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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fuck this shit.

"Acabei me sentando num banco, num canto um pouquinho menos escuro. Puxa, ainda estava tiritando como um filho da mãe e na parte de trás da cabeça, apesar de eu estar de chapéu, tinha uma porção de pedacinhos de gelo. Isso me preocupou. Achei que provavelmente ia apanhar uma pneumonia e morrer. Fiquei imaginando milhões de chatos indo ao meu enterro e tudo.  Meu avô de Detroit, aquele que fica lendo alto o nome das ruas quando a gente anda numa porcaria dum ônibus com ele, e minhas tias - tenho umas cinqüenta tias - e todos os nojentos dos meus primos. A tropa toda ia estar lá. Estavam todos lá quando o Allie morreu, a cambada toda de imbecis.  Tenho uma  tia imbecil, que tem mau hálito, que não parava de repetir que ele estava tão sereno no caixão. O D.B. é que me contou, eu não fui lá. Ainda estava no hospital. Tive que ir para o hospital e tudo quando machuquei minha mão. Seja como for, fiquei com medo de apanhar uma pneumonia e morrer, por causa daqueles flocos de gelo no cabelo. Me deu uma pena danada do meu pai e da minha mãe. Especialmente da minha mãe, porque ela ainda não se conformou com a morte do Allie. Ela não ia saber o que fazer com todos os meus ternos e equipamentos esportivos e tudo.  Só tinha uma coisa boa, era saber que ela não ia deixar a Phoebe assistir à droga do meu enterro porque é muito criança.  Essa era a única coisa boa. Aí pensei na cambada toda me metendo numa droga de cemitério, com meu nome num túmulo e tudo.  Cercado de gente morta.  Puxa, depois que a gente morre, eles fazem o diabo com a gente.  Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz idéia de me atirar num rio ou coisa parecida.  Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente vindo todo domingo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto?  Ninguém.
 

Quando faz bom tempo, meus pais vão freqüentemente ao cemitério e espetam um punhado de flores no túmulo do Allie. Fui com eles umas duas vezes, mas aí parei. Em primeiro lugar, não tenho o menor prazer em ver o Allie naquele cemitério maluco. Todo cercado de caras mortos e túmulos e tudo. Não é tão ruim quando faz sol, mas duas vezes - duas vezes - estávamos lá dentro quando começou a chover. Foi horroroso. Choveu na porcaria do túmulo dele, e choveu na grama em cima da barriga dele. Chovia por todo lado. O pessoal todo que estava de visita saiu correndo para os carros. Foi isso que me deixou doido. Todo mundo podia correr para dentro dos carros, ligar o rádio e tudo e ir jantar em algum lugar bacana - todo mundo menos o Allie. Não agüento um troço desses. Eu sei que é só o corpo dele e tudo que está no cemitério, que a alma está no céu e essa merda toda, mas assim mesmo não podia agüentar aquilo. Só queria que ele não estivesse lá. Quem conheceu o Allie entende o que estou querendo dizer. Não é tão mau assim quando tem sol, mas o sol só aparece quando cisma de aparecer."


J.D. Salinger


terça-feira, 21 de junho de 2011

Sobre sintonia.

"Veja o sol dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos
Castanhos...

Então me abraça forte
E diz mais uma vez que já estamos
Distantes de tudo"

          Espetou o dedo pela sexta vez naquela manhã de sol tímido. A agulha preguiçosa fazendo a linha se esconder e reaparecer pelo tecido gelado. Dessa vez, apenas abafou um gemido. Não saberia dizer se estava se acostumando com a dor ou se a incomodava o fato de se espetar sempre no mesmo lugar. Observava o sujeito dormindo por cima das lentes do óculos, ressabiada. Estava acostumada com seu ronco, mas era só ele começar a tossir que ela se assustava e mais uma vez escorregava a agulha no mesmo ponto do indicador. Ela não sabe o horário exato em que ele chegou em casa - ele, muito menos. O cheiro forte de bebida não deixava dúvidas de que a noite tinha sido longa. Ela não se importava com isso. Desejava apenas que ele acordasse inteiro para ela. De que vale o fim de semana sem boa companhia.

          O sol de sábado nascia morno, espantando o frio da estação. Ela esfregava um pé no outro por debaixo do cobertor. As pernas macias de juventude. Terminou a costura e finalizou com um nó bem forte, segurando a linha com os lábios cerrados. Continuou a olhar para o cara que dormia esticado no sofá. A camisa para fora da calça, um pouco desabotoada. As meias e o calçado no chão. Levantou-se de imediato da poltrona e sentou-se próxima ao sujeito. Passou as mãos em seu rosto e deu-lhe um beijo demorado na testa.

- Vou preparar o café, querido.

          Ele abriu os olhos confuso, procurando a origem da voz doce. Viu a moça se afastar do sofá, com a saia rodada moldando-se pelo vento. Sentiu uma forte pontada na sua cabeça, uma dor muito forte, que durou alguns segundos. Com os olhos fechados, tateou seu corpo. Abotoou a camisa e colocou a mão no bolso traseiro da calça, percebendo ali algum conteúdo. Encontrou um pequeno pedaço de papel amassado, com um número de telefone escrito em vermelho. Não se lembrava de ter conhecido alguém na noite passada. Mas isso já tinha virado rotina.

          Ela trouxe a bandeja de prata com um bule de café e duas xícaras. Percebeu o papel na mão do noivo, mas não esboçou nenhuma surpresa. E não é que estivesse acostumada com a cena: de fato, parecia mais uma negação. Serviu o café, acrescentou dois cubinhos de açúcar e provou. Muito quente. Esperou que ele fizesse o mesmo, para então perguntar como tinha sido a noite com os amigos. Sem tom de cobrança, tudo da forma mais natural possível. Ele não disse muita coisa. Ela baixou os olhos e comentou que tinha costurado aquela camisa. Aquela camisa. Nunca tinha acreditado na história de marcas de batom no colarinho até lavar aquela camisa.

          Ele bebeu o café,  folheou o jornal, mas estava inquieto com a situação. Não era a primeira vez que se sentia constrangido ao perceber que ela ignorava o que estava acontecendo no relacionamento dos dois. Nunca tocaram no assunto, mas o chateava perceber que ela não se manifestava. Por mais que essa atitude passiva fosse melhor do que uma tempestade. Mas ele não sentia que ela se importava. E já estava vivendo a idéia de que poderia mesmo passar os anos desse jeito - enchendo a cara no bar, dormindo com estranhas e chegando em casa ao amanhecer. Foi quando ela se levantou do sofá de imediato, esboçando um sorriso inocente.

- Eu estou grávida. 

          O café se espalhou por todo lado. Ele a abraçou como há tempos não fazia. E a alegria era sincera. Mais tarde, rasgou o papel que tinha encontrado em seu bolso e jurou para si mesmo nunca mais repetir a noite anterior. Passados os nove meses, descobriu que não era seu filho.




Ps: visivelmente, a música mais uma vez não tem nada a ver.




terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre algo bom.

