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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre amor em tempos de avião

Sou do tempo em que o príncipe encantado era aquele que lutaria bravamente pela princesa - ou, pelo menos, sofreria muito com a dor de sua perda. Digno de um final estilo Romeu e Julieta. Quando eu falo em sofrer, quero dizer arrancar os cabelos, chorar soluçando com o rosto vermelho e todas esses gestos dramáticos de quem só consegue expressar o desespero em ações, ainda que pareçam limitadas. O sentimento é tanto que não há espaço para razão, para palavra ou frase. E a recíproca seria verdadeira. Oh, o drama da distância, da saudade, dos empecilhos...
Por mais que a tecnologia tenha melhorado muito os meios de comunicação, eu continuo com um resquício desse velho modo de pensar. Que lindo seria acordar com pedrinhas batendo no vidro da janela. Sei lá, eu não estou falando de flores nem nenhuma declaração necessariamente formal de amor. Mas acho interessante pensar nesse modo "antigo" e mais lento de viver intensamente os relacionamentos. Eu penso que de nada adianta se revestir de armaduras - válido é viver, com todas as qualidades possíveis (e indesejáveis também). Se não der certo, paciência. Mas... antes do "paciência", deve existir a crise. A crise é essencial para a formação da identidade de qualquer um - mesmo que isso não apareça em nenhum livro de auto-ajuda. A graça de tudo é o barulho. Relacionamento sem barulho não existe - onde está o resultado da interação?
Fico pensando que hoje em dia qualquer distanciamento é muito mais acessível - apesar de parecer cada vez menos desejável. É só pegar um avião. Mas e o resto? O que fica? O que vai? Por um lado, penso que devemos fazer escolhas sem deixar que certas questões interfiram na decisão. Mas não sei até que ponto essa frieza é sincera ou mesmo benéfica. As vontades de ir e ficar podem coexistir, é claro, mas acredito que - mesmo que inconscientemente - esse período entre uma coisa e outra compreende o desejo de sentir que fará falta. Você vai por querer conhecer o novo, por querer pertencer a um novo espaço. Mas, para isso, como um conforto ou pura segurança, é desejável que uma parte fique - nem que seja um pedacinho - para manter viva naquele local a presença ou a lembrança de alguém que, sim, é importante.
Por mais piegas que isso seja, eu costumo achar compreensível aquelas cenas de filmes e afins em que alguém vai correndo até o aeroporto impedir alguém de embarcar. Ok, geralmente a pessoa decide isso minutos antes do horário do vôo, mas faz parte do suspense amoroso. Não lembro de ter feito nada parecido e nem lembro de nenhum caso com um conhecido. Mas gostaria que isso fosse mais comum. Que essa impulsividade, esse desespero, fosse mais expresso. Não que as pessoas não possam ir... Elas podem. Elas devem. Mas o barulho deve existir. Quantos relacionamentos não terminam por causa de uma viagem? Claro que eu entendo a realidade, os motivos e todas as conseqüências que as novidades podem trazer, mas questiono até que ponto se deve assistir a tudo isso. De mãos no bolso. Assim.
Talvez o que eu esteja tentando dizer seja simplesmente aquela velha história de dizer coisas reais e bonitas a pessoas queridas em tempo de ser ouvido. Mas eu gosto de pensar que é mais do que isso. Porque dizer já se trata de um segundo passo, em que a pessoa já está consciente de seus desejos e suas necessidades, e expressa isso em forma de ação. O primeiro passo é sentir. Sentir, morrer, se descabelar, chorar, ter pensamentos absurdos e catastróficos. Absorver sem utilizar o filtro da racionalidade. Voltar ao zero, sentir-se sozinho no escuro. Acho que todo mundo deveria se sentir assim um dia para, então, experimentar o amor.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fuck this shit.

"Acabei me sentando num banco, num canto um pouquinho menos escuro. Puxa, ainda estava tiritando como um filho da mãe e na parte de trás da cabeça, apesar de eu estar de chapéu, tinha uma porção de pedacinhos de gelo. Isso me preocupou. Achei que provavelmente ia apanhar uma pneumonia e morrer. Fiquei imaginando milhões de chatos indo ao meu enterro e tudo.  Meu avô de Detroit, aquele que fica lendo alto o nome das ruas quando a gente anda numa porcaria dum ônibus com ele, e minhas tias - tenho umas cinqüenta tias - e todos os nojentos dos meus primos. A tropa toda ia estar lá. Estavam todos lá quando o Allie morreu, a cambada toda de imbecis.  Tenho uma  tia imbecil, que tem mau hálito, que não parava de repetir que ele estava tão sereno no caixão. O D.B. é que me contou, eu não fui lá. Ainda estava no hospital. Tive que ir para o hospital e tudo quando machuquei minha mão. Seja como for, fiquei com medo de apanhar uma pneumonia e morrer, por causa daqueles flocos de gelo no cabelo. Me deu uma pena danada do meu pai e da minha mãe. Especialmente da minha mãe, porque ela ainda não se conformou com a morte do Allie. Ela não ia saber o que fazer com todos os meus ternos e equipamentos esportivos e tudo.  Só tinha uma coisa boa, era saber que ela não ia deixar a Phoebe assistir à droga do meu enterro porque é muito criança.  Essa era a única coisa boa. Aí pensei na cambada toda me metendo numa droga de cemitério, com meu nome num túmulo e tudo.  Cercado de gente morta.  Puxa, depois que a gente morre, eles fazem o diabo com a gente.  Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz idéia de me atirar num rio ou coisa parecida.  Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente vindo todo domingo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto?  Ninguém.
 

Quando faz bom tempo, meus pais vão freqüentemente ao cemitério e espetam um punhado de flores no túmulo do Allie. Fui com eles umas duas vezes, mas aí parei. Em primeiro lugar, não tenho o menor prazer em ver o Allie naquele cemitério maluco. Todo cercado de caras mortos e túmulos e tudo. Não é tão ruim quando faz sol, mas duas vezes - duas vezes - estávamos lá dentro quando começou a chover. Foi horroroso. Choveu na porcaria do túmulo dele, e choveu na grama em cima da barriga dele. Chovia por todo lado. O pessoal todo que estava de visita saiu correndo para os carros. Foi isso que me deixou doido. Todo mundo podia correr para dentro dos carros, ligar o rádio e tudo e ir jantar em algum lugar bacana - todo mundo menos o Allie. Não agüento um troço desses. Eu sei que é só o corpo dele e tudo que está no cemitério, que a alma está no céu e essa merda toda, mas assim mesmo não podia agüentar aquilo. Só queria que ele não estivesse lá. Quem conheceu o Allie entende o que estou querendo dizer. Não é tão mau assim quando tem sol, mas o sol só aparece quando cisma de aparecer."


J.D. Salinger


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sobre certas músicas e seus ouvintes.

Eu fico meio angustiada quando vejo alguém curtindo muito uma música porque a considera romântica, sendo que a letra não faz sentido nenhum e/ou é total não-romântica. Tinha um amigo que implorava para que ninguém contasse a história de alguma música ou traduzisse alguma coisa da letra (é, ele realmente não era bom em inglês). Eu entendo ele, porque eu mesma me deprimo quando não gosto da letra ou percebo que, aos meus ouvidos, a mensagem destoa da melodia. E isso se torna bem comum à medida que novelinhas tipo Malhação ganham trilha sonora de Silverchair. Enfim. Isso não era para ser um texto nem algo muito emocionante, só um desabafo. Eu cheguei em casa e estava tocando "Last Kiss" (Pearl Jam) e isso me deixou um tanto deprimida. Sei lá, em férias invernais, um pouco de depressão cai bem. Mesmo que dessa vez não tenha sido nada muito espontâneo ou passageiro. Por sinal, hoje foi um dia de calor. Nada típico. E não é que eu pense que as músicas devam ser todas iguais e previsíveis e que todos os sentimentos devam ser demonstrados da mesma maneira, mas é que realmente me angustia como em um mesmo lugar as pessoas podem alcançar extremos de felicidade, dor e todas as coisas humanas.

