sábado, 28 de junho de 2008

Não é você.

"Eu deveria distribuir bulas, como se eu fosse um remédio com caixinha tarja-preta. Seria mais fácil para eu e todo mundo conviver em harmonia, sem esses dramas corriqueiros. Não que o egocentrismo tenha tapado meus olhos a ponto de impedir-me de aceitar a existência de outras pessoas, mas eu realmente penso que é mais complicado comigo - como a maioria deve pensar... Acontece que é tudo previsível. Veja, que legal!, nós nos beijamos. Sabe, nem sempre beijo é tudo na vida. É deprimente ficar entediada e desejar estar sozinha. Ainda bem que isso não parece acontecer com os outros habitantes desse planeta. No fundo, é até meio covarde aceitar ser um pedaço de alguma coisa para alguém que não tem nada, sabe. Quer dizer, é como alimentar vampiros com sangue de cadáver, sabe? E não existe isso de dizer que não sabia, porque a gente sempre sabe quando é importante - ou pelo menos tem um pouco de noção. É tão trágico pensar nessa relação de que mesmo 'sozinhos e felizes' existe a impressão ou curiosidade de como seria se fôssemos nós e mais um ou outro. E você liga a tv, assiste um filme, vai no supermercado e se depara com todo esse sentimento de que 'ok, você está sobrando, baby' - porque não tem ninguém para chamar de baby ou algo mais brega. A minha intenção não é seguir repetindo o que já se sabe, mas enfim, tentar jogar um balde de água fria nessa merda toda de construir e desmoronar. Nos outros animais essa relação macho-fêmea é tão mais objetiva, que inveja! Existe gente por toda parte, gente procurando qualquer coisa, gente sonhando com algo específico, gente ocupada demais com alguma coisa que perto da idéia de amor não é tão importante (tipo a cura da Aids), gente ocupada com qualquer outro pensamento. E, então, eu penso: onde eu me coloco? Porque eu não estou procurando ninguém, não sou exatamente ocupada com nada e metade das coisas que eu digo eu invento na hora. A idéia da bula não é original, mas realmente não é má idéia. Acabaria com a mágica da coisa, mas seria tão mais eficiente aceitar e recusar paixonites alheias como se faz com contatos do Orkut. Não é querer promover a libertinagem, mas o apego emocional inibe tantas sensações. Cruzar a linha é algo tão simples e perigoso quando se fala em relacionamentos - depois que algo começa isso só tende a acabar. Ótimo, renovação! - você pensa, mas a conseqüência chega em uma mala de problemas que te tiram o sono. Pensando na Clementine, na Claudia e numa outra personagem de um outro filme, da linha "que toda adolescente acha meigo", não parece horrível não autorizar alguém a alimentar sentimentos por mim. Isso pode ser encarado como uma sinceridade fria e resumiria muita coisa. "Oi, não quero ter nada com você pois sei que vou ficar entediada" - dizer isso e resistir àquelas frases de efeito comuns, onde a pessoa promete que vai agir de um jeito diferente - isso é triste, uma vez que ela vai pensar em alguma história comum de relacionamento que fracassou entre você e outro alguém. A primeira coisa é pensar que te traíram, a segunda é perto disso - e nunca chegam no real problema. Até por isso eu não acho um crime o típico suspiro de "não é você, sou eu". Afinal, sou eu que escondi todo esse emaranhado de coisas que você me fez ou não sentir. Ou não escondi, como pode acontecer, mas, enfim, você não viu - e isso não é motivo para mais drama e músicas com a letra "mas você não viu...", tipo Pitty. Realmente, perderia a graça escrever um manual... dizer que eu visto cinza nos dias cinzas e preto nos momentos de raiva, comentar que verde ajuda a destilar veneno e rosa é sinônimo de insegurança. O processo de decadência faz parte da evolução, sabe. Eu falo disso, de saber ouvir, entender e crescer. O problema maior é que as pessoas simplesmente trocam as duplas e se esquecem das vezes em que foram ridículas, seja por fazerem ou não alguma coisa. O que me faz agir como um tabuleiro de xadrez é pensar que as jogadas são previsíveis, uma vez que se percebe quem são os jogadores por trás das peças. Mas eu queria dizer que comigo é mais complicado, não é? Então talvez não adiante muito concluir com "não é você, sou eu" como justificativa. Que se foda."