"Hi, I'm love with you." - talvez, se eu pensasse em inglês, fosse isso que eu devesse dizer. Mas não faria sentido se eu te dissesse isso considerando o escasso número de palavras que trocamos, apesar de esse tipo de certeza vir muito mais da linguagem não-verbal e de todo o conteúdo abstrato que envolve as interações. Depois que eu gostei de ti com o cabelo bagunçado e a boca suja de leite, pouco poderia ser feito para neutralizar meu encantamento. Eu gosto do teu cheiro e de como parece que todas as estações te encontram ao longo do dia: outono ao acordar, verão durante o dia, primavera ao entardecer, inverno ao dormir. Gosto da tua impaciência, da maneira com que roças a unha na mesa durante o almoço. E gosto de te ouvir cantar, mesmo que isso signifique que minhas músicas favoritas perderão completamente o ritmo original. Então, eu prefiro não te dizer nada - porque falo muito mais de sentidos e sensações do que qualquer outra coisa. Não falo em coisas concretas e imutáveis, mas em pequenas ações que, ao longo do dia, são capazes de transformá-lo. Não mantenho nada em segredo, afinal não há o que esconder. Mas também não te surpreendo com gritos: por que limitar o que nem nome tem?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Reciclagem emocional

Com o que ele me escreveu eu poderia reutilizar folhas e mais folhas para imprimir trabalhos e poupar a natureza da morte precoce. É tanto papel! Outra pessoa poderia dizer que "poderia limpar a bunda com isso", mas aí eu já acho exagero. Mas a verdade é que, se eu e ele lêssemos juntos as coisas que escrevemos certamente sentiríamos um misto de vergonha por nós mesmos e um do outro individualmente. Eram palavras de adolescentes, e adolescentes sempre dramatizam demais as coisas. E, por esse exagero todo - e outros motivos -, não acho que valha a pena guardar essa papelada como se fosse uma peça rara em um museu. Esse assunto começou quando eu precisei imprimir uns slides pra estudar uma disciplina impossível e revirei a casa atrás de mais folhas. E encontrei aqueles rascunhos em caligrafia-de-madrugada, rasurados com caneta Bic preta. Compartilho a idéia de que folhas sem pauta são mais bonitas, então é natural que as frases formem diagonais pelo espaço. Como eu precisava muito imprimir aquele material, peguei umas páginas que eu mesma preenchera. Parecia que assim eu seria menos fria e mais sentimental. Só que, no fim da história, eu esqueci esses slides em algum lugar, o que não me deixa confortável. Eu acho que o romantismo vem justamente dessa idéia de substituir sentimentos por um vazio, para então suprir esse vácuo com algo belo novamente. Quer dizer, se alguém ler o que eu escrevi por aí, pode ser que ache útil e bacana. Mas o fato foi que, mesmo sem querer, foi uma coisa que eu descartei. Claro que eu descartei bem antes, quando deixei de sentir o que eu escrevi que sentia, mas é engraçado pensar nesse tipo de coisa como se pudesse ser materializável. Comecei com as páginas chorosas que nasceram do meu próprio punho esquerdo para, então, tirar da inércia as páginas que ele escreveu com o punho tatuado. E eram folhas e mais folhas, de uma quantidade absurda! Pensei em ligar pra ele e dizer "você não tinha nada pra fazer, ein?", mas como eu sabia de toda a verdade, de como era a vida dele naquela época, seria um tanto sem sentido eu fazer uma pergunta. Ainda mais assim. Me dei conta de que eu nunca mais escrevi aquelas coisas, e isso me deu uma certa tristeza, como se eu estivesse deixando de viver as novidades de um novo romance. Mas isso não durou muito. Comparando os velhos e os novos relacionamentos, é gritante a evolução. E acho que o fato de me surpreender com coisas diferentes me mostra o quanto mudar de ares pode ser bom. Se, antes, as declarações iam e vinham através de cartas inacabáveis, hoje elas chegam através de imagens e cenas que não necessariamente vão estar gravadas em vídeo ou papel, mas que se mantêm na memória e são revividas com os cinco (ou seis, ou mil) sentidos. Pensando assim, comecei a olhar para aquelas folhas com certa pena, como se elas fossem realmente limitadas. Limitadas ao fracasso do esquecimento na gaveta, das traças, do fogo de um fósforo. Nem lembro das coisas que eu disse ou que me disseram. Tanto faz, elas viraram verso de algo mais importante - o presente. E todo esse pensamento meleca sobre reutilizar folhas que um dia significaram declarações de afeto me fez lembrar de uma teoria que nega o pecado e, portanto, o perdão. E o sentido nisso tudo é que é válido agir como bobo, ser adolescente e também se desfazer dessas emoções. Ser e deixar de ser sem culpa. (Mas limpar a bunda com as folhas é maldade!)



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ice on the wing.


Abriu a porta com violência desnecessária e pisoteou apressada o tapete felpudo próximo à entrada. Os coturnos molhados, o guarda-chuva quebrado em mãos e a capa de chuva amarela encobrindo um grande volume nas costas da moça.
Mal chegara e já causou a polêmica silenciosa de maior proporção na semana: vinham de todos os lados os olhares barbarizados. Até da mulher gorda - esposa do barbeiro - que trazia copinhos e café em uma bandeja metalizada. A mulher, inclusive, interrompeu seus passos mecânicos para prestar atenção na jovem que entrara.
- Em que posso ajudá-la? - Enfim, o barbeiro entendeu que era sua responsabilidade explicar a situação aos presentes. Seu bigode espesso e grisalho muito bem aparado com uma mecha mais escura bem ao centro.
- Eu vim aparar as asas. Eu preciso apará-las... - Respondeu a jovem, emburrada. Continuava parada junto à porta, sem ousar qualquer movimento. A capa amarela parecia cobrir uma mochila gigante, larga, de forma caótica.
Dois homens estavam sentados nas cadeiras de couro preto, deixando de ler o jornal em mãos para se ocupar com a novidade em pessoa. Outros três sujeitos aguardavam sentados em móveis gastos de cor senil, um deles com o radinho de pilha próximo ao ouvido esquerdo.
- Pois não?! - O barbeiro soltou a navalha sobre o balcão e limpou as mãos em uma pequena toalha que um dia fora branca, interessado e confuso a respeito da história que a moça trazia.
Ela os poupou de mais suspense e abriu os botões da capa plástica. Puxou-a para o lado com força, revelando enormes asas de penas brancas fosforescentes. Já estava acostumada a ver olhos arregalados, e nada foi acrescentado a sua impaciência.
- Mas... mas... quê isso? Onde conseguiu isso, minha cara? - O barbeiro falava rápido, cuspindo sobre o jaleco companheiro. Sua mulher ainda estava parada no meio do cômodo, com as bochechas rosadas combinando com o batom. O corte de cabelo ultrapassado a lembrava constantemente de que era casada com um barbeiro e que, em seu destino, não constava uma capa de revista.
- Eu não consegui isso. Isso apareceu, ok? Aconteceu. É isso. - Explicou estressada, esperando que seus gestos dessem mais confiabilidade ao seu relato. Porém, depois de um tempo de diálogo reticente, percebeu que de nada adiantava tentar ser entendida. - Olha, cresceram muito nos últimos tempos, e não quero que rasguem mais ainda minhas roupas. É inverno, sabe? - Ninguém piscava. - É inverno, e chove mais, e as penas ficam meio podres se molham muito. É ruim de manter assim, fica complicado no dia-a-dia... Eu só preciso que o senhor apare um pouco. - A mulher gorda olhou para seu reflexo na bandeja com a esperança de não ver nenhuma estrutura com penas atrás de sua cabeça. - Nem precisa ficar perfeito, é só cortar um pouco.
O homem hesitou em responder. Pela primeira vez na vida talvez, direcionou à esposa um olhar de súplica, pedindo que ela desse seu parecer. Eis que a gorda não falou nada, e retornou ao marido um olhar assustado. Ele achou que prudente seria não bancar o teimoso naquela situação. Mas nada de palavras, até então.
- Tá, e aí? - A moça suspirou. - Olha, eu realmente preciso de ajuda. Se eu pudesse fazer isso sozinha, eu juro que faria, mas olha só... - Ela começou a girar no mesmo eixo, como se tentasse agarrar as asas presas em suas costas. - Viu, eu pareço um cachorro correndo atrás do próprio rabo! - E pela primeira vez ela riu, tentando compreender o quanto sua situação era estranha para aqueles indivíduos.
- Resolve logo isso! - Gritou a esposa do barbeiro nervosa. No fundo, queria dizer "Anda, tira essa aberração daqui!". Achou que a moça tinha mesmo pacto com o capeta e pensou que o melhor seria não provocá-la. Muito religiosa, só queria que a jovem com asas estivesse longe dali e jamais retornasse.
O barbeiro nem olhou para a esposa. Fez um aceno com a cabeça para um dos homens sentados nas cadeiras pretas e este levantou imediatamente, embaralhando o jornal antes de deixá-lo sobre uma mesa baixa recheada de panfletos e cartões de marcenarias. Fingiu um sorriso simpático e se encostou na parede, como se estivesse ansioso para presenciar a cena que viria a seguir.
- Senta. - O barbeiro estendeu as mãos para a moça, apontando a cadeira vazia. Ela olhou para ele e para a cadeira seguidas vezes antes de dar o primeiro passo. E, quando se sentou, o fez com leveza, agradecida. A mulher gorda apertando o terço na mão desocupada. Os homens impressionados, pensando em como contariam a situação aos amigos de forma que eles acreditassem. A moça aliviada, com os cabelos molhados emoldurando seu rosto cansado e alguns quilogramas a menos se espalhando pelo chão.