PS: acho que é hora de reler de novo (de novo, de novo, de novo) o Apanhador.


(Merlin e Vivian)
(?)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Chá das cinco.

Virei o chá quente na mão, nas pernas, nos pés. O suspiro foi exagerado, proporcional à sensibilidade do meu dedo. Tá doendo até agora. Eu olhei pro lado e vi ele me olhando daquele jeito imparcialmente neutro, do tipo que até sente pena, mas não o bastante para dar um abraço - o suficiente para pensar "você vai ter que aprender a lidar com isso" (eu diria "com a dor", mas percebo agora o quanto essa diferença na escrita modificaria intencionalmente o significado...). A queimadura me serviu de motivo para poder suspirar, reclamar em voz alta, já que os outros problemas me exigiam postura de adultez. Mas, oras, o que é ser adulto? O que é ser grande? O que é a maturidade numa hora dessas - em que os ponteiros seguem seu ritmo torto por trás do vidro do relógio inviolável? Eu voltei reclamando da dor no dedo a viagem inteira. Ele reclamava do frio intenso. E seguimos trocando reclamações - a placa que não indicava a direção correta, não-sei-quem que tinha feito não-sei-o-quê. Foi a maneira encontrada para externalizar, de modo adulto (embora aparentemente bobo), a angústia, a raiva, a insatisfação. Os adultos não sofrem, não sentem medo, não têm dúvidas. Eles simplesmente enfrentam o que for. E eu desejei que fosse ele quem tivesse queimado o dedo, e que fosse só isso. Que fosse eu a fazer o papel de quem observa. Desejei mais, desejei sentir muita, mas muita dor. Desejei que aquele chá fosse capaz de concentrar em mim toda aquela dor que o silêncio entre nós dois guardava. Mas era só um chá. E, naquele momento, tínhamos que ser dois adultos. Era o que ditava a regra... uma vez conhecido o "efeito dominó", se busca impedir que qualquer peça caia. Mesmo que isso implique conter suspiros, soluços e lágrimas.

"Eu volto pra casa... e te peço pra ficar. Em silêncio... Só ficar."



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Next!

As mãos trêmulas, o olhar assustado, o celular vibrando sobre o criado-mudo. "Atendo, não atendo, atendo, não atendo, atendo..?". A música insistia em tocar, mostrando que pelo menos um dos dois ainda tinha o que dizer. Sophie se irritava com sua demora em atender a ligação, mas aos poucos se convencia de que desejava mesmo ficar em silêncio, encerrar o drama. Uma hora a mais chorando é mais um período que se perde. E ela nem queria ter ocupado aquele espaço da vida dele. De verdade. E começou a culpar "o sistema", que pressiona as pessoas a forçar que se sentem atraídas e conectadas de alguma forma, numa tentativa de maquiar a solidão do dia-a-dia com garrafas de vinho, sorrisos inexpressivos e diálogos vazios. E transas fáceis. Vez após vez. Durante essa fase, em questão de três encontros já se tem um namorado - que, três meses depois, se tornará passado. Quatro meses, se houver muita boa vontade. E as semanas de Tim já tinham expirado segundo o conta-gotas de Sophie. "Fim. Simples assim. Não é de mim que você precisa, convenhamos.". Falsa (in)segurança. Talvez ela quisesse a prova de que ela estava errada, que estava sendo muito dura. E talvez fosse o que Tim estava tentando fazer ao insistir em discar os mesmos números. E ele fazia isso compulsivamente, como se houvesse algum erro na ordem dos algarismos. Apesar da preocupação, o que ele sentia era uma leve indiferença. "O fim nunca é mesmo o fim." São pessoas... ninguém funciona como um reloginho, que deixa de contar os minutos se está com a bateria descarregada. Nem tudo é necessariamente polarizado, existe um longo caminho entre o estar envolvido, apaixonado, o que for e o lado oposto. Mas talvez essa certeza seja o ponto cruel de toda a verdade: não perceber que houve uma rachadura. E não deveria ser tudo tão intenso em um tipo relacionamento que chega a acontecer umas quatro vezes ao ano. A falta de clareza em relação aos limites e aos próprios objetivos pessoais pode comprometer ainda mais a troca de sentimentos. E blá blá blá. Sophie esperou as ligações cessarem para ter de novo o celular em mãos. Limpou os olhos borrados de preto e repensou o horário que acordaria na manhã seguinte. Teve o azar de atender, por engano, a última tentiva de alcançar qualquer diálogo de Tim. Percebeu o feito segundos depois, se assustando com a voz grave. Desligou o aparelho. "Assim vou ficar sem despertador". Resolveu que ouviria o que ele tinha a dizer, afinal precisava acabar com tudo logo. Precisava trabalhar de dia, e a madrugada passa muito rapidamente. A fala dele parecia desesperada, como se tivesse passado um tempo imerso em água. E talvez ele mesmo estivesse consciente de que todo o drama talvez não valesse a pena. Talvez ela não fosse a pessoa certa mesmo. Se é que isso existe... "Foi muito bom, obrigado. Passar bem." - pensou em dizer. Seria grosseiro, de certa forma. Mas ela gostava de palavras cuspidas na cara. Sophie, aquela estranha que ele encontrara um dia na feira. Ela nunca ia na feira, ele estava lá por acaso - "bairro novo, sabe como é...". Ela contava os segundos para ver a luz do sol e nunca mais ouvir falar sobre aquele cara. Não que Tim merecesse o anonimato (pelo contrário, ela torcia para que a banda dele desse certo), mas de nada adiantaria mantê-lo ali, naquele espaço sem forma da vida de Sophie. Arquiteta, perfeccionista, mas incapaz de enquadrar Tim ou qualquer outro sujeito conhecido em seu projeto de vida. Ele não fazia o tipo sensível ou cavalheiro, mas ficara incomodado com a "vontade de liberdade" repentina de Sophie. Sua fala foi um tanto precipitada, querendo resolver logo quem ficaria com o quê, quando ela buscaria as roupas, se iriam juntos ao show para o qual já tinham comprado os ingressos. Ela estranhou a frieza. Para dizer a verdade, esperava um pouco mais de sofrimento, um pouco mais de enganação... "Oh, Sophie! Como vou viver sem você, minha querida?". Porque mesmo não acreditando que eles fossem certos um para o outro, ela queria acreditar que era a pessoa certa para outro alguém. Se é que isso existe. E ela queria que existisse. E, Tim, por sua vez, talvez sentisse certo alívio por tudo ter chegado ao fim. Nem sempre a maior angústia é de quem recebe calado a advertência. Ele consentiu.



segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sobre a quebra da inocência.

