gosto das disputas, das palavras ousadas. Gosto da força e da espontaneidade com que as verdades aparecem. Não sei se todas, mas algumas - as que parecem importar e dar forma ao conteúdo emaranhado. Estranho, mas o meu emaranhado não te assusta. A minha bagunça não te desorganiza. Mas tua bagunça desperta algo ruim em mim, o qual eu gostaria de poder evitar. Mas algumas palavras não podem ser adiadas. Imaginei os vários nãos que tu dirás aos teus filhos. Daqueles nãos firmes, mas ao mesmo tempo reconfortantes, como se guardassem um lugar seguro. Quando muito é permissivo, a gente se sente perdido. Poder escolher compreende, antes de qualquer coisa, delimitar. Dar nãos. Mas, mesmo buscando contrariada os teus nãos, tu me ofereces talvez e alguns porquês. Não gosto de cobranças, gosto de conversas. Nossas conversas estão entre minhas favoritas, justamente por permitirem voltas e mais voltas, mas partindo de um ponto e necessariamente terminando em outro. São sucessões de novidades, apesar de muito falarmos do cotidiano, que passa batido para muitas pessoas. Me apaixono por determinação, intensidade, impulso. Me apaixono por quem sabe escutar e acolher, sobretudo por quem não muda sua opinião e ainda assim consegue respeitar e valorizar outros modos de pensar. Me apaixonei por tua família ser tão defeituosa. Por teus amigos serem tão fracos, apesar de divertidos e companheiros. É gostando desse gradiente que me aproximo da tua história. Talvez da nossa história. Não sei quando algo pode vir a ser ou deixar de ser nosso, representar um "nós". E não tenho pressa em saber. Tampouco os debatedores da hora da janta, presos em suas falas enérgicas e agarradas ao passado. Será que já passamos e nem vi? Acho que não. Espero que não. Espero teu não para que eu possa dizer meu sim. 

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