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Next!

As mãos trêmulas, o olhar assustado, o celular vibrando sobre o criado-mudo. "Atendo, não atendo, atendo, não atendo, atendo..?". A música insistia em tocar, mostrando que pelo menos um dos dois ainda tinha o que dizer. Sophie se irritava com sua demora em atender a ligação, mas aos poucos se convencia de que desejava mesmo ficar em silêncio, encerrar o drama. Uma hora a mais chorando é mais um período que se perde. E ela nem queria ter ocupado aquele espaço da vida dele. De verdade. E começou a culpar "o sistema", que pressiona as pessoas a forçar que se sentem atraídas e conectadas de alguma forma, numa tentativa de maquiar a solidão do dia-a-dia com garrafas de vinho, sorrisos inexpressivos e diálogos vazios. E transas fáceis. Vez após vez. Durante essa fase, em questão de três encontros já se tem um namorado - que, três meses depois, se tornará passado. Quatro meses, se houver muita boa vontade. E as semanas de Tim já tinham expirado segundo o conta-gotas de Sophie. "Fim. Simples assim. Não é de mim que você precisa, convenhamos.". Falsa (in)segurança. Talvez ela quisesse a prova de que ela estava errada, que estava sendo muito dura. E talvez fosse o que Tim estava tentando fazer ao insistir em discar os mesmos números. E ele fazia isso compulsivamente, como se houvesse algum erro na ordem dos algarismos. Apesar da preocupação, o que ele sentia era uma leve indiferença. "O fim nunca é mesmo o fim." São pessoas... ninguém funciona como um reloginho, que deixa de contar os minutos se está com a bateria descarregada. Nem tudo é necessariamente polarizado, existe um longo caminho entre o estar envolvido, apaixonado, o que for e o lado oposto. Mas talvez essa certeza seja o ponto cruel de toda a verdade: não perceber que houve uma rachadura. E não deveria ser tudo tão intenso em um tipo relacionamento que chega a acontecer umas quatro vezes ao ano. A falta de clareza em relação aos limites e aos próprios objetivos pessoais pode comprometer ainda mais a troca de sentimentos. E blá blá blá. Sophie esperou as ligações cessarem para ter de novo o celular em mãos. Limpou os olhos borrados de preto e repensou o horário que acordaria na manhã seguinte. Teve o azar de atender, por engano, a última tentiva de alcançar qualquer diálogo de Tim. Percebeu o feito segundos depois, se assustando com a voz grave. Desligou o aparelho. "Assim vou ficar sem despertador". Resolveu que ouviria o que ele tinha a dizer, afinal precisava acabar com tudo logo. Precisava trabalhar de dia, e a madrugada passa muito rapidamente. A fala dele parecia desesperada, como se tivesse passado um tempo imerso em água. E talvez ele mesmo estivesse consciente de que todo o drama talvez não valesse a pena. Talvez ela não fosse a pessoa certa mesmo. Se é que isso existe... "Foi muito bom, obrigado. Passar bem." - pensou em dizer. Seria grosseiro, de certa forma. Mas ela gostava de palavras cuspidas na cara. Sophie, aquela estranha que ele encontrara um dia na feira. Ela nunca ia na feira, ele estava lá por acaso - "bairro novo, sabe como é...". Ela contava os segundos para ver a luz do sol e nunca mais ouvir falar sobre aquele cara. Não que Tim merecesse o anonimato (pelo contrário, ela torcia para que a banda dele desse certo), mas de nada adiantaria mantê-lo ali, naquele espaço sem forma da vida de Sophie. Arquiteta, perfeccionista, mas incapaz de enquadrar Tim ou qualquer outro sujeito conhecido em seu projeto de vida. Ele não fazia o tipo sensível ou cavalheiro, mas ficara incomodado com a "vontade de liberdade" repentina de Sophie. Sua fala foi um tanto precipitada, querendo resolver logo quem ficaria com o quê, quando ela buscaria as roupas, se iriam juntos ao show para o qual já tinham comprado os ingressos. Ela estranhou a frieza. Para dizer a verdade, esperava um pouco mais de sofrimento, um pouco mais de enganação... "Oh, Sophie! Como vou viver sem você, minha querida?". Porque mesmo não acreditando que eles fossem certos um para o outro, ela queria acreditar que era a pessoa certa para outro alguém. Se é que isso existe. E ela queria que existisse. E, Tim, por sua vez, talvez sentisse certo alívio por tudo ter chegado ao fim. Nem sempre a maior angústia é de quem recebe calado a advertência. Ele consentiu.



segunda-feira, 11 de outubro de 2010

You better run for your life if you can, little girl

Ficamos parados na calçada e eu só conseguia pensar que eu não queria mais estar ali. Minha vontade foi de sair correndo e correndo e correndo e vencer a distância até a Lua ou até qualquer lugar muito distante que parecesse seguro. E, na minha mente, eu estava correndo com passos largos - conseguia ver o trajeto até o parque, recheado de construções não muito simpáticas, entediantes e sólidas, que não me ofereceriam refúgio algum. Mas meus pés estavam fixos no chão, como se uma corrente com uma esfera de ferro estivesse me impedindo de andar. E eu já não sabia se aqueles segundos em que eu ainda estava acompanhada deveriam ter um significado positivo. Eu não queria ouvir a resposta para o que eu dissera, não queria ouvir nada, absolutamente nada. Só queria fugir para qualquer lugar em que não existissem pessoas ou mesmo olhos para me observar. Qualquer julgamento é fatal quando nem nós mesmos sabemos o que estamos fazendo. E eu disse o que eu disse, contei o que eu fiz, e já nem sabia o quão verdadeiras eram minhas palavras ou mesmo meus sentimentos. Ele me olhou incrédulo, como se eu fosse a criatura menos merecedora de qualquer coisa. E não estou afirmando que eu não era essa criatura, apenas não sei dizer até que ponto tudo tinha ocorrido de forma intencional. E foi uma confusão: ele ficou mais do que chateado, eu fiquei mais do que perdida, e nós deixamos de trocar olhares. E, quando enfim eu corri, fui abordada por uma terceira pessoa que não tinha nada a ver com a história toda. Ele abriu os braços para mim e disse que eu estava certa. E eu sabia o quão errado ele estava, mas pensei que talvez estivesse certo. E se eu fosse a vítima da história? Aliás, por que eu não poderia ser? Quem disse que as coisas são preto no branco? Quem disse que eu agi por impulso e que agiria diferente se tivesse pensado a respeito? Eu parei de correr por dois segundos, então voltei a pular as lajotas numa tentativa de chegar no parque a tempo de ver o pôr-do-sol. Cheguei em casa sem perceber que errara o caminho, que eu deveria ter chegado no parque. Me senti tão fraca, tão fraca. E prometi que nunca mais ia ser sincera novamente - porque as pessoas não estão preparadas para ouvir as coisas, porque elas repudiam qualquer sinal de imperfeição. E eu quis correr mais, mas não havia fuga possível. Eu estava presa na minha cabeça, na bagunça dos meus pensamentos. Nem só de medo ou culpa ou raiva vive uma pessoa. E eu só queria entender por que parecia que eu estava tão errada, apesar de estar fazendo apenas o que eu sentia que deveria fazer.