Não sei definir "quebra da inocência" de maneira menos brega ou mais complexa. Nomeio assim aqueles sustos momentâneos que fazem com que a criança amadureça de forma bruta, sem o intermédio de adultos que tentam amenizar a situação com eufemismos. É um fenômeno extremamente subjetivo, que é absorvido de formas diferentes por cada um. Minha vontade era de descobrir todas as formas que esse acontecimento assume, de analisar todos os contextos. Eu penso que são esses pequenos "baques" que comprometem a nossa estrutura infantil e nos tiram da redoma do mundo imaginário. Eu posso parecer estar trazendo palavras óbvias e velhas, mas eu realmente duvido que exista um número considerável de pessoas que pense nisso com a mesma intensidade. São cenas como a do Holden quando vê "Fuck you" pichado na escola da irmã pequena. A quebra da inocência tem esse caráter cruel da irreversibilidade, esse escancaramento da verdade incoveniente, esse poder de assombrar as mentes ingênuas, instigá-las a dar uma de Pandora e abrir a caixa. É o limite entre o mundo real e o mundo ideal. Mostra que os sonhos são apenas sonhos. É como ouvir por detrás da porta que um parente querido morreu. Mais do que isso: a quebra da inocência se dá nos milissegundos em que a criança passa a entender o significado de morte. Mesmo que isso seja um processo natural do aprendizado. De baque em baque, a criança cresce e muda sua maneira de interpretar o mundo. Percebe o quanto as pessoas são vulneráveis, o quanto as famílias não são perfeitas, percebe que as coisas não são estáveis. Vai se decepcionar ora ou outra, vai perder, e terá de aprender a lidar com isso sem se tornar um falso-herói. Esse assunto me faz pensar em bullying, sexo, e outras coisas aleatórias, tipo eu aos doze ou quatorze anos. Parece muito coisa de menininha, mas é tão universal. E eu acho absurdo o modo como as redomas das novas gerações vem sendo bombardeadas.


You better run for your life if you can, little girl

Ficamos parados na calçada e eu só conseguia pensar que eu não queria mais estar ali. Minha vontade foi de sair correndo e correndo e correndo e vencer a distância até a Lua ou até qualquer lugar muito distante que parecesse seguro. E, na minha mente, eu estava correndo com passos largos - conseguia ver o trajeto até o parque, recheado de construções não muito simpáticas, entediantes e sólidas, que não me ofereceriam refúgio algum. Mas meus pés estavam fixos no chão, como se uma corrente com uma esfera de ferro estivesse me impedindo de andar. E eu já não sabia se aqueles segundos em que eu ainda estava acompanhada deveriam ter um significado positivo. Eu não queria ouvir a resposta para o que eu dissera, não queria ouvir nada, absolutamente nada. Só queria fugir para qualquer lugar em que não existissem pessoas ou mesmo olhos para me observar. Qualquer julgamento é fatal quando nem nós mesmos sabemos o que estamos fazendo. E eu disse o que eu disse, contei o que eu fiz, e já nem sabia o quão verdadeiras eram minhas palavras ou mesmo meus sentimentos. Ele me olhou incrédulo, como se eu fosse a criatura menos merecedora de qualquer coisa. E não estou afirmando que eu não era essa criatura, apenas não sei dizer até que ponto tudo tinha ocorrido de forma intencional. E foi uma confusão: ele ficou mais do que chateado, eu fiquei mais do que perdida, e nós deixamos de trocar olhares. E, quando enfim eu corri, fui abordada por uma terceira pessoa que não tinha nada a ver com a história toda. Ele abriu os braços para mim e disse que eu estava certa. E eu sabia o quão errado ele estava, mas pensei que talvez estivesse certo. E se eu fosse a vítima da história? Aliás, por que eu não poderia ser? Quem disse que as coisas são preto no branco? Quem disse que eu agi por impulso e que agiria diferente se tivesse pensado a respeito? Eu parei de correr por dois segundos, então voltei a pular as lajotas numa tentativa de chegar no parque a tempo de ver o pôr-do-sol. Cheguei em casa sem perceber que errara o caminho, que eu deveria ter chegado no parque. Me senti tão fraca, tão fraca. E prometi que nunca mais ia ser sincera novamente - porque as pessoas não estão preparadas para ouvir as coisas, porque elas repudiam qualquer sinal de imperfeição. E eu quis correr mais, mas não havia fuga possível. Eu estava presa na minha cabeça, na bagunça dos meus pensamentos. Nem só de medo ou culpa ou raiva vive uma pessoa. E eu só queria entender por que parecia que eu estava tão errada, apesar de estar fazendo apenas o que eu sentia que deveria fazer.


domingo, 15 de agosto de 2010

Comforting Sounds

Pegar um trem ou qualquer coisa que o valha com destino a qualquer lugar num dia chuvoso ou cinza ou simplesmente ventoso e reticente. Sentar num banco vazio, no assento próximo a janela. Tirar os fones de ouvido do bolso e começar a escutar a primeira música de uma lista infinita. E assim ser, por horas infindáveis.
Contrariar a vontade do mundo escorregando o vidro da janela de forma que o ar congelante entre. "De que adianta ser inverno se não sinto frio?!". Outrora, os dedos agitariam-se a bater nos joelhos ou a boca revelaria a canção; mas certos dias merecem mão no bolso e lábios cerrados. Olhos expressivos, mentindo estar sonolentos.
O clima é quebrado por um estranho a sentar-se no assento que sobrou. "O clima é sempre quebrado.", como se a solidão atraísse o barulho. Segundos depois, a paisagem re-ocupa o papel de protagonista. O conforto de ver mudanças sutis é incomparável, tão diferente das pessoas e suas opiniões.
Trocar a música alegre por uma mais monótona; encontrar um papel amassado no bolso. Abrir o papel e desejar não tê-lo visto. Suspirar mentalmente e olhar ao redor. Aparentemente, tudo está sempre estável. Sempre estável. E essa certeza é a maior prova do quão incertas são as coisas. "Tudo muda, ora ou outra. A agonia vem de não saber quando será a próxima vez.".
Olhar uma última vez para o papel e deixá-lo voltar para seu esconderijo: estratégia dramática e inútil de fugir das palavras. Deveria colocar no lixo todos os registros, todas as lembranças. O problema é que a memória deforma as mensagens, transforma sonhos em medo, faz a interpretação mudar de acordo com as emoções sentidas.
Sentir o corpo afundando no banco, os ossos ganhando peso, as forças se derretando. Não ter vontade alguma. Deixar a cabeça pesar sobre os ombros e fixar os olhos no horizonte. Pensamentos inquietos, silêncio e respiração arrastada. Envolver-se com o vento, deixar que gele as narinas; segurar com firmeza as mangas do casaco, escondendo as mãos.
Aumentar o volume da música, deixar as pálpebras pesarem e esquecer o mundo. Colocar um pé sobre o outro, enroscando os cadarços desamarrados. Não se importar com os fios de cabelo bagunçando-se diante dos olhos, com a boca seca, com as bochechas coradas. Não estar. E não ver o trem chocar-se com outro, que estava parado na estação. O sangue morno sobre o rosto e o papel seguro, apertado na mão fechada.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ex-amigos II



Tem um assunto sobre o qual venho pensando que abrange uma série de pessoas que (ainda) são próximas ou que um dia já estiveram mais envolvidas comigo. É justamente sobre essa distância que, com ou sem motivo, começa a existir do nada. Há oito anos atrás, meus amigos eram outros. Diria que uma pessoa de todas as outras permanece intocável, com seu lugar garantido próximo ao "topo da pirâmide". Sim, é claro que existe a pirâmide. Para alguns, as pessoas mudam de posição ao longo dos andares o tempo todo; para outros, a organização ocorre de forma diferente. Eu acho que tudo depende do momento em que está se vivendo, mas há uma forte influência de experiências anteriores. "Bons amigos não deixam de ser bons amigos". Não sei se essa frase poderia explicar o que eu quis dizer. Ah, é aquilo de que talvez tua colega da faculdade entenda melhor algum problema teu em função de fazer parte de uma porção da tua realidade - mas teu melhor amigo de infância não vai ser menos importante, afinal ele te conhece muito bem e tralalá.

