quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Impulso

Achei este fragmento escrito em três de março: "Não precisava saber dançar sem música, fazer do céu teu cenário, presentear-me com teu jardim. É sério, sou bem simples. Não fazia questão de mágica. Ficaria bem só com teu senso de humor, teu sorriso tímido e tua gargalhada histriônica". Num dia desses, fiquei impressionada com minha pressa, com o impulso de não só virar as páginas rapidamente com os dedos, mas fechar com um baque a capa do livro e colocar a palma da mão sobre ele, como quem zela por uma história já concluída.
Fui além disso, chegando a imaginar como seria a tal da pessoa ideal com quem se decide passar os dias e noites insones. O que, diga-se de passagem, foi um fracasso. Custei a perceber, mas mesmo nessa idéia está impressa a noção de decisão, de escolha, de delimitar e também de abdicar. Apostar em alguém, investir em uma relação. Já dizia uma amiga que amor é construção... para espanto do meu coração hollywoodiano, que insiste em desejar que tudo ocorra "espontaneamente". Como se a intenção invalidasse o sentido. Como se sentimentos surgissem descontextualizadamente. Pois é, minha inocência às vezes beira a tolice.
E o pior de tudo, talvez, tenha sido a teimosia em não perceber o óbvio: eu penso demais. E pensamentos são deuses infinitos, com seus poderes estrondosos e por vezes indelicados. Criei cenários, personagens, cenas românticas dignas de serem filmadas para depois serem lembradas por alguma garota bobinha feito eu. Mas não eram acontecimentos reais. E isso fez toda a diferença. Para ser bem sincera, não é uma tarefa difícil encontrar gente interessante. Pessoas que sustentem uma boa conversa por algum tempo ou que despertem curiosidade, risadas, alguma euforia momentânea.
Momentânea. Alguns minutos depois, seremos estranhos novamente. Sem elo. Sem a menor vontade de descobrir uma conexão. Esse parece ser o grande problema das buscas... de alguma forma, buscamos sempre o que é mais confortável encontrar. Mesmo quando se anuncia o desejo de ser surpreendido. Não basta qualquer surpresa, ela tem que se encaixar em alguns critérios. E, quando não o faz, é hora de ir pra casa - cada um para a sua.
Foi necessário pensar até aí para entender que o amor pode ser sim uma escolha. Deve ser, na verdade. Diária, eu diria. Não tem a ver com precisar, com dependência, mas com relação, com companhia. Desejo de estar junto... porque faz sentido, porque faz sentir bem, porque a troca faz valer a pena. Porque é possível pensar em várias e diferentes razões pelas quais pode se tornar importante compartilhar momentos com alguma estabilidade.
Estabilidade parece ser a palavra que mais se aproxima do mundo adulto. Associá-la com rotina pode manchá-la com o rótulo de entediante, o que disfarça as críticas de quem tem medo de intimidade. Mas percebo que, para mim, seu sentido implica segurança, o que de alguma forma me conforta. Soa atrativo quando considero a existência de uma parceria nessas condições... agora que eu já sei me cuidar, sobreviver às angústias do mundo. Agora que, ao ser realista, afirmo que uma separação pode ser difícil, deixar marcas dolorosas, mas não mata ninguém.
Dizer "tchau" é o outro polo da escolha, optar pelo "não" e arcar com as conseqüências de suspender o investimento, ficar um período sem saber onde depositar energia... o que geralmente repercute em uma mudança pessoal, em novos planos, até que um novo alguém desperte outras inspirações.
Talvez seja isso, talvez seja inspiração. Tenho sentido isso nos últimos dias. Desde que eu quase fechei um livro recém iniciado por impulso, com medo de me frustrar no decorrer de sua história. O que poderia ser apontado como um ato bastante egoísta da minha parte. Mas não vejo razão para acusações. Minha maneira de enxergar meus envolvimentos sofreu alterações, resultando em ressignificações de histórias que já passaram e intenção de escrever diferente essa nova história em desenvolvimento. Detesto a pieguice dessa metáfora e a forma como pareço ser a única responsável por conduzi-la, mas mencionei a noção de parceria anteriormente, o que me autoriza a acreditar que não passo uma imagem tão rígida quanto a que devo estar imaginando.
Estranho e irônico pensar que há praticamente seis meses eu conduzia melhor meu embaraço sentimental do que há algumas semanas.  Mas impulsos também têm sua função, criam movimentos que nos fazem repensar as intensidades das dificuldades e redescobrir tesouros esquecidos. 
Hoje eu diria: "Não precisa me fazer rir com ações cotidianas, me renomear a cada 'bom dia', adiar teu sono, dividir tua solitude comigo e incentivar que eu invista na minha. Não precisa, mas continua. Não lembrava, na verdade, de como é a mágica. Mas, é sério, a sensação é ótima. Me divirto com teu pessimismo ancião, teus absurdos e tua gargalhada histriônica. Nossas diferenças me fazem bem, me instigam. E confesso que já perdi a conta de quantos parênteses deixamos em aberto, de quantas conversas desenvolvemos sem que o tempo as esgotasse. Dá até vontade de estocar amendoim para assistirmos à grama crescer daquela varanda."

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quando dois não é par

Eu não te amo. E a recíproca é verdadeira. E isso não deveria ser um drama. Se tem algo que a passagem do tempo faz é limpar um pouco o romantismo das coisas. O cru é mais honesto. Já basta o esforço diário para desempenhar um papel razoável no trabalho, no grupo de amigos, no meio familiar. Voltar para casa, para o quarto silencioso, é protetivo. Para mim e para quem precisa conviver comigo. E creio que seja o mesmo para as outras pessoas. Depois da urgência típica da juventude, de quem parece sentir o futuro distante - como se nunca se concretizasse -, vem uma certa calma. Não chamaria de tranquilidade, mas de movimentos e intensidades atenuadas. A rotina estabelece tédio e segurança. Toca o despertador na segunda, na terça, já nem importa o dia. O conhecido é confortável, fácil de acomodar. Também desacomoda, quando o sono não vem ao deitar. Dormir parece ser um parâmetro adequado para avaliar o momento pessoal de cada um... Se o sono chega antes que o corpo possa se ajeitar na cama é um sinal de que temos tido pouco tempo para pensar, para ponderar sobre o ontem e o amanhã, que o impulso tem prevalecido. Quando o corpo nos permite pensar demais, sem que os olhos se fechem, indica que nossas nuvens insistem em chover no mesmo terreno exaustivamente, até a última gota, como se não soubessem viajar e encontrar terra seca. E tem aquelas noites em que dormimos sem realmente descansar. Estranhos tempos estes, em que sonhar virou tarefa para se fazer acordado, mas limitada aos intervalos de outras atividades.
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