terça-feira, 21 de junho de 2011

Sobre sintonia.

"Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos...

Então me abraça forte
E diz mais uma vez que já estamos
Distantes de tudo"

          Espetou o dedo pela sexta vez naquela manhã de sol tímido. A agulha preguiçosa fazendo a linha se esconder e reaparecer pelo tecido gelado. Dessa vez, apenas abafou um gemido. Não saberia dizer se estava se acostumando com a dor ou se a incomodava o fato de se espetar sempre no mesmo lugar. Observava o sujeito dormindo por cima das lentes do óculos, ressabiada. Estava acostumada com seu ronco, mas era só ele começar a tossir que ela se assustava e mais uma vez escorregava a agulha no mesmo ponto do indicador. Ela não sabe o horário exato em que ele chegou em casa - ele, muito menos. O cheiro forte de bebida não deixava dúvidas de que a noite tinha sido longa. Ela não se importava com isso. Desejava apenas que ele acordasse inteiro para ela. De que vale o fim de semana sem boa companhia.

          O sol de sábado nascia morno, espantando o frio da estação. Ela esfregava um pé no outro por debaixo do cobertor. As pernas macias de juventude. Terminou a costura e finalizou com um nó bem forte, segurando a linha com os lábios cerrados. Continuou a olhar para o cara que dormia esticado no sofá. A camisa para fora da calça, um pouco desabotoada. As meias e o calçado no chão. Levantou-se de imediato da poltrona e sentou-se próxima ao sujeito. Passou as mãos em seu rosto e deu-lhe um beijo demorado na testa.

- Vou preparar o café, querido.

          Ele abriu os olhos confuso, procurando a origem da voz doce. Viu a moça se afastar do sofá, com a saia rodada moldando-se pelo vento. Sentiu uma forte pontada na sua cabeça, uma dor muito forte, que durou alguns segundos. Com os olhos fechados, tateou seu corpo. Abotoou a camisa e colocou a mão no bolso traseiro da calça, percebendo ali algum conteúdo. Encontrou um pequeno pedaço de papel amassado, com um número de telefone escrito em vermelho. Não se lembrava de ter conhecido alguém na noite passada. Mas isso já tinha virado rotina.

          Ela trouxe a bandeja de prata com um bule de café e duas xícaras. Percebeu o papel na mão do noivo, mas não esboçou nenhuma surpresa. E não é que estivesse acostumada com a cena: de fato, parecia mais uma negação. Serviu o café, acrescentou dois cubinhos de açúcar e provou. Muito quente. Esperou que ele fizesse o mesmo, para então perguntar como tinha sido a noite com os amigos. Sem tom de cobrança, tudo da forma mais natural possível. Ele não disse muita coisa. Ela baixou os olhos e comentou que tinha costurado aquela camisa. Aquela camisa. Nunca tinha acreditado na história de marcas de batom no colarinho até lavar aquela camisa.

          Ele bebeu o café,  folheou o jornal, mas estava inquieto com a situação. Não era a primeira vez que se sentia constrangido ao perceber que ela ignorava o que estava acontecendo no relacionamento dos dois. Nunca tocaram no assunto, mas o chateava perceber que ela não se manifestava. Por mais que essa atitude passiva fosse melhor do que uma tempestade. Mas ele não sentia que ela se importava. E já estava vivendo a idéia de que poderia mesmo passar os anos desse jeito - enchendo a cara no bar, dormindo com estranhas e chegando em casa ao amanhecer. Foi quando ela se levantou do sofá de imediato, esboçando um sorriso inocente.

- Eu estou grávida. 

          O café se espalhou por todo lado. Ele a abraçou como há tempos não fazia. E a alegria era sincera. Mais tarde, rasgou o papel que tinha encontrado em seu bolso e jurou para si mesmo nunca mais repetir a noite anterior. Passados os nove meses, descobriu que não era seu filho.




Ps: visivelmente, a música mais uma vez não tem nada a ver.




sexta-feira, 17 de junho de 2011

A love once new has now grown old.