terça-feira, 21 de setembro de 2010

Hello Goodbye

Aquela cena durou minutos patéticos. Eu percebi o quanto ele estava desconfortável ao me ver ali, onde ele estava almoçando com sua nova garota. Mas que se foda o desconforto dele, eu é que estava numa posição lamentável. Acenei do meu lugar, desejando que as fritas saltassem da frigideira diretamente para a minha boca e que, assim, eu pudesse dobrar a esquina o mais depressa possível. Mas acho que a boa educação dele resolveu mostrar seu lado incoveniente: "E aí, quanto tempo? Como vão as coisas?". Eu acho impressionante essa idéia que muitas pessoas compartilham de que, uma vez próximos, a intimidade entre dois indivíduos dura para todo sempre. Não! Se eu abandonei o curso que eu estava fazendo ou mudei de casa, nada disso vai fazer a vida de alguém tomar outro rumo. Não há o que ser dito. Respondi qualquer coisa neutra, do tipo que não evidencia minha felicidade ou meu fracasso. Bem sem sal. E era isso que eu queria transmitir, algo bem "ok, acabou a festinha. go home". Durante a tarde, pensei no quanto aquilo tudo tinha sido chato. Chato mesmo, entediante. As pessoas deveriam ter pelo menos umas duas conversas francas um tempão depois de alcançarem o final de seus relacionamentos. Para colocar tudo para fora, não necessariamente reparar algum sentimento. Dizer "oi, eu cheguei à conclusão de que seu edredon verde contribuiu muito para minha impaciência", "você é muito chato e eu odeio suas músicas", "adoro sua sobrancelha", "sua irmã é uma cretina". Ok, tudo isso exceto a parte da irmã. Passadas outras experiências, a gente acumula um monte de coisas para dizer a respeito de um alguém ou outro. Nem todo mundo gera essa multiplicação de pensamentos, é claro. Há quem seja tão limitado a ponto de ficar sempre no quadrado branco ou preto do tabuleiro... Mas igual eu acho que sempre vale a pena marcar um encontro ou escrever um bilhete para dizer "boring". O lado cruel de escrever é que, além de ser um ato covarde pela impossibilidade de ouvir a resposta no ato, impede que quem está lendo tenha o direito de não querer saber. A pessoa lê e pronto. Ouvir também tem esse lado, mas implica poder responder com um grito ou qualquer demonstração de insatisfação. O fato é que eu fiquei olhando para o cara na pastelaria dividindo um copo de refri com a nova garota e o meu aceno aconteceu como um gesto automático que ocorre frente a qualquer rosto conhecido. Não foi de forma alguma um convite para um diálogo, e essa liberdade em romper com as distâncias me irrita. Se eu fiquei afastada e não levantei a bunda da cadeira foi porque eu achei que meu lugar fosse realmente ali. Ele se aproximou com um sorriso ensaiado. Deixou a namorada ocupada com o cardápio e  começou a puxar assunto comigo, como se eu fosse o tipo de pessoa que cria uma lista de "novidades" e sai divulgando por aí. Até ele ir embora, tive de encenar aquele bom humor que nos é ensinado como sendo o mais indicado para situações inusitadas. Foi como se eu não tivesse o direito de estar em um dia ruim ou achar que ele estragou meu dia vindo falar comigo e me fazendo tirar os fones dos ouvidos. Sem pensamentos maldosos sobre eu sentir dor ou saudade ou qualquer coisa assim. Depois de um tempo, passei a ser extremamente crítica e descritiva a respeito dos caras com quem eu saía. Apelidei-os, agrupei todos em categorias: "engraçado", "drama queen", "pé feio", "só comia carne" e por aí vai. O sujeito da lancheria estava num nível médio de beleza - tinha cabelo esquisito, mas nada que uma tesoura não resolvesse. Não era de ver filme, ouvia música sem graça e falava que sabia tocar guitarra muito bem, apesar de eu nunca ter tido provas disso. Comia alface todo dia e era superamigo da mãe. Eu não estava perdendo nada ao querer ficar em paz com minhas batatas. Nem fiquei com vontade de despejar algumas palavras. Nem todo mundo merece minha atenção.


domingo, 15 de agosto de 2010

Comforting Sounds

Pegar um trem ou qualquer coisa que o valha com destino a qualquer lugar num dia chuvoso ou cinza ou simplesmente ventoso e reticente. Sentar num banco vazio, no assento próximo a janela. Tirar os fones de ouvido do bolso e começar a escutar a primeira música de uma lista infinita. E assim ser, por horas infindáveis.
Contrariar a vontade do mundo escorregando o vidro da janela de forma que o ar congelante entre. "De que adianta ser inverno se não sinto frio?!". Outrora, os dedos agitariam-se a bater nos joelhos ou a boca revelaria a canção; mas certos dias merecem mão no bolso e lábios cerrados. Olhos expressivos, mentindo estar sonolentos.
O clima é quebrado por um estranho a sentar-se no assento que sobrou. "O clima é sempre quebrado.", como se a solidão atraísse o barulho. Segundos depois, a paisagem re-ocupa o papel de protagonista. O conforto de ver mudanças sutis é incomparável, tão diferente das pessoas e suas opiniões.
Trocar a música alegre por uma mais monótona; encontrar um papel amassado no bolso. Abrir o papel e desejar não tê-lo visto. Suspirar mentalmente e olhar ao redor. Aparentemente, tudo está sempre estável. Sempre estável. E essa certeza é a maior prova do quão incertas são as coisas. "Tudo muda, ora ou outra. A agonia vem de não saber quando será a próxima vez.".
Olhar uma última vez para o papel e deixá-lo voltar para seu esconderijo: estratégia dramática e inútil de fugir das palavras. Deveria colocar no lixo todos os registros, todas as lembranças. O problema é que a memória deforma as mensagens, transforma sonhos em medo, faz a interpretação mudar de acordo com as emoções sentidas.
Sentir o corpo afundando no banco, os ossos ganhando peso, as forças se derretando. Não ter vontade alguma. Deixar a cabeça pesar sobre os ombros e fixar os olhos no horizonte. Pensamentos inquietos, silêncio e respiração arrastada. Envolver-se com o vento, deixar que gele as narinas; segurar com firmeza as mangas do casaco, escondendo as mãos.
Aumentar o volume da música, deixar as pálpebras pesarem e esquecer o mundo. Colocar um pé sobre o outro, enroscando os cadarços desamarrados. Não se importar com os fios de cabelo bagunçando-se diante dos olhos, com a boca seca, com as bochechas coradas. Não estar. E não ver o trem chocar-se com outro, que estava parado na estação. O sangue morno sobre o rosto e o papel seguro, apertado na mão fechada.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sobre a vida pós-filme.