Laurah.

(Sem mais posts com a temática 'amorzinho' pela frente - eu espero.)

terça-feira, 17 de junho de 2008

'Alguém'


E ele abriu os braços rapidamente, protegendo aquele pedaço de solidão. Sabia que se completavam - ao menos nessa semelhança, em que um concluía a tristeza inacabada do vazio do outro. Seria um abraço silencioso, não fosse o soluço abafado. Normalmente ele sabia o que fazer, mas essa situação foi totalmente inesperada. Olhou ao redor, pensou em acomodá-la em um banco, mas não fez nada além de acariciar seus cabelos, um tanto nervoso. Paralelamente, seus pensamentos beiravam o branco - não havia o que precisasse ser nítido, uma vez que era ele quem deveria manter o controle. O vento gélido não foi suficiente para acabar com o calor daqueles corpos tão colados, unidos não só pelo toque da pele. Algum outro narrador mais piegas enfatizaria que os dois corações batiam juntos, mas falar isso com tanta emoção seria denunciar que eu nunca vivi tal sentimento. Falar na terceira pessoa pode ter um sabor especial, sabendo que posso acrescentar detalhes e enfeites que não passariam de fantasia aos olhos de quem lê caso eu me posicionasse como a mocinha desabrigada que busca refúgio nos ombros de um alguém. Nos ombros de um alguém. O ponto é que encontrar 'alguém' vai muito além de trocar carícias e palavras, muito além das verdades e mentiras que se cruzam nos olhos, muito além de conhecer uma pessoa e gostar dela - aprender a gostar, como diriam alguns. Diferente do que se lê em poemas ou se percebe em uma novela global, o processo do autoconhecimento nem sempre é individual, simples ou descritível. Ás vezes, é preciso buscar em um abraço o pedaço que falta, que insiste em gritar - uma vez que o soluço se silencia, a terceira pessoa (ou eu, como quiser) -, sabe que está diante de 'alguém'.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Bocejo.

Às vezes eu penso que nem me lendo eu entendo o que eu quero dizer com certas coisas. Tentar me explicar, principalmente citando meus erros, parece funcionar como um auto-flagelo falso, que me livra de maiores pesos na consciência. Não gosto de estar familiarizada com pedaços de mim que insistem em me fazer colocar em risco. Minha cabeça de fantasias já não diferencia o que foi real e o que não passou de sonho. Não sei se meu conforto em me posicionar como egoísta orgulhosa não passa de mais medo.

Fingir não se importar não torna a vida mais fácil.
Mas e daí?!



sábado, 31 de maio de 2008

Tallulah.