Na real, eu estou bem confusa. No fundo, não acho que o que mate a amizade seja a famosa distância (física). De repente, isso é uma desculpa comum e é mais fácil usá-la do que encarar uma série de outros fatores. A natureza da pessoa deve ser levada em conta. Eu disse isso por um motivo extremamente pessoal e egoísta, porque eu não faço o tipo que procura as pessoas mais do que uma vez ao ano, apesar de me importar loucamente e sentir saudade e tudo mais. Eu me adaptei a ficar mais sozinha, o que não quer dizer que eu não precise ter pessoas ao meu lado. Essa necessidade é diferente da dependência - que eu considero algo destrutivo. Falei isso porque já fui bem criticada quanto ao meu jeito "não procuro lifestyle". Não estou querendo parecer teimosa ou incapaz de ceder ou mudar, coisas assim... Eu acredito que amizade verdadeira não tem isso de "cobrança", mas intimidade: confiança para entender que "tudo bem" uma pessoa procurar a outra por qualquer motivo, a hora que for, para qualquer coisa - sem medo da resposta. Mesmo que aconteça o inevitável, que os amigos já não pertençam mais à rotina como no passado, eles vão se sentir acolhidos nos poucos momentos vividos juntos. É nisso que eu acredito. Existe o estranhamento, as diferenças, as incompatibilidades de horários, de opiniões, de gostos musicais ou de filmes ou de livros. Mas o "algo maior" supre isso. É assim que deveria ser.

Encontrei uma pessoa na rua ontem e não soube, na hora, se um cumprimento seria bem-vindo. Cheguei em casa e me deparei com uma "discussão" (conversa, sei lá), que me deixou um tanto chateada. Vejo as fotos espalhadas pelo quarto e penso "oh, a fulana! nunca mais soube da vida dela", coisas do gênero. Por um lado, tudo isso me deixa angustiada. Por outro, sinto vontade de jogar tudo para o alto, de não ter mais que encarar esses fins reticentes e silenciosos. Finais... não sei até que ponto existe mesmo um ponto final. Seria mais prático, talvez, se existisse um contrato e a gente soubesse quando nossos relacionamentos vão expirar [?]. O fato é que a pessoa-que-eu-vi-na-rua me deu um oi e um sorriso amarelo, e eu fiz o mesmo. E eu estou evitando a minha discussão com outra pessoa. Acredito que isso seja considerado um defeito, apesar de eu não concordar, mas eu tenho a mania-mulherzinha de pensar que o outro deve entender o que fez de errado comigo. Se eu percebo que existe uma intenção, mas que ele não consegue entender porque eu reagi de forma negativa a alguma ação dele, eu explico, é claro. Mas primeiro existe o "reflita, ciclano". Haha, que sádico isso. Enfim, estou evitando a tal discussão porque, pra mim, a relação já estava morta e enterrada. Então, já não tenho o mesmo carinho e a mesma paciência que teria tempos atrás. Eu não preciso de mais drama do que eu já tenho - não preciso e nem desejo. E, apesar de acreditar no "perdão" e pensá-lo como algo nobre, acho que há limite pra tudo sim. Eu sou a rainha do rancor, não é tão fácil deixar tudo bem apenas dizendo "ok, desculpa" mil anos depois do ocorrido, como quem diz "tá, tá, eu me arrependo por essa coisa aí que tu disse (que eu nem lembro o que foi, na verdade), vamos voltar logo a ser o que éramos". As coisas não funcionam assim MESMO.

As fotos a gente esconde. Guarda numa caixa, mostra pro namorado, inventa uma legenda, sei lá. Elas continuam presentes, mas não tão à vista. Já esses sentimentos de "não sei o que esperar de tal pessoa" permanecem por um longo tempo, até termos certeza de que ela já não se importa. Acho que pra mim esse é o fato crucial. Não faz sentido eu me importar e não haver reciprocidade. Já não vejo isso como sinal de egoísmo, mas praticidade. O negócio é levantar a cabeça e tocar a vida. Quando se percebe uma intenção de reaproximação, existe a comoção. Existe a nostalgia, as lembranças boas (talvez mais brilhantes do que as ruins). Existe a vontade de voltar no tempo, a saudade boa. Mas aí colocamos os pés no chão e temos de encarar aquela pessoa como uma nova: ela mudou, nós mudamos, tudo mudou. Restam as tentativas de adaptação... E, nesse meio tempo, há outro fator - talvez esquecido na maioria das vezes - que é primordial: "por que tentar de novo?". Solidão não me parece um bom motivo. É meio triste dizer isso, mas acho que existe discretamente o predomínio da idéia "em que podemos ser úteis um ao outro?" - quando a resposta não parece razoável, não há acordo. Sei lá, estou confusa. Sentimental, mas tentando enxergar tudo de maneira racional. Uma coisa que me marcou muito foi o pensamento de que há uma enorme diferença entre "ser alguém" e "ser o alguém". Ok, isso vale mais para relacionamentos amorosos entre casais e tralalá, mas acho que cabe aqui também. Quero que a pessoa goste de estar próxima de mim por eu ser quem sou, não por eu ser compatível com aquela situação. E lá vou eu com a idéia de 'pessoa substituta'... Na real, o texto se transformou em algo nada neutro, o que não era a intenção inicial. Já escrevi sobre isso há quase três anos, o que me faz pensar que esse problema de se afastar das pessoas e do mundo é um tanto crônico.

"most of our lives we try so hard
to find the time
i won't care for you
like i'm really supposed to
there are things i'll do
that could really hurt you
don't you just love goodbyes?"

sábado, 20 de março de 2010

nenhum sentido.

o que mais fere não é nem a ação que sucede a intenção, mas a expectativa por parte de quem vai ver tudo acontecer. ela ainda faz parte de um sonho - não necessariamente um desejo, mas uma tentativa de tornar plausível o futuro tão virgem. talvez fosse mais eficaz investir em uma pílula preventiva do que encontrar a cura para as decepções, os desamores, as coisas todas das quais sentimos certa saudade apesar não terem sido concretas. nada de modificar a memória... a solução está em tentar anular qualquer esperança. mesmo quando o que de fato acontece é melhor do que esperávamos, existe a angústia do sofrer por antecipação. um tanto dramático isso.

se, por um lado, acredito que nada vai bem quando existe algum problema amoroso a ser resolvido, de outro ponto de vista não consigo entender como uma relação boa  é, sozinha, capaz de suportar todas as nuvens negras do resto. apesar de as novidades terem um somatório positivo, nos últimos tempos estive lidando com situações não necessariamente novas mas, nem por isso, menos tensas. estou falando de vários assuntos intercalados, de várias pessoas e das redes que as conectam. cada ser com sua peculiaridade, sua individualidade, seu diagnóstico. cada pessoa com sua arma.