Me dei conta da emergente necessidade de fixar conceitos, contextualizar fenômenos, justificar tudo o que fosse possível e imaginar todas as hipóteses para o que ainda não fora testado. E não gostei disso. Digo isso não de uma maneira séria e repreensiva, mas risonha, do tipo que diz que a vida não é só isso. Não é o fim do mundo quando as coisas acontecem de forma diferente da planejada. Não importa. No fundo, não importa. Eu gostaria de acreditar que eu vou parar de colocar fatos em tabelas e fazer cálculos mentais sobre a probabilidade das coisas. Mas eu me conheço e sei o quanto gosto de ver as coisas categorizadas - não que eu me fixe no sim ou no não, eu tenho bastante abertura para o talvez. Mas isso não satisfaz. Não é tudo. É querer dizer que aquele fenômeno, com aquela pessoa, ocorre sempre do mesmo modo. Mas não. Um dia fez porque analisou os fatores e achou que seria melhor, no outro foi por impulso, mesmo sabendo que as coisas iam ser estragadas. Falo isso porque me peguei vendo um ou dois programas sobre traição, e eu já escrevi aqui muito sobre isso. Que eu diferencio os "tipos de traição" e coisa e tal. E li o que um amigo escreveu sobre não acreditar realmente no amor, essas coisas. Eu não acredito em nada de forma tão concreta. Eu acho. Ando tentando abrir a cabeça, estudar um pedaço de algo oriental que me desperta curiosidade. E o que eu percebi com tudo isso é que a desconstrução dos conceitos acaba sendo muito mais importante do que a tentativa de construir algo novo ou, pelo menos, que pareça ser coerente e verdadeiro. Eu não quero pensar que eu vou casar, ter filhos, viver e morrer com a mesma pessoa - por mais que isso não me pareça ruim no presente momento. Mas eu também não quero afirmar que não vou fazer isso. E é essa mesma questão em vários aspectos. Pessoas consideravelmente doentes têm a mania de aconselhar que se deve viver um dia de cada vez. E eu não vou contestar. É mais difícil mesmo sustentar as idéias por muito tempo, com os constantes desafios impostos ora ou outra. De repente, faz parte do crescimento pessoal essa liberdade, esse desprendimento de uma determinada forma de comportamento - essa liberdade para pensar e agir, sem ter que prestar contas ao espelho. Só posso dizer que eu me sinto bem.

Ps: o título não tem nada a ver. Estava ouvindo Simon & Garfunkel e achei inspirador. 



sábado, 4 de junho de 2011

Coletivo vivo

Acontecimentos importantes. Acho que pela primeira vez me senti parte de verdade de um grande grupo. Sentimento de pertencimento, não de coesão. Ver o grupo se unir, buscar a justiça entre seus membros, pensar ações e ter em vista as conseqüências para tal, encarando tudo de peito aberto - isso tudo é motivo de muito orgulho. E, nesse caso, representa muito mais do que a luta de estudantes. Não são alunos enfrentando uma professora, mas um curso enfrentando a arrogância de outro. Porque o que está em jogo não é uma nota, mas a necessidade de diferenciar os objetivos das diferentes profissões. Nas últimas semanas, aprendi a respeitar mais cada colega que contribuiu para que alcançássemos o resultado que está sendo construído. Conseguimos provar nossa importância, mostrar que temos voz e que não, não somos inferiores em nada. Não somos frustrados ou mimados ou qualquer coisa infeliz desse conjunto de idéias, mas exigentes e empenhados em obter o melhor. Sempre.


Esse início pode ter sido um tanto brega, mas realmente representa o sentimento que tenho vivido nos últimos dias. Porque infelizmente ainda existe gente que pensa que a escolha por outro curso da área da saúde se deu devido a incapacidade de passar em um vestibular para o curso de medicina. E ainda existe gente que baixa a cabeça para tudo, que apenas segue as regras sem refletir sobre o que está fazendo. E, não seria natural se eu deixasse de falar isso, ainda existem pessoas que colocam em risco o todo para suprir suas vaidades. Mas isso continuará acontecendo em todos os lugares. E o que eu devo fazer é respeitar esse tipo de coisa, por mais que eu não concorde. Gritar é se deixar perder a razão. O caminho é jogar xadrez.


Enfim. As mudanças já estão chegando. Palmas para nós.



terça-feira, 31 de maio de 2011

João e Maria



Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?



 
Não sou fã do Chico, mas acho essa música fascinante. E, de certa forma, combina com os últimos tempos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Can't believe how strange it is to be anything at all...

Voltarei a escrever em breve. Tô numa fase mais reticente e menos verbal. Faz tempo. As coisas vão bem. Acho que é o que importa.
Vontade de mudar tudo isso aqui e deixar só os posts que se parecem comigo hoje, mas isso não faria sentido nenhum agora. É importante sair de si para se encontrar, ah sim.

Aí vai uma música maravilhosa, nem sei se já postei. :)



In the Aeroplane Over the Sea
Neutral Milk Hotel

What a beautiful face
I have found in this place
That is circling all round the sun
What a beautiful dream
That could flash on the screen
In a blink of an eye and be gone from me
Soft and sweet
Let me hold it close and keep it here with me, me

And one day we will die
And our ashes will fly from the aeroplane over the sea
But for now we are young
Let us lay in the sun
And count every beautiful thing we can see
Love to be
In the arms of all I'm keeping here with me, me

What a curious life we have found here tonight
There is music that sounds from the street
There are lights in the clouds
Anna's ghost all around
Hear her voice as it's rolling and ringing through me
Soft and sweet
How the notes all bend and reach above the trees, trees

Now how I remember you
How I would push my fingers through
Your mouth to make those muscles move
That made your voice so smooth and sweet
Now we keep where we don't know
All secrets sleep in winter clothes
With one you loved so long ago
Now he don't even know his name

What a beautiful face
I have found in this place
That is circling all round' the sun
And when we meet on a cloud
I'll be laughing out loud
I'll be laughing with everyone I see
Can't believe how strange it is to be anything at all



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre algo bom.