As mãos do pianista não descansaram sobre seus joelhos nenhum instante, embora não fossem muitos os que dançavam as lindas músicas. Belas mulheres, esculpidas por vestidos majestosos, rodeadas de imponentes homens cujos trajes traziam insígnias reluzentes. A noite de lua cheia fora esquecida dentro do castelo, onde o burburinho das senhoras e as risadas dos homens mais velhos ecoava por todos os cômodos. Da Sala de Armas saiu um homem apressado, ajeitando os cabelos longos para dentro do pedaço de fita. Pela expressão, notava-se seu atraso para a cerimônia. Desceu as escadas aos pulos, diminuindo o passo nos últimos degraus. Procurava ansioso uma dama por quem se encantara há muito, desde que os dois eram crianças. Tinham sido afastados quando a família dela resolveu ocupar novas terras, fruto de alguma herança misteriosa. Breve silêncio - o pianista foi descansar, se servir do que sobrara do banquete. Era um jovem viúvo, capaz de receber um ou outro olhar devasso das moças mais atrevidas, que nunca realmente conheceram o significado de honra. Passou por uma mesa coberta de cálices vazios, onde um casal meio embriagado trocava palavras no ouvido um do outro. Reconheceu outra jovem a sua frente, cujo vestido não era claro nem brilhante como o das demais. - Não te vi dançar. Ela sorriu graciosa, fechando os olhos ternamente antes de voltar à posição inicial - os braços cruzados e o rosto sério. Devia ser a única que realmente respeitava o trabalho do músico, colocando-o em um nível de importância acima de qualquer outro ofício - apesar de gozar da riqueza, não sentia necessidade e nem via razão no luxo. Passava a maior parte do dia montada em um cavalo, ao contrário das damas que desde cedo se concentravam em bordar seus enxovais. Os trajes em cor diferente fizeram um terceiro homem ser notado na porta principal, que dava acesso aos jardins. Não era da Família Real, mas todos que moravam na região o conheciam como um nobre viajante, hóspede de um importante amigo do rei. Não estava disposto a perder o grande baile, mas tinha um motivo diferente para isso: o prazer de beber e comer à vontade, com boa música e donzelas à disposição lhe parecia ínfimo. Tocou o chão com rapidez - os olhos fixos na jovem que tanto procurara, na tentativa de não perdê-la de vista (nunca mais). Atravessou o salão, desviou de candelabros e empregados, se desvencilhou de crianças e cadeiras que obstruíam seu caminho. Sorriu afoito, lhe faltava o ar - a idéia de ter tão perto novamente sua preciosa menina, a única que um dia arrancara dele uma promessa. Os dedos pálidos voltaram a tocar as teclas esmaltadas, produzindo uma melodia doce e convidativa. O salão, visto do alto, parecia recheado de babados coloridos, que rodopiavam alegremente de um lado para o outro. Parecia preencher todos os espaços, mas o pianista sabia que o vazio sob o grande lustre de cristais só era digno de uma das mulheres presentes. Para Tallulah, o viajante era um desconhecido qualquer. Para ele, ela poderia ser apenas uma aventura - e que desperdício, pensariam os observadores. Mas quis o destino manter os dois separados, infelizmente, mas enlaçados por semelhanças ainda não descobertas. De um homem curvado diante da linda dama surgiu um convite inesperado. Não foi recusado, nem aceito com louvor. Ela não queria dançar, não aquela música. Além disso, ainda que não fosse sua intenção mencionar, estava claro que ela esperava ter a companhia de outra pessoa. Ele se mostrou desapontado e ofendido, lamentando que ela estivesse prometida a outro homem. Não estou, ela respondeu, analisando-o com atenção. Sua fisionomia não lhe era desconhecida, mas fugia-lhe da memória a identidade de seu galante admirador. Perguntou seu nome, mas a resposta foi negada. Arriscou palpites, mas nenhum com muito sucesso. Ouviu, então, uma longa e dramática história, sobre percorrer campos durante dias e noites sem fim e enfrentar uma série de infortúnios - tudo para vê-la mais uma vez, tocar sua pele e ter a certeza de que a mulher dos seus sonhos era real e tinha aroma tão bom quanto o da lembrança. Se amaram no passado, mas o tempo lavou qualquer resquício de paixão que impedisse Tallulah de lutar por sua liberdade - não gostava de se ver presa às coisas, resistia às inevitáveis e constantes ofertas de casamentos, cada um com um plano de futuro promissor mais pomposo que o outro. Só não era considerada a vergonha da família por ser realmente a mulher mais bonita do reino, o que conferia uma série extra de adjetivos. Ela não só se espantara com a confissão em que se transformaram suas brincadeiras inocentes de infância, como deixara isso transparecer em seus gestos enquanto se explicava, um tanto impaciente. O homem das vestes azuis interrompeu a conversa, silenciando os dois - os olhos do outro faiscando. Tomou o braço de Tallulah gentilmente, esboçando um sorriso. Não fora tímido ao fazer um sinal para o pianista que, consentindo, alternou a escala de notas musicais, dando início a uma nova sonata... diferente e um tanto especial, que nunca fora apreciada antes. Todos os penteados não faziam sentido, nem rendas, nem jóias: quem tivesse a delicadeza de apreciar as feições do casal que se encaixava na coreografia entenderia que nem tempo nem distância seria capaz de separar os dois desconhecidos - amantes em silêncio.

"Tallulah, it's easier to live alone than fear the time is over..."
Sonata Arctica



quinta-feira, 22 de maio de 2008

heroína.