estava ouvindo repetidas vezes a mesma música, e me dei conta de que existe uma identificação que não existia antes. não ando vendo "motivos" para algumas pessoas, não consigo mais vê-las com algum sentido. e acho isso um tanto triste. e o que me atormenta é que ainda me sinto presa a um laço imaginário, a um quê moralista que me preenche com essas expectativas inevitáveis. mensagens dúbias não produzem bom efeito em mim. tudo vai indo bem e eu tenho conseguido me satisfazer. surpreendida agradavelmente. acho que o melhor para mim é não esperar nada de ninguém. deveria ser assim sempre.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Obituário

          Sentou-se na cama e ficou a contar as vezes em que dissera "adeus" ou fora vítima de uma dessas palavras de despedida. "O mais curioso é quando reencontramos a pessoa um tempo depois.", pensou. E esticou as pernas, vestiu a calça, o sorriso e o casaco. Olhou pela janela e viu a neve. "Neve é bom, sempre bom.", disse em voz baixa. Inspirou o ar demoradamente e, então, voltou-se para o lance de escadas que, em breve, desceria com passos agudos.
          Abriu a porta com certa rispidez e incomodou-se ao perceber que a neve que viu da janela não passou de propaganda enganosa aos seus olhos. Tirou do bolso uma touca feia e colocou sobre os cabelos amanhecidos. Caminhou até uma cafeteria, onde se acomodou e fez seu pedido. Sozinha na mesa, manteve sua atenção em uma outra mulher, também sozinha, que digitava ininterruptamente qualquer coisa no notebook. "J.K. Rowling escreveu Harry Potter em uma cafeteria.", pensou com certa felicidade. Depois de olhar com certa fascinação para a possível escritora da outra mesa, desfez seu sentimento infantil: "deve estar trabalhando em mais algum relatório chato.". E tomou seu café em total silêncio - nada ecoava em seu interior.
          Folheou um jornal local de dois dias atrás, em que fora apresentada uma extensa matéria sobre a morte misteriosa de um ator de filmes de baixo orçamento. Nunca ouvira falar no seu nome, nem conhecia seu rosto, mas naquele momento sentiu falta dele. E era assim constantemente: receber a notícia de que alguém morreu constituía um processo lento, de difícil digestão. Talvez fosse sintoma de sua mania de efemeridade, o que não deixava de aparentar insanidade. Pegou o celular com certa pressa e ligou para o amigo-de-sempre. "J., pega o jornal de terça. Vê se você conhece esse cara...", falou sem tirar os olhos da foto do ator.
          Duas horas depois, estavam os dois diante de um túmulo de um outro desconhecido.
- Acho que eu não conseguiria escrever um obituário.
- É, você não conseguiria mesmo. Quer dizer, não consigo te ver fazendo isso. Nem um pouco.
- E essas pessoas que fazem esse trabalho... elas se importam?
- Com o quê?
- Sei lá, olha a quantidade de gente que morre. Eu acho que ficaria deprimida de lidar com isso todo o tempo.
- Mas é só um trabalho... escrever e tal.
- E quem trabalha diretamente com isso? Enche as covas de areia, vende caixões, sei lá..?
- É só um trabalho.
           Pararam de falar quando um inseto verde pousou sobre a lápide, cobrindo uma letra do nome da pessoa morta de forma a mostrar uma palavra com sentido completamente pejurativo.
- É só um trabalho... e, além do mais, ninguém te obriga a ler o obituário. Você faz isso porque quer.
- Mas alguém tem que se importar!
- Mas as pessoas se importam! Quem deveria se importar se importa. Você não pode querer sentir falta de todas as pessoas do planeta.
- Por que não?
- Porque não.
- Por quê?
- N., saudade foi feita para se sentir daquilo que se teve, que se viveu... Isso que você sente - eu não sei o que é, mas não é saudade.
- Eu não disse que é saudade, eu disse que eu me importo.
- Que seja. Mas as pessoas morrem. É isso que elas fazem. Algumas vivem mais, outras vivem melhor... mas o que importa mesmo é que elas vão embora uma hora.
          Ficaram apreensivos quando um outro inseto, da mesma espécie, apareceu de repente e se encontrou com o primeiro, de forma que pareceram estar copulando.
- Mas eu acho que existe uma certa mágica nisso...
J. olhou dos insetos para N., em dúvida sobre o real tema que a conversa tratava.
- Sabe, mágica quando as pessoas morrem. É uma mágica triste, mas é algo meio natalino: como se houvesse mais perdão, mais solidariedade e as pessoas se voltassem mais para coisas mais importantes do que carros e dietas.
- Todas as vezes em que alguém morreu na minha família houve briga por causa da herança.
          Desistiram de observar os insetos e continuaram a dar passos lentos sobre a grama molhada.
- Tenho medo, eu acho, de ler por aí ou saber de forma ainda mais grotesca que alguém querido pra mim morreu.
- Mas isso não acontece assim... Quer dizer, acontece. Mas você geralmente fica sabendo com alguém te ligando aos prantos. A não ser que seja um acidente de carro.
- Tá, mas existem aquelas pessoas com quem a gente briga ou, enfim, pessoas de quem a gente se afastou, mas que foram importantes e a gente iria no velório delas, mas não seria convidado por ninguém.
- Mas aí é querer comprar briga com os amigos, a família do morto...
- Não, claro que não. Se a gente se importa de verdade, eu acho legal. Acho bonito, acho sincero. Chato é quando tem gente no velório que nem sabe porque está lá, ou quem era de fato o cara que morreu...
- Engraçado você falar isso. Achei que a gente visitasse túmulos de pessoas anônimas, mas agora sei que você conhece toda essa gente e que essas flores são da cor favorita de... desse sujeito aqui, "Thomas J. B.".
- Thomas?
- Ah, céus! Eu conheci esse cara.
- Que droga.
- É, que droga.
          N. jogou um montinho de flores azuis que trazia no colo sobre as pedras que enfeitavam a lápide.
- Que droga, N., que droga! Sabe, eu odeio fazer esses passeios. A gente sempre fica deprimido.
- Agora imagina se você escrevesse obituários.
[...]
 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sobre falar - ou não.

Eu não falava muito. Acho que não tinha tantas idéias: absorvia o que parecia conveniente, e só. Sem grandes questionamentos. E, de cara, deparei com dúvidas maiores do que as próprias respostas - nem sempre o que é mais simples é também mais fácil. Mas só o fato de deixar a solução para o dia seguinte duplica, triplica o problema. Ou potencializa de tal forma que o pouco controle que  se tem sobre ele já não se mostra suficiente. Numa outra oportunidade, pensei em evitar qualquer tipo de conflito: não queria me emaranhar em segredos e perder noites pensando em como dizer o que eu tinha vontade de sair falando, assim de qualquer jeito, do jeito que fosse. O resultado de tanta sinceridade foi uma verdade suja, sem graça, feiosa. Totalmente sem brilho. Sem mistério, não há curiosidade; sem curiosidade, não há busca ou motivação. Seria tolice dizer que eu conheci alguém totalmente, mas meu sentimento foi realmente esse. "Acabou a graça." - puff! Se desfez a nuvenzinha. E eu fiquei nessa coisa de não saber o que falar ou quando falar. Ou se falava ou não. Quando se acostuma a falar pelos cotovelos, é difícil encontrar uma moderação. E como eu falava! Blá, blá, blá e mais blá. E blá. Blá blá. Eu encontrei um modo de me preservar, mas não deixou de ser uma medida temporária: ao menor sinal de instabilidade, eu me descontrolava. Não tenho problemas em pedir desculpas, mas talvez até hoje eu realmente não faça idéia do quanto isso não substitui o efeito das porcarias que eu digo às vezes. E eu tenho mania de pensar que tudo que é espontâneo é sincero. Aquela coisa de sair falando o que vier na cabeça... Saem palavras tão duras e ásperas. E, por mais porcas que sejam, são sinceras. Sem explicação, sem perdão: "a mensagem simplesmente saiu". Como um sopro de liberdade um tanto indevido, mas ainda assim legítimo. Depois dessa fase, aproveitei para me deixar levar: dizer o desnecessário, ouvir o inapropriado. Aceitei os gritos com certa culpa, mas aceitei. Não fazem parte da minha natureza. O escândalo não faz parte de mim. Mas naquele momento se fez presente. E, agora, eu estou nesse misto de silêncio e simpatia (nome de banda de pagode): já não conheço meu ponto de equílibrio, apesar de estar bem. Então, vou tateando e, ao menor sinal de faísca, eu paro de fazer o que estou fazendo. Eu respiro e penso que quero me sair bem nisso. Sem forçar a barra. Do jeito "certo". Ceder quando possível, bater o pé quando for necessário. E procurar ser racional, mas ainda capaz de sentir. Talvez o melhor jeito de aprender seja observando, já que a prática nem sempre se mostra muito esclarecedora. Eu não falava muito, mas agora acho que eu escuto mais. Mesmo que não pareça. Nem tudo que eu falo é sobre mim.