"Hi, I'm love with you." - talvez, se eu pensasse em inglês, fosse isso que eu devesse dizer. Mas não faria sentido se eu te dissesse isso considerando o escasso número de palavras que trocamos, apesar de esse tipo de certeza vir muito mais da linguagem não-verbal e de todo o conteúdo abstrato que envolve as interações. Depois que eu gostei de ti com o cabelo bagunçado e a boca suja de leite, pouco poderia ser feito para neutralizar meu encantamento. Eu gosto do teu cheiro e de como parece que todas as estações te encontram ao longo do dia: outono ao acordar, verão durante o dia, primavera ao entardecer, inverno ao dormir. Gosto da tua impaciência, da maneira com que roças a unha na mesa durante o almoço. E gosto de te ouvir cantar, mesmo que isso signifique que minhas músicas favoritas perderão completamente o ritmo original. Então, eu prefiro não te dizer nada - porque falo muito mais de sentidos e sensações do que qualquer outra coisa. Não falo em coisas concretas e imutáveis, mas em pequenas ações que, ao longo do dia, são capazes de transformá-lo. Não mantenho nada em segredo, afinal não há o que esconder. Mas também não te surpreendo com gritos: por que limitar o que nem nome tem?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

@PropagandasDaDepressão

Vi umas duzentas vezes sem querer o comercial da Camila Pitanga em que ela fala que antes só interpretava papéis menores, mas que Rexona deu a ela a confiança necessária para ela ganhar papéis importantes. Eu fico triste com esse tipo de propaganda. Não tanto quanto me deprimo com comercial de cerveja, é claro, mas fico triste. Por mais que isso faça parte do contexto de atores de novela, eu não sei até que ponto eu conseguiria conversar com alguém normalmente, sentada de pés descalços no sofá da sala, sabendo que essa pessoa fica me lembrando a cada 3 minutos na televisão o quanto a vida dela mudou com um desodorante. Apesar de eu pensar que, realmente, problemas pequenos podem tomar uma proporção absurda quando não se encontra a solução, essa propaganda em especial me causa um desconforto, sei lá. Só não ganha daquelas propagandas de produto de limpeza. Meu deus, eu não queria ser uma daquelas atrizes por nada nessa vida! Como me passa infelicidade assistir aquilo. Nem os comerciais de produtos de higiene bucal me deixam tão traumatizada! As pessoas ficam com um sorriso radiante porque agora não precisam trocar a cestinha daquele negócio cheiroso que se põe no vaso sanitário. E outras vibram porque agora existe spray automático de inseticida. Acho que eu precisaria de uns quatro daqueles por cômodo se a minha casa fosse também moradia de mosquitos. Eu sei o quanto é exagerada e cheia de vieses essa comparação, mas as propagandas de perfume são tão melhores. Sério, mostrar pessoas bonitas e moderadamente felizes, com uma música decente, acho que funciona muito mais. Claro, aí não se tenta implantar uma necessidade - é simplesmente um perfume caríssimo que vai te fazer lembrar Paris, algo assim. Mas pelo menos não dá vergonha. Assolan, Vanish, Lojas Marabraz, Casas Bahia... eu não sei até que ponto é bom memorizar essas coisas. Porque eu não tenho uma lembrança agradável, pelo contrário. E isso me fez lembrar das propagandas de remédio, em que comprimidos pra gripe ou dor de cabeça têm seu nome falado por diversas pessoas, como se realmente algum dia alguém fosse fazer um musical no escritório com um Benegripe da vida ou "chamar a Neosa". Bah, que post deprimente. Isso que nem comentei ainda as propagandas de absorvente e as briguinhas entre supermercados. Em primeiro lugar, a Ana Maria Braga não vai no Carrefour. Ela tá sempre na Ilha de Caras ou lançando audiobooks de piadas com o Louro José. E, quanto aos absorventes, sei lá. Eu nunca deixei de fazer nada por estar menstruada e duvido que a maioria das mulheres seja diferente. No máximo evitar a piscina e tecidos brancos, mas nada tão suicida quanto as propagandas mostram. Porque, se a menstruação traz infelicidade, é em função da TPM, das cólicas e de todos os sintomas típicos e atípicos do universo dramático e ansioso feminino - o absorvente é a última coisa que vai me dar problemas. Enfim. Acho que vou correr pra ser uma das 100 primeiras e comprar logo minha Tekpix, meu Cogumelo do Sol e meu UltraCorega, beijos.


Ps: NADA ganha da vergonha alheia que eu sinto quando vejo os comerciais da Dolly e do Pó Pelotense.



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