          Acho engraçado o efeito que alguns filmes causam em mim: tem vezes em que, mesmo a história sendo boba e extremamente fictícia, eu fico completamente empolgado em tentar fazer a minha vida medíocre parecer algum roteiro raro e encantador e digno de alguns fãs de um vilarejo pequeno e alternativo qualquer. Saí do cinema com aquela sensação de que o mundo tinha mudado enquanto eu estava lá sentado, e resolvi arranjar algum novo problema para me ocupar. Não demorou muito para eu me encantar com uma garota na rua e começar a persegui-la pelo centro da cidade. Um tanto clichê essa mania de buscar logo alguém: as pessoas têm vício em desamores, chega a ser um exercício de autoflagelação quase ensinado nas escolas como uma disciplina obrigatória ou algo do gênero.
          Eu segui a dita-cuja por três quadras ou mais, depois enchi o saco. Ela não ia achar agradável saber que eu estava perseguindo-a e, se por acaso achasse, eu é que ia pensar que ela devia ser uma pessoa muito estranha. Estranha demais até para uma comédia romântica. Nos filmes, as pessoas podem até mostrar algum lado escroto ou simplesmente incomum, mas é tudo muito limitado: sem pêlos nas nádegas, sem seqüestradores, sem alergia a cachorros, sem pais alcoólatras. A garota era bonitinha, mas não parecia valer tanto a pena assim. Descartando os desentendimentos com o sexo oposto, não me restaram muitas opções: ou eu arranjava alguma briga e me saía super bem, ou eu descobria que tinha alguma doença rara e dava a volta por cima, ou eu fazia uma viagem inesquecível e resolvia abandonar a vida urbana, ou eu descobria alguma senha valiosa e fugiria dos poderosos que a mantinham ou... ou eu contava a vida de alguém. Boring.
          Eu precisava de baquetas, entrei numa loja e comprei dois pares. O efeito do filme começava a passar e eu ainda não tinha mudado a minha vida. E fazer isso sob pressão, ainda que fosse de minha autoria, não parecia tão bom. Na ficção, por mais que eu e todo mundo saibamos que é ficção, as coisas acontecem com tamanha naturalidade que, bem, eu não conseguiria reproduzir isso. E comecei a reparar no quão ridículas algumas situações são: esbarrei num sujeito que usava uma camiseta com a própria foto gravada. E dizia algo embaixo, estilo "super pai 2005". Por alguns segundos, fiquei realmente aliviado de não ser aquele homem de meia-idade decadente que trazia o rosto no peito. Passei pela frente de um motel, desacelerando os passos à medida que alguns carros se aproximavam. O sol estava ainda bem forte e, por algum motivo, houve alguma confusão na entrada dos veículos e uma fila se formou ao longo da rua. Tentei observar todos os casais que eu pude, e acho que alguns se ofenderam com minha curiosidade debochada. Homens de terno, mulheres de batom vermelho, gays e um carro estupidamente cheio.
          Quase chegando em casa, um amigo me ligou e me convidou para ver um filme qualquer. Apesar da preguiça, voltei ao mesmo cinema, sentei em uma cadeira diferente e resolvi experimentar de novo aquela sensação de achar que tudo mudou. Quem sabe ele teria alguma idéia que eu não tive e a gente viveria algo realmente novo, digno até de um filme. Ele não fazia o gênero 'cara bonito e extrovertido', o que talvez me deixasse mais à vontade para ser amigo dele, mas, naquele momento, talvez essas qualidades fizessem alguma falta. Com certeza não iríamos para Las Vegas, nem entraríamos num cruzeiro. Nem conseguiríamos arranjar companhia para a noite. Talvez alguma briga, mas nenhum de nós tinha coragem ou músculos o suficiente para ganhar alguma coisa. E também não estávamos doentes, nem ganharíamos na loteria, nem sabíamos cantar direito ou fazer algo direito. E estávamos acostumados demais com o concreto, as sinaleiras e o ar sujo. E não sabíamos de ninguém interessante para narrar sua vida. Achei tudo muito deprimente e nem consegui prestar atenção no filme.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Obituário

          Sentou-se na cama e ficou a contar as vezes em que dissera "adeus" ou fora vítima de uma dessas palavras de despedida. "O mais curioso é quando reencontramos a pessoa um tempo depois.", pensou. E esticou as pernas, vestiu a calça, o sorriso e o casaco. Olhou pela janela e viu a neve. "Neve é bom, sempre bom.", disse em voz baixa. Inspirou o ar demoradamente e, então, voltou-se para o lance de escadas que, em breve, desceria com passos agudos.
          Abriu a porta com certa rispidez e incomodou-se ao perceber que a neve que viu da janela não passou de propaganda enganosa aos seus olhos. Tirou do bolso uma touca feia e colocou sobre os cabelos amanhecidos. Caminhou até uma cafeteria, onde se acomodou e fez seu pedido. Sozinha na mesa, manteve sua atenção em uma outra mulher, também sozinha, que digitava ininterruptamente qualquer coisa no notebook. "J.K. Rowling escreveu Harry Potter em uma cafeteria.", pensou com certa felicidade. Depois de olhar com certa fascinação para a possível escritora da outra mesa, desfez seu sentimento infantil: "deve estar trabalhando em mais algum relatório chato.". E tomou seu café em total silêncio - nada ecoava em seu interior.
          Folheou um jornal local de dois dias atrás, em que fora apresentada uma extensa matéria sobre a morte misteriosa de um ator de filmes de baixo orçamento. Nunca ouvira falar no seu nome, nem conhecia seu rosto, mas naquele momento sentiu falta dele. E era assim constantemente: receber a notícia de que alguém morreu constituía um processo lento, de difícil digestão. Talvez fosse sintoma de sua mania de efemeridade, o que não deixava de aparentar insanidade. Pegou o celular com certa pressa e ligou para o amigo-de-sempre. "J., pega o jornal de terça. Vê se você conhece esse cara...", falou sem tirar os olhos da foto do ator.
          Duas horas depois, estavam os dois diante de um túmulo de um outro desconhecido.
- Acho que eu não conseguiria escrever um obituário.
- É, você não conseguiria mesmo. Quer dizer, não consigo te ver fazendo isso. Nem um pouco.
- E essas pessoas que fazem esse trabalho... elas se importam?
- Com o quê?
- Sei lá, olha a quantidade de gente que morre. Eu acho que ficaria deprimida de lidar com isso todo o tempo.
- Mas é só um trabalho... escrever e tal.
- E quem trabalha diretamente com isso? Enche as covas de areia, vende caixões, sei lá..?
- É só um trabalho.
           Pararam de falar quando um inseto verde pousou sobre a lápide, cobrindo uma letra do nome da pessoa morta de forma a mostrar uma palavra com sentido completamente pejurativo.
- É só um trabalho... e, além do mais, ninguém te obriga a ler o obituário. Você faz isso porque quer.
- Mas alguém tem que se importar!
- Mas as pessoas se importam! Quem deveria se importar se importa. Você não pode querer sentir falta de todas as pessoas do planeta.
- Por que não?
- Porque não.
- Por quê?
- N., saudade foi feita para se sentir daquilo que se teve, que se viveu... Isso que você sente - eu não sei o que é, mas não é saudade.
- Eu não disse que é saudade, eu disse que eu me importo.
- Que seja. Mas as pessoas morrem. É isso que elas fazem. Algumas vivem mais, outras vivem melhor... mas o que importa mesmo é que elas vão embora uma hora.
          Ficaram apreensivos quando um outro inseto, da mesma espécie, apareceu de repente e se encontrou com o primeiro, de forma que pareceram estar copulando.
- Mas eu acho que existe uma certa mágica nisso...
J. olhou dos insetos para N., em dúvida sobre o real tema que a conversa tratava.
- Sabe, mágica quando as pessoas morrem. É uma mágica triste, mas é algo meio natalino: como se houvesse mais perdão, mais solidariedade e as pessoas se voltassem mais para coisas mais importantes do que carros e dietas.
- Todas as vezes em que alguém morreu na minha família houve briga por causa da herança.
          Desistiram de observar os insetos e continuaram a dar passos lentos sobre a grama molhada.
- Tenho medo, eu acho, de ler por aí ou saber de forma ainda mais grotesca que alguém querido pra mim morreu.
- Mas isso não acontece assim... Quer dizer, acontece. Mas você geralmente fica sabendo com alguém te ligando aos prantos. A não ser que seja um acidente de carro.
- Tá, mas existem aquelas pessoas com quem a gente briga ou, enfim, pessoas de quem a gente se afastou, mas que foram importantes e a gente iria no velório delas, mas não seria convidado por ninguém.
- Mas aí é querer comprar briga com os amigos, a família do morto...
- Não, claro que não. Se a gente se importa de verdade, eu acho legal. Acho bonito, acho sincero. Chato é quando tem gente no velório que nem sabe porque está lá, ou quem era de fato o cara que morreu...
- Engraçado você falar isso. Achei que a gente visitasse túmulos de pessoas anônimas, mas agora sei que você conhece toda essa gente e que essas flores são da cor favorita de... desse sujeito aqui, "Thomas J. B.".
- Thomas?
- Ah, céus! Eu conheci esse cara.
- Que droga.
- É, que droga.
          N. jogou um montinho de flores azuis que trazia no colo sobre as pedras que enfeitavam a lápide.
- Que droga, N., que droga! Sabe, eu odeio fazer esses passeios. A gente sempre fica deprimido.
- Agora imagina se você escrevesse obituários.
[...]
 

domingo, 17 de janeiro de 2010

Completamente idiota.