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

the day after


hoje aconteceu uma coisa superchata, e eu fiquei pensando que amanhã será pior. o 'dia depois' é sempre pior. o dia depois de um assalto, de uma briga, de qualquer coisa que pareça definitiva e nos cause dor. a mensagem toda está só nessa idéia, assim mesmo, injustificada... não existe argumento: você dorme (tudo bem, rola na cama e não dorme direito - mas dorme) e acorda com aquela sensação de quem recém levantou do chão após levar um soco na cara. acorda e demora um tempo a mais para se situar no mundo. então, finalmente a cena do dia anterior começa a brilhar ativamente na consciência. arrependimentos à parte, a coisa toda é uma merda. é o tipo de coisa que não pode ser encarada com a mesma naturalidade com que um viciado em algo comemora a distância de seu vício. um dia a mais parece ser um dia a menos com o que supria nossa necessidade (nem sempre percebida até chegar o momento presente). fica claro que a realidade se faz da continuidade da vida, que planos são planos - têm condição parasita, necessitam de nossas ações para serem reais. e para se desfazerem também. é esse o verbo: desfazer. o dia depois é o dia do desapego involuntário, do luto amargo, da cobrança por uma atitude. arrumar o que se pode arrumar, esquecer o que não tem jeito. assim, sem traumas, sem floreios e poesia. a lei diz que o planeta não vai parar de girar, que tudo continua a ser o que era (ainda que em constante renovação). e, de repente, vem a não-sintonia, a vontade de pular para fora de tudo, mergulhar no vazio sentimental da perda, da esperança que embriaga e enlouquece, da razão pontiaguda. não se trata de pessimismo - é um fato: o dia depois é o pior. ansiedade, desconforto, pânico, medo, tralalá. e não é que depois a melhora seja notória e progressiva... mas, não importa, o dia depois é sempre o dia depois. o dia em que tudo se choca, em que o que era palpável se mostra inalcançável, em que entramos em conflito e ficamos revoltados com o que aconteceu no ontem e o que acontecerá no amanhã. é o dia em que o céu prepara o sol pra chuva que não quer vir, para a tempestade imprevista - e essa preparação simplesmente existe, sem consentimento ou previsão de um futuro bom. e a falta de pretensão, nessas horas, é o único e melhor remédio. esquecer, expulsar qualquer pensamento. qualquer esforço para se afastar é válido, mesmo que geralmente acabem sendo incapazes de produzir qualquer efeito positivo. enfim, o dia depois. a porcaria que é ter que acordar de uma noite de incômodo para presenciar o pesadelo. e é assim mesmo, bem trágico e por vezes exagerado. e nem por isso deixa de ser igualmente verdadeiro.

domingo, 5 de julho de 2009

Sobre o ridículo do sentir

Ridículo! O ridículo do sentimento é a sua não-correspondência pela outra parte envolvida. Passam a ser desimportantes a pureza e a beleza do sentir, passam a ser meramente irracionais. Não existe instrução capaz de ensinar a alguém como se controla a emoção: as pessoas se aventuram inventando conselhos não-praticados sobre como se deve agir, mas não existe solução que vá além do uso de máscaras. O confronto direto entre o egoísmo e o altruísmo, o conflito entre o que se quer e o que se pode fazer - conseqüências imediatas da exposição ao ridículo. Não existe escolha a ser feita no início, mas uma imposição que acontece "no final". O final que, na verdade, é apenas o começo do ridículo: o nascimento da guerra interna, da perda dos sentidos, da inevitável tempestade que se faz no copo. No copo e no corpo. Quando estamos diante do ridículo, a dor e o medo antevêm qualquer passo que ousamos dar: a revolta acontece a nível individual e social e, na busca de uma saída, não encontramos justificativa para continuar em inércia - tampouco compreendemos a lei que nos diz para abandonar o sentimento. Irreal, é irreal combater o sentir com a razão; é inaceitável a idéia de desequilibrar as forças e deixar que uma ocupe o espaço da outra. São instâncias diferentes, que desempenham funções completamente independentes. Deixar de sentir por não receber o mesmo em troca é correto? "Não importa, é o que deve ser feito". E seria no mínimo tolo enfrentar a situação vivendo a outra alternativa... E, por isso, é ridículo. Por isso é ridículo! Não há liberdade na escolha, não existem prós e contras, apenas eufemismos para os efeitos negativos que resultarão das ações. É ridículo! Infinitamente ridículo até que o sentimento adormeça no curso de seu destino. Não se pode evitar a verdade, não se pode evitar a vergonha nem a perturbação: quanto mais rápida é a aceitação, menor é a perda - deveria ser desse modo. Então, deixemos de ser ridículos diante do ridículo... Deixemos de permitir que o sentir se sobreponha ao que está em nosso poder de consentimento, deixemos de lamentar o que poderia ter sido e não será. Deixemos, simplesmente deixemos: o desapego é fundamental.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Esponja.

Quando eu nasci, o famoso Deus não me disse nada. Nem olhou pra mim. São muitas as pessoas que nascem a cada segundo e eu não seria digna da visita divina - mesmo com todo o poder da onipresença. Um cara com uma prancheta colou uma etiqueta adesiva na minha testa. Anos mais tarde, pude ler "esponja" na etiqueta, com o auxílio de um espelho velho e quebrado. Velho e quebrado como eu. Eu nunca soube expressar o sentimento de "ser" uma esponja - talvez seja esse o motivo pelo qual eu recebi essa maravilhosa palavra como adjetivo. Esponja... pensemos o que uma esponja faz: ela engorda e emagrece, freqüenta lugares imundos, fica imunda, recebe duchas de água gelada seguidamente e, por vezes, é trocada por uma esponja melhor. Que merda de vida. Não sei se poderia escolher entre ser uma esponja brasileirinha, do tipo verde-e-amarela que faz a alegria das donas de casa, ou uma esponja mais especial (lilás, de banho, delicada ou com motivo infantil) - o fato é que não me mostraram outra opção. Deus mandou eu ser uma esponja e cá estou, ensaboando essa pilha de problemas. O cara da etiqueta nunca mais apareceu e eu cultivo uma certa esperança de que ele, um dia, vai colar um novo papel na minha testa. Talvez esteja na hora de uma nova pessoa ocupar meu lugar. Mas, talvez, essa demora se deva ao fato de eu estar executando bem meu trabalho ridículo. São muitas as pessoas que nascem a cada segundo e eu não continuaria sendo uma esponja se o que eu estivesse fazendo fosse tão ruim, não é? Não é? Deus deve saber o que faz. Afinal, ele é Deus - o famoso Deus: onisciente, onipresente... Maldito foi o dia em que eu peguei aquele espelho!

domingo, 21 de junho de 2009

gris.


A música começou a tocar e me deu aquela crise de nervosismo. Pra ser sincera, eu não esperava que ele fosse se levantar. Eu queria que ele deixasse aquela mesa e se aproximasse da minha, mas não achei que isso fosse acontecer tão no início da noite. O mais estranho é que, ao mesmo tempo em que eu fiquei eufórica, pensamentos superperturbadores me invadiram. Sabe, eu não queria dançar. Eu não sabia dançar. Dançaria se fosse com ele, mas, pelo mesmo motivo, eu não arriscaria colocar meus pés na pista. Se ele passasse reto por mim seria decepcionante, mas, se estendesse aquela mão bonita daquele modo clássico e brega, também seria desconfortável. Coitado, ele tinha tudo para me fazer feliz. Feliz e infeliz, porque eu nunca me dava por satisfeita.
Ele cumprimentou um conhecido dele que estava sentado quase à minha frente e então fez aquela coisa de subir a sobrancelha e fazer um aceno com a cabeça, num gesto quase imperativo que fez eu me levantar instantaneamente. A gente pegou dois copos e passou reto pelos casais que dançavam. Me disseram que nós ficávamos bonitinhos juntos e, de fato, dançando ou não éramos um belo par. Não que nós fôssemos dignos que ganhar coroas e título de rei e rainha do baile, essas coisas de filme, mas realmente nos dávamos bem. Realmente. E eu gostei de ter debruçado meus braços no parapeito da sacada e sentido um pouco daquela chuva na pele. Ele era uma boa companhia para dias e momentos cinzas. E festas, para mim, tendem a ter essa cor.
Nós ficamos conversando, conversando como pessoas que se gostavam. Isso engloba amizade e um pouco de ciúme talvez - ainda que não se note exatamente isso em uma conversa. Sempre achei engraçado que, desde o início, mantínhamos uma relação internalizada, ao contrário do que se vê por aí. E, apesar de falar muito sobre muita coisa, eu sentia que ainda teria muito por vir. Muito o que falar, o que ouvir e o que sentir. Ele era dessas "pessoas que te fazem sentir", como dizia uma propaganda de seriados da tevê. Acho que não conheço, hoje, outro exemplo para citar. Mesmo quando ficávamos em silêncio, não era de todo mal: ele me causava aquela mistura de emoções e pensamentos e, por menos próximos que fôssemos um do outro, eu sentia que naquela distância que nos separava existia uma grande razão.
Eu não sei se queria mesmo dançar ou se era só o desejo de me sentir tão bem quanto os outros pareciam se sentir. Sempre achei isso uma grande bobagem e evitei que essa preocupação tomasse grandes proporções, mas, naquele segundo, essa dúvida me incomodou. Uma música antiga atrás da outra, luzes discretamente coloridas e sorrisos bonitinhos: aquele ambiente algodão-doce nunca me parecera tão atrativo. E peguei a mesma mão bonita que não fizera o gesto de cavalheiro para mim e a segurei na altura dos meus olhos. Então, deixei que ela se acomodasse onde antes estava, pensando em como justificaria aquele gesto impulsivo. Ele passou os dedos no meu rosto carinhosamente, como fazia às vezes, e nada disse. Nós ficamos nos olhando por um tempo, até que fomos interrompidos pela risada escrota de uma garota bêbada que tinha escorregado nas lajotas molhadas.
Tanto faz, nós não ficaríamos muito tempo juntos. Ele saiu mais cedo com uns dois amigos para beber em algum lugar, mas agradeceu minha companhia. Eu também me senti grata pelas palavras trocadas e por todo aquele bem-estar. E, por mais ingênua que fosse, eu ficava alegre em saber que produzia algum bom efeito em alguém que, pra mim, era especial. Meu medo era de fazer com que ele se acostumasse a me ter sem que eu pudesse acessá-lo do mesmo modo - ou, talvez, meu medo se resumisse em não estar mais com ele. Mesmo que nós só "estivéssemos" nesse tipo de situação em que você se aproxima de alguém ímpar quando tudo a sua volta é par. Tem vezes em que é mais importante dançar, independente da companhia - mas essa parte eu não sabia fazer. Talvez ele precisasse de alguém que o estimulasse, que o fizesse se sentir como todo mundo que mantinha aquele sorriso bobo no rosto. Mais provável, porém, é pensar que ele não precisava de nada, de ninguém. E tudo o que eu tinha que fazer era fingir muito bem que eu não me importava.

terça-feira, 2 de junho de 2009

in a manner of speaking

Acho que tô "perdendo minha religião". De repente, algumas das minhas crenças antigas já não fazem mais o menor sentido. Os filmes continuam os mesmos, o tipo de música também. Os livros, tudo igual. O que mudou foi o modo como eu encaro as coisas. Quer dizer, isso não mudou exatamente: eu mudei, eu mudei. EU mudei. Mudei para um "Eu", com letra maiúscula. Continuo preferindo do outro modo, mas sei que as coisas já não são as mesmas de outrora. Eu escrevi ontem um negócio que não quis postar e tive uma conversa necessária, que me deixou reflexiva e um tanto nostálgica. O dia foi ótimo e a vida tem sido bastante brincalhona. Tenho que dormir e não vi sentido em escrever isso, senão que eu gostaria de dizer que eu posso tentar ser útil. Um tanto pretensioso isso, mas de nada custa lembrar que meus ombros ainda estão aqui - se o que eu disser não ajudar, pelo menos os ouvidos não vão falhar em escutar, eu espero. Apesar de falar merda, não estou no meu momento descontraído. Gosto de ficar quieta, às vezes, bem quieta. E sei que sou mal interpretada por isso. Mas também não me vejo na obrigação de me explicar. Estou amadurecendo idéias, me frustrando com algumas notícias e ficando feliz por outras. A gente sempre pensa que mudou para algo melhor. É o que deveria ser mesmo. Eu fico triste em ver pessoas que já estiveram mais presentes na minha vida enfrentando situações difíceis - espero que tudo se resolva. Gostaria, sinceramente, que esse frio continuasse assim. Acho que é só o que eu posso desejar - porque o resto muda, sempre muda. Não posso nem quero exigir mais de ninguém. Como eu disse, tô "perdendo minha religião". Cansei de me encantar com respostas mágicas. Quero o que é concreto, o que é palpável - qualquer coisa que faça sentido o tempo todo, independente das mudanças na minha personalidade ou no mundo que é externo a mim. Acho que adquiri essa insegurança das coisas, essa necessidade de me basear em verdades consolidadas e não exatamente nos meus conceitos passageiros. Quando tudo parece estar bem, eu entro nesses momentos cinza-masoquistas e nada me tira deles. Exagero: nada que uma boa música e uma boa companhia não sejam capazes de interomper. Só não quero me viciar, me viciar e me frustrar. Não é o que eu acho que esteja acontecendo ou o que eu imagino que faça parte do futuro próximo, mas tenho receio disso. Eu sou uma pessoa substituta. Nada me fez pensar o contrário - talvez sentir, mas sentimentos são efêmeros.


sábado, 21 de fevereiro de 2009

"...mas as letras dele são boas."