E eu disse "Que droga, abre essa porta! Não quero me sentir um idiota completo.", mas quem me respondeu foi um vizinho. Resumindo, ele me xingou de várias coisas por estar gritando no corredor do apartamento dele de madrugada. E a vadia nem se prestou a me olhar da janela, ainda que fosse pra rir de mim quando eu tropecei num negócio que estava no caminho. No meio da rua, de madrugada, com chuva até na cueca: um verdadeiro idiota. Pra melhorar, não tinha nenhuma bosta de cafeteria aberta. Nem bar. Se eu decidisse que meu refúgio seria muita cachaça ou o que tivesse pra beber, nem assim eu conseguiria cumprir meu destino. Cheguei em casa e tive a capacidade de rasgar a manga da minha camisa na fechadura. Abri o armário, me sentindo um homem ferrado. Ferrado, mas homem. Sem potinhos coloridos na cozinha ou toalhas de renda pela casa: homem. E não tinha café! Não tinha a porcaria do café. E eu voltei a me sentir como um garotinho de 12 anos quando sentei à mesa sozinho e enfurecido para tomar leite. Leite com achocolatado. Não gosto do gosto de leite e admito isso, o que talvez faça de mim menos homem que os meus amigos. Quer dizer, quanta asneira! E daí eu fiquei com aquele nervosismo de quem sabe que tem que dormir (mas que não vai conseguir dormir), mas que não agüenta esperar pelo dia seguinte para ver como vão ficar as coisas. O problema em ser um idiota é que você sempre tende a fazer as piores escolhas. E, independentemente de fazer do melhor ou pior modo, as conseqüências sempre variam do grotesco e previsível ao caos total. Pensei em voltar lá e dizer pra minha namorada que eu não ia ficar atrás dela, que ela abrisse de uma vez a porta e parasse de criancisse... senão eu ia embora - definitivamente. Na verdade, foi o que eu tentei fazer da última vez que eu fui lá, quando o vizinho me botou pra fora e ameaçou chamar a polícia. Não nasci pra protagonizar cenas de amor. Pra mim essas coisas nunca dão certo. Eu esqueci de comprar café porque estava ocupado demais pensando em como explicar as provas da minha traição idiota. Verdadeira traição idiota: se fosse uma vadia gostosa, mas nem disso eu fui capaz. Levei qualquer uma pra casa, já era fim de noite e eu também não tenho muitas opções naturalmente. Sabe como é, "pegar ou largar". E eu peguei. E não foi ótimo nem nada, foi bonzinho. Sabe como é. O problema em admitir uma situação dessas é que a gente acaba ficando na mão dos outros. Na mão da namorada e até das amigas dela. Tô dizendo. Já me disseram - até meu pai já disse - que essas coisas são assim e a gente não pode admitir. Mas ela sabe que eu sou um idiota e etc. E o porcalhão do vizinho dela também. Acho que eu deveria tentar dormir. Ah é, eu estou molhado. Tinha me esquecido. Droga de camisa rasgada!


 

SL (parte 3)

Cabelos castanhos despenteados, presos com uma fita de cetim verde. Chiclete sabor tutti-frutti. Fones de ouvido. Olhos grandes e expressivos. Do tipo que atravessa a rua sem olhar para os lados, se baseando apenas nas "vibrações do chão". Camiseta cinza com estampa do Mickey. Saia rodada e joelhos machucados.


Gritei "Mary" e ela permaneceu parada na fila do caixa. E eu disse "Oh, Susie" em volume mais baixo, o que provocou um sorriso breve naquele rosto quase angelical. Ela só se rendeu quando ouviu "Hey, Jude" - resistiu a "Dana O'Hara" e "Jamie", mas só voltou-se para mim depois que eu falei em "Jude". Estranho, muito estranho: ninguém é indiferente a "Bette Davies".


Trocamos poucas palavras. Ela estava esperando para pagar um pacotinho com sementes. E refrigerante sabor limão. Me contou sobre sua idéia repentina de plantar flores, enfeitar sua janela. Não parecia ser do tipo que come alface e ama os animais. Me deixou em silêncio, observando novamente suas costas. E eu já não sabia a qual música teria de recorrer para ganhar sua atenção novamente.


"Samantha", "Julia", "Caroline", "Sara", "Polly", "Helena"... tudo em vão. De repente, ela se virou. Sobrancelha erguida. Mascava furiosamente o chiclete. Tudo isso faria sentido se a reação anterior não tivesse existido. Eu disse "Jude?!" com um sorriso nervoso, mas ela olhou para baixo e sacudiu a cabeça num sinal de "não". Parecia irritada com o meu não-entendimento dos fatos, e eu já estava me incomodando com aquela pressão para que eu decifrasse a mensagem.


Cabelos castanhos despenteados. Camisa xadrez verde, cinza e azul-marinho. Chiclete de menta. Chave pendurada no pescoço. Olhos pequenos e claros. Calça comprida e tênis com merda. Do tipo que adora cachorros, mas não sabe controlá-los no parque - e sempre arranja confusão com famílias que fazem piquenique.


Eu disse "Eu sei que fui eu quem começou com tudo isso, mas eu não entendo.", encarando os olhos grandes com os meus pequenos. Ela pegou da cesta que eu carregava a lata de extrato de tomate e o pacote de massa, e apertou cada um deles contra suas bochechas, num bizarro gesto amoroso.


Pagamos as compras e fomos cozinhar massa com molho e plantar flores. O que combinava com o "Hey" de "Hey, Jude" era o "Hey" de "Hey, Paul" e, em função disso, decidimos nos chamar por esses nomes fictícios e deixar de lado nossas verdadeiras identidades.


Acabei limpando a merda dos tênis na grama de um dos vizinhos de Jude, ainda no caminho para sua casa. Ouvi a história dos machucados dos joelhos dela e pensei em presenteá-la com joelheiras quando tivesse oportunidade. Só me enganei quando inferi seu gosto por alface: ela tinha uma plantação delas. 



 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

(sem sentido)


E eu poderia ter dito "Quer merda, John! Você fudeu com tudo!", mas dizer "John" no Brasil parece forçado, e dizer que o tal John teria realmente fudido com tudo seria mentira. Então, por um tempo, eu esqueci que estava no Brasil e procurei fingir que desconhecia as porcentagens de responsabilidades entregues a cada pessoa envolvida (50% pra cada um, afinal éramos apenas dois). Eu disse "Porra, John, você sempre fode com tudo!", o que era mais mentira ainda. Quando algo chega ao ponto de ser 'mais mentira ainda', é sinal de que perdemos a cabeça. Totalmente. Sem voltar atrás. E o John me olhou assustado, mas daquele jeito convicto. Ele sabia que ele estava certo. Mais do que isso: ele sabia que ele estava certo e que eu estava errada. Completamente errada. 100% errada. Ele deu um passo largo para trás, e ficou me olhando com uma expressão séria. Não era parecida com a cara de um pai quando está irritado com o filho, nem aquele tipo de seriedade que pode facilmente ser amenizada e seguida de um movimento engraçadinho de sobrancelhas: quando eu digo séria, eu digo realmente séria. E ela não mudaria por nada, eu achei. E pensei "Putz, Lia, você sempre fode com tudo!". Meu nome não é Lia, mas juro que no momento eu me autonomeei assim. Acho que a vergonha foi tanta que eu queria fugir dali e o máximo que eu consegui foi tentar mudar de identidade, mesmo que isso servisse de escudo invisível que não dura mais de doze segundos. E, no final, foi só isso: uma dessas atitutes que a gente tem por impulsividade, impulsividade pura. E se arrepende depois. Mas aí já era tarde: eu já tinha fudido com tudo. É o que acontece quando a gente está convicto demais de que pode ser uma Lia. Ou não.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Estilo "Let it be".