"Quando eu fui ferido, vi tudo mudar
Das verdades
que eu sabia
Só sobraram restos que eu não esqueci
Toda aquela paz q
ue eu tinha...

Eu, que tinha tudo, h
oje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz,
pensando...
Daria tudo por um modo d
e esquecer...

Eu queria tanto e
star no escuro do meu qu
arto
À meia-noite, à meia luz, s
onhando...
Daria tudo por meu mundo
e nada mais...

Não estou bem certo q
ue ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...

Como ser mais livre?
Como ser capaz d
e enxergar um novo dia?

Eu, que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz,
pensando...
Daria tudo por um modo d
e esquecer...

Eu queria tanto e
star no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, s
onhando...
Daria tudo por meu mundo
e nada mais..."

_
Guilherme Arantes.


Em homenagem ao outro Guilherme, que também escuta escondido.
Aiai, adoro essa letra...


sábado, 17 de janeiro de 2009

Inexpressão (inexata)

Eu saí da cama e evitei minha cara de bunda no espelho do banheiro, procurando escovar os dentes centrada no ralo da pia que, por sinal, estava cheio de cabelo. Sentei na cama para calçar os tênis, colocar desodorante. Eu ia colocar um blusão laranja, mas sempre ouvi que a cor da roupa entrega o nosso humor ou coisa assim, que tem o poder de afastar ou chamar gente para perto, então eu resolvi trocar para um moletom cinza liso com capuz: nada mais inexpressivo que isso. Eu comi alguma coisa e só percebi que estava chovendo quando já estava lá embaixo. Eu geralmente gosto de chuva - o problema é que as outras pessoas não sabem se portar debaixo d'água. Elas pisam nas poças e dirigem de maneira equivocada. Eu geralmente me aborreço com isso, sabe, mas hoje eu acho que não tinha mais nada que pudesse piorar o que eu estava sentindo. Nem calor, nem metrô lotado, nem vendedores do tipo fanáticos religiosos. Tá bom, talvez eles. Mas não apareceram. Sabe, inconsolável talvez fosse o mínimo. Eu quero dizer que nem mesmo alguém que já esteve na mesma situação poderia dizer que sentiu o mesmo. Eu vesti cinza para ninguém achar interessante a minha presença - e não é que eu precisasse de muito esforço para tal -, mas sempre existem os teimosos que insistem em puxar assunto. Teve uma velha e ela comentou sobre uma garota que passou por nós duas, só que eu não concordei com o que ela disse e me fiz de surda. Quer dizer, que saco essa gente. Eu juro que não gosto de ser desagradável, mas vontade sempre existe. Eu botei os fones de ouvido e tentei me esquecer de tudo, de quem eu era e da minha realidade. Não deu tão certo, mas eu não vou dizer que podia ser pior porque não podia. O fato é que eu estava péssima. Nesses dias que a gente se sente gorda e fraca ao mesmo tempo, sabe? É claro que você não sabe. Como eu disse, ninguém sabe. Às vezes, eu acho que eu nasci para ficar sozinha. Nas outras horas, eu não penso em nada e escuto música.


domingo, 21 de dezembro de 2008

Slide Away

Ele não sabe o quanto me machuca quando deixa tudo passar assim, despercebido. Existem esses momentos em que a gente quer ir embora e não se trata nem de chamar a atenção daqueles que insistem em não nos compreender; a gente só quer ir embora. Se ver num daqueles filmes antigos, com um carro velho numa estrada, nuvens de poeira e música boa à toda altura. Ele não entende isso, sequer se passa pela cabeça dele isso. Essa incógnita me enche o saco, apesar de eu ver nela o grande diferencial. Se ele tivesse parado com seus acordes e acordasse um pouco para mim ou qualquer outra porcaria, sabe, mas às vezes parece que ele consegue ser pior do que eu nessa vida de se perder em outras dimensões. Eu me sinto dopada, me sinto num desses dias comuns, tipo madrugada de terça-feira, em que, por insônia ou pensamentos atordoantes, se passa a noite de olhos abertos, com uma caneca entre os dedos e pouca luz. A brisa noturna é de embriagar, entorpecer qualquer um. E eu não sei se sou eu quem não deixa os ponteiros do relógio seguirem seu destino - até que a bateria esteja completamente sem carga - ou se é ele, que enxerga tudo em tons monocromáticos. Pouco importa agora o contato físico: eu quero olho no olho. Esse jogo de indiferenças me agride, me agride como uma risada dada pelo tempo segundos depois de algum arrependimento. Me enche o saco essa porcaria de filme na televisão: o que eu quero com xerifes agora, que eu não tenho ninguém? Deitar na cama é tão perigoso, é como se ela me engolisse e me mastigasse com todos os meus defeitos. Dormir não é pra mim. Não é pra nós. Eu levantei hoje, achando que tinha despertado de um sonho, mas era verdade: ele só estava no meu quarto impresso numa foto. Nada de cheiro de jaqueta. Vou te dizer, ele tem cheiro de jaqueta. Jaqueta jeans. E isso me lembra as vezes em que, antes de sermos alguma coisa, eu esbarrava naquela jaqueta meio que de propósito. Ele sempre fora destraído, sempre fora de não entender as coisas óbvias. E, mesmo assim, tinha idéias ótimas e absurdas sobre as coisas que a gente geralmente não pensa. É uma porcaria ficar jogada na poltrona vendo como ele canta bem. Ele toca muito bem. E sempre com aquela jaqueta, caralho. E, pra ser sincera, eu não sei bem se isso é um desses momentos em que a gente quer ir embora. Eu tô cansada de tudo, cansada de como metade das minhas ações consistem em buscar explicações para as outras. Eu não tenho que me explicar quando só eu tenho interesse na minha biografia. Talvez seja meio deprimente encarar isso, mas é verdade. Foda-se o que aconteceu, ninguém quer ouvir a minha versão sobre como eu perdi o medo de escuro. Ninguém quer ouvir. Só se for a música dele, a maldita música dele, que eu não consigo parar de ouvir. E eu nem sei se ele sabe que eu penso essas coisas todas, mas eu também nem tenho como saber o que se passa lá enquanto estou aqui. Bem que eu queria me sentir turista daquele mundo, daquela cabeça, daqueles olhares silenciosos que me lêem sem responder. Eu já não sei se hoje é terça-feira, se ainda existe alguma caneca que eu não tenha atirado na parede, se... mentira, eu não atirei nada na parede. Eu não atirei nada na parede. E a jaqueta dele está aqui, por incrível que pareça. Ele é que não está. E, mesmo que estivesse, sentado na minha frente que fosse, eu não acho que ele estaria aqui inteiramente, sabe. Sempre em outra dimensão, ele está sempre do outro lado. Do outro lado e nunca do meu. A noite está boa, a brisa está boa e essa vai ser mais uma noite de insônia: ninguém pra me ouvir falar de como eu não entendo nada. Eu não pertenço a lugar algum.


"Slide away and give it all you've got
My today fell in from the top
I dream of you and all the things you say
I wonder where you are now
Hold me down, all the world's asleep
I need you now, you've knocked me off my feet
I dream of you and we talk of growing old
But you said: "please, don't!"
Slide in, baby - together we'll fly
I've tried praying, but I don't know what you're saying to me..."
Oasis



 
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