          E a gente fez aquela coisa de sentar onde der e ficar por isso mesmo. Eu nem lembro qual era o assunto, mas sei que não ficou aquela coisa de "Veja como o céu está estrelado!". Quando a gente não se importa muito com o que está ao redor, parece que ele incomoda menos: a grama não pinica, o clima fica mais agradável, o vento não é exagerado nem insuficiente.
          Eu fiquei pensando no que dizer e, ao mesmo tempo, eu não estava preocupada com o que eu diria exatamente, mas em estar ali. Dizendo besteira, dizendo o que fosse, ou não dizendo nada. A gente sempre tinha assunto, talvez até demais. Isso é reconfortante, parece ser tão ideal. E, então, o meu não saber o que dizer deixava de brilhar na minha mente: talvez o que eu não soubesse fosse o meu lugar naquilo. O meu lugar em tudo. E o não saber o que dizer deixava transparecer as reticências que me preenchiam.
          Até que eu disse "Hey, eu não sei o que dizer.", e isso foi tão porcamente sincero e não mostrou nada do que eu queria mostrar. Por trás das palavras que eu não sabia escolher, existia uma mensagem que insistia em ser pronunciada. Mas, antes das sílabas se encaixarem, eu precisava ter certeza de pelo menos alguma coisa naquela realidade tão cinematográfica.
          E sei lá quanto tempo se passou. Não farei suspense para concluir que eu não disse nada. Não disse, não disse nada do que talvez eu quisesse dizer. Mas tem coisas que parecem nos enganar: querem pular do coração para a boca, sem passar pela cabeça. Os pés têm que estar no chão - ao menos eles precisam estar a salvo... ao menos eles...
          O mais legal de tudo é que não foi uma cena romântica. Foi descontraída o bastante para poder se repetir involuntariamente quantas vezes fossem, sem se tornar clichê. E a gente fez aquela coisa de caminhar de um lado pro outro e não se encontrar. Parecia que existia uma barreira plástica que nos impedia de estar completamente no mesmo lugar - mas isso só causava mais interesse, mais curiosidade. E, por vezes, essa parede invisível filtrava algumas imperfeições. "Imperfeições... Imperfeições... Imperfeições não existem!", eu comecei a pensar. Acho que ele sempre teve acesso ao meu lado mais ou menos de ser. E talvez eu quisesse mostrar meu lado mais legal, digo realmente me esforçar.
          Para algumas pessoas vale a pena fazer algum esforço. Fato. E, de repente, foi o que ele fez também quando me poupou de elogios rotineiros, desses que qualquer um faz para qualquer uma. É engraçado pensar que talvez ele também estivesse lutando com as palavras, ou que desconhecesse seu papel em tudo. E acho estranho como eu me importo sem sofrer: de onde vem essa segurança e para onde ela vai? Às vezes, o que basta mesmo não é dizer a frase certa, mas estar presente. De corpo e alma, pés, mãos e boca. Estilo "Lei it be".



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gold Soundz

Ele parou o carro no posto de gasolina. Deixou o cara do posto enchendo o tanque e entrou na lojinha para comprar chicletes e coca-cola. Quando ele começou a se aproximar, eu fechei a janela do carro - deixei que o vidro escuro me deixasse quase invisível. Eu me sentia melhor assim, gostava de observá-lo sem que ele percebesse. Voltou com duas cervejas, os chicletes, a coca e uns três pacotes de bolacha. Pegou a chave com o cara e, uns segundos depois, estávamos de volta no asfalto. Durante a viagem, ouvíamos qualquer coisa. Digo isso porque nosso gosto era mesmo parecido. Músicas, livros, filmes e todas essas coisas que parecem dar mais sentido e personalidade às pessoas. Não exatamente tão clichê. A pretensão não era voltada para uma tentativa de fazer nascer qualquer porcaria de sentimento, apenas existia a intenção de aproveitar os acontecimentos. Se temos que viajar, que seja legal. Se queremos viajar, e queremos ir juntos, ok. Simplesmente ok. Estrada, noite, vento e música - nada errado. Eu sempre gostei de ficar olhando para o cabelo dos outros, mas, com ele, minha atenção sempre se voltava para sua barba enigmática. Eu falo isso porque nunca soube se ela era como era propositalmente ou por preguiça, acidente, qualquer outro motivo aleatório. Eu gosto de coisas inusitadas, e barba por fazer, e pessoas que se vestem bem porque realmente combinam com o que vestem (e não, necessariamente, porque combinam as peças ou coisa que o valha). Ele dirigia com uma mão na direção, falando besteira atrás de besteira. E como eu adoro besteira! O fato é que eu ri muito durante a merda da viagem. Aquelas seis horas passaram muito, muito rápido. Devo ter ouvido os melhores cd's do mundo e dito todas as coisas que me passaram pela cabeça. E, quando ele falava, eu ficava olhando a boca dele se mexendo. E pensando na barba, na maldita barba. E em todo aquele cabelo, que eu não hesitaria em bagunçar. Acho que uma das minhas marcas é despentear as pessoas. Tipo isso. E ele falava e abria tanto a boca, como se fosse comer o mundo com as palavras. E eu achava graça, eu sempre achei graça. Do lado dele, eu me sentia como uma música dos Pixies, um clipe de Killers, sei lá. Lost in Translation com o humor de Skins. Whatever. O fato é que madrugada combina com humor porco, e revelações, e todas as coisas sinceras e longe de serem avaliadas como certas ou erradas. Certos segredos só se vivem com estranhos. E é legal ter do seu lado uma pessoa de barba enigmática - ajuda a manter o ar impessoal. Eu me enrolei num casaco, encostei a testa no vidro e fiquei vendo as árvores se tornarem borrões no escuro. Sempre me pergunto o que eu faria exatamente se, do nada, estivesse do lado de fora do carro no meio do caminho entre uma cidade desconhecida e outra-que-sei-lá-qual-é. Ele me contou sobre suas férias de seis anos atrás, sobre sua relação com sua irmã, enumerou os defeitos da antiga escola e fez umas trocentas listas sobre todos os álbuns que eu tinha que ouvir. E me falou dos amigos, de como aprendeu a tocar baixo e todas aquelas histórias que eu gostava de ouvir repetidas vezes - apesar de ele raramente repetir alguma. Sempre tinha algo novo pra contar, uma nova porcaria que algum infeliz tinha feito. Eu gostava de fazer parte daquilo, gostava de estar ali comentando tudo abertamente. Trocávamos xingamentos e depois ele sempre me abraçava daquele jeito diferente. Grosseiro e afetuoso. E extremamente "dócil". Dócil é uma palavra estranha, mas se encaixa nessa situação. Por vezes, sentia vergonha por alguma grande merda que eu dizia. Daí, ele olhava pra mim com aquela cara de indiferença e dizia que eu tinha que agir assim mesmo. Grande merda mesmo. E, realmente, grande merda. Acho que as boas coisas realmente nascem daí, dessa espontaneidade, desse "eu sou assim mesmo" - que torna os erros apenas enganos passageiros (e pronto). Tudo é mais simples se é espontâneo, se ocorre naturalmente. Tudo cru. Cru. Cru é uma boa palavra, e é do tipo que ninguém fala ou escuta com muita freqüência - a não ser quem trabalha em uma cozinha. E eu sei lá se ele sabe cozinhar. Sei que a gente come qualquer coisa, como escuta qualquer coisa. Qualquer coisa, menos pastel de palmito com massa integral. Sabe, se eu for pensar bem, ele é organizadamente desajeitado. E eu adoro isso. Adoro pessoas que não parecem perfeitas e acabam se passando por isso justamente por serem exatamente como são. A gente dividiu a coca, acabou com os chicletes e se divertiu cantando rap e falando mal de quase todo mundo. Isso era uma coisa que eu admirava nele, esse "quase". A linha tênue entre o fazer ou não, que acabava silenciada no não. O silêncio, o silêncio dele era outra coisa que me intrigava. E, quando vencíamos a distância, e a barba se aproximava do meu rosto, eram seus olhos inusitados que me roubavam a atenção. E eu gosto de como grande parte da história é besteira, grande parte se resume em barba e cabelos e roupas. Nem só de subjetividade vive uma pessoa. O que é externo e visível importa, importa porque também agrada. E desagrada. E eu não sei se agrado. O fato é que eu continuo fechando a janela toda vez que ele se aproxima, numa tentativa de me esconder e poder observá-lo à vontade, livre da minha identidade e da responsabilidade de ser eu. Tem pessoas que me agradam tanto que, nem sei, me fazem querer estar por perto, mas escondida. Não seria insegurança. Talvez eu seja desajustada também. E grosseira, às vezes. Tanto faz, ele não se importa com essas porcarias. Ele é desses caras que fazem a gente ser a gente, defeituosamente a gente. E do jeito bom e lindo também.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Rainy Date

Eu fiquei parada no cordão da calçada, assistindo as rodas dos carros arremessarem água em mim. Não é que eu fosse de todo indiferente, mas eu realmente não estava vivendo a situação: meus pensamentos são aleatórios e constantemente me tiram da realidade. Não estava indecisa quanto a ir ou vir, correr para o outro lado ou voltar para lugar nenhum - estava mesmo era perdida nesse vão que existe entre o desejo e a busca. Certas buscas são inúteis. Inúteis, inúteis como são certos desejos. Mesmo que sejam desejos, sem a pretensão de serem mais do que desejos: desejos são feitos para os querermos e nada mais. São só desejos. E eu fiquei ali, na chuva, desejando o indesejável, contrariada com minhas próprias motivações.

.

A noite passada foi uma merda, uma merda de noite. Não dormi, não comi, mal respirei. E detesto quando acordo e o dia não parece dia novo, não tem cara de que houve mudança. Saí de casa com a expressão mais azeda no rosto, com meu olhar mais desprezível, com os tênis desamarrados - como se simbolizassem minha revolta, minha autoafirmação. E todos na rua pareciam beges e verdinhos e ensolarados apesar do dia ser chuvoso. Não peguei guarda-chuva, porque eu não uso um: não gosto de fingir que eu me sinto seco quando tudo ao meu redor está molhado e frio. Eu tenho essa mania de acabar parecido com o cenário, de absorver as cores e de agir como a situação pede - sem anestesia.

.

Ela vestia seu sorriso mais cinza, ele tragava seu humor mais impaciente. Se esbarraram no meio do asfalto, caminhando esbaforidos em sentidos contrários - o desejo e o não-anestésico. Alguns olhos conseguem ver além das aparências, algumas palavras conseguem traduzir o que os sentidos reproduzem mas, na cena, nenhum dos dois jovens viu no outro um pedaço de espelho. "A chuva lava, mas também afasta, muda as coisas de lugar". E o momento do encontro duraria menos se uma ponta de cadarço não tivesse sido alvo de um dos pés pequenos que desviava das poças do caminho: a garota não era do tipo bege ou verdinha, menos ainda parecia se importar de estar molhada - bem como o rapaz não parecia estar tão presente assim naquele instante. Não significaram nada um para o outro, mas estavam sob a mesma nuvem. Estranhos sob a mesma nuvem. E talvez nem fossem tão diferentes assim.


domingo, 21 de junho de 2009

gris.


A música começou a tocar e me deu aquela crise de nervosismo. Pra ser sincera, eu não esperava que ele fosse se levantar. Eu queria que ele deixasse aquela mesa e se aproximasse da minha, mas não achei que isso fosse acontecer tão no início da noite. O mais estranho é que, ao mesmo tempo em que eu fiquei eufórica, pensamentos superperturbadores me invadiram. Sabe, eu não queria dançar. Eu não sabia dançar. Dançaria se fosse com ele, mas, pelo mesmo motivo, eu não arriscaria colocar meus pés na pista. Se ele passasse reto por mim seria decepcionante, mas, se estendesse aquela mão bonita daquele modo clássico e brega, também seria desconfortável. Coitado, ele tinha tudo para me fazer feliz. Feliz e infeliz, porque eu nunca me dava por satisfeita.
Ele cumprimentou um conhecido dele que estava sentado quase à minha frente e então fez aquela coisa de subir a sobrancelha e fazer um aceno com a cabeça, num gesto quase imperativo que fez eu me levantar instantaneamente. A gente pegou dois copos e passou reto pelos casais que dançavam. Me disseram que nós ficávamos bonitinhos juntos e, de fato, dançando ou não éramos um belo par. Não que nós fôssemos dignos que ganhar coroas e título de rei e rainha do baile, essas coisas de filme, mas realmente nos dávamos bem. Realmente. E eu gostei de ter debruçado meus braços no parapeito da sacada e sentido um pouco daquela chuva na pele. Ele era uma boa companhia para dias e momentos cinzas. E festas, para mim, tendem a ter essa cor.
Nós ficamos conversando, conversando como pessoas que se gostavam. Isso engloba amizade e um pouco de ciúme talvez - ainda que não se note exatamente isso em uma conversa. Sempre achei engraçado que, desde o início, mantínhamos uma relação internalizada, ao contrário do que se vê por aí. E, apesar de falar muito sobre muita coisa, eu sentia que ainda teria muito por vir. Muito o que falar, o que ouvir e o que sentir. Ele era dessas "pessoas que te fazem sentir", como dizia uma propaganda de seriados da tevê. Acho que não conheço, hoje, outro exemplo para citar. Mesmo quando ficávamos em silêncio, não era de todo mal: ele me causava aquela mistura de emoções e pensamentos e, por menos próximos que fôssemos um do outro, eu sentia que naquela distância que nos separava existia uma grande razão.
Eu não sei se queria mesmo dançar ou se era só o desejo de me sentir tão bem quanto os outros pareciam se sentir. Sempre achei isso uma grande bobagem e evitei que essa preocupação tomasse grandes proporções, mas, naquele segundo, essa dúvida me incomodou. Uma música antiga atrás da outra, luzes discretamente coloridas e sorrisos bonitinhos: aquele ambiente algodão-doce nunca me parecera tão atrativo. E peguei a mesma mão bonita que não fizera o gesto de cavalheiro para mim e a segurei na altura dos meus olhos. Então, deixei que ela se acomodasse onde antes estava, pensando em como justificaria aquele gesto impulsivo. Ele passou os dedos no meu rosto carinhosamente, como fazia às vezes, e nada disse. Nós ficamos nos olhando por um tempo, até que fomos interrompidos pela risada escrota de uma garota bêbada que tinha escorregado nas lajotas molhadas.
Tanto faz, nós não ficaríamos muito tempo juntos. Ele saiu mais cedo com uns dois amigos para beber em algum lugar, mas agradeceu minha companhia. Eu também me senti grata pelas palavras trocadas e por todo aquele bem-estar. E, por mais ingênua que fosse, eu ficava alegre em saber que produzia algum bom efeito em alguém que, pra mim, era especial. Meu medo era de fazer com que ele se acostumasse a me ter sem que eu pudesse acessá-lo do mesmo modo - ou, talvez, meu medo se resumisse em não estar mais com ele. Mesmo que nós só "estivéssemos" nesse tipo de situação em que você se aproxima de alguém ímpar quando tudo a sua volta é par. Tem vezes em que é mais importante dançar, independente da companhia - mas essa parte eu não sabia fazer. Talvez ele precisasse de alguém que o estimulasse, que o fizesse se sentir como todo mundo que mantinha aquele sorriso bobo no rosto. Mais provável, porém, é pensar que ele não precisava de nada, de ninguém. E tudo o que eu tinha que fazer era fingir muito bem que eu não me importava.
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