Duda regurgitou a comida, vomitou os comprimidos, bebeu tudo que podia beber e passou a manhã indo e voltando do banheiro. Azia e tédio. Pensou em recorrer ao casal gay de amigos que, vez ou outra, faziam o papel dos pais dela, mas a preguiça de se levantar do tapete felpudo e caminhar até o telefone era maior.

Dormiu por cerca de duas horas, a baba escorrendo pelo canto da boca. Era realmente uma garota muito bonita, dessas que, de uma hora pra outra, resolvem tingir o cabelo loiro de laranja e cortar a franja - como se acordassem para a vida ao se encontrar numa foto de revista.

O ringtone psicodélico a fez despertar dos sonhos escrotos, obrigando-a a procurar o celular em meio as folhas de papel vegetal. Plantas e mais plantas de apartamentos luxuosos, desses cujos panfletos são distribuídos nas sinaleiras das capitais, por moças de bonés e calças laranjas que, provavelmente, não foram muito sortudas na vida.

Recebeu uma mensagem de texto anônima, onde uma suposta colega de faculdade afirmava ter visto o namorado de Duda com outra pessoa, numa festa na noite passada. Não fora uma surpresa, afinal qualquer mal-feito é esperado quando um relacionamento não está bem. A confirmação pelos olhos da amiga fez Duda sentar no sofá, tentando se equilibrar e se livrar da tontura. Quanto mais lúcida estivesse melhor: fazer as coisas de modo impulsivo só faz piorar as conseqüências.

Em dois segundos desesperados já estava atracada no telefone, discando a única seqüência numérica que decorara nos últimos cinco anos. Quando informou que queria falar com Lilian ouviu sua voz sair fraca e tremida, o que ligeiramente a deixou envergonhada. Há muito deixara de ser uma boa companhia na visão dos pais da amiga. A bulimia e as constantes vezes em que fez escândalos por motivos insuficientes contavam pontos nessa observação.

Lilian não estava em casa, mas isso não impediu Duda de encontrá-la.
- Pode falar?
- Sempre. Que foi, cara? Tá de porre?
- Não, não é isso, não...
- Hum... Tá, fala rápido.
- Olha só, aquilo que eu te disse do Marcos... A Jô, eu acho, viu o Marcos ontem com uma vadia, cara.
- Vadia? Tá, mas ela viu a...?
- Ah, nem sei. Mas tanto faz, cara... sério, eu nem sei que que eu faço primeiro...
- Hum... mas, olha só, nem faz nada ainda, cara. Ele é um merda total né, nem podia ter feito isso contigo. Não deixa barato, cara... só pensa antes no que tu vai fazer.
- Ai meu, sei lá. Que filho da puta. Tipo assim... vontade de matar os dois, saca?
- Hum? Fala direito, porra. Tu tá falando toda errada.
- Eu quero ver quem é a vadia... e ele vai me dizer que porra é essa que ele tá fazendo, porque eu nunca fiz nada pra ele resolver fazer isso assim... ah, vai dizer, eu sou tri.
- Sim, cara. Eu te amo, cara, nem posso falar nada. Na boa, acaba com ele assim do nada e dá o troco. Nem precisa dizer que tu sabe o que houve e tal... ou sei lá, começa a sair com o Caio, que ele odeia e tal...
- Sim, eu vou ver ele hoje mesmo. E o filho da puta vai ficar sabendo.
- Tá, ele vai dormir aí?
- É né, óbvio.
- Ah, bela vingança então. Na boa, é o melhor que tu tem a fazer... porque ficar chupando dedo ou mostrando que tu se importa também nem eras né... o Marcos é muito otário de fazer isso contigo.
- Isso que eu pensei, cara! Eu não vou ficar chorando por causa dele e tal.
- Ah, meu, vou desligar.
- Tá, depois eu te ligo. E, olha só, se o Marcos falar contigo deixa quieto né, age normalmente...
- Sim, certo. Tchau, beijo.
- Ai, meu, tu é tudo! Beijo.

Lilian colocou o aparelho na borda da piscina, mergulhando em seguida para molhar o cabelo, que havia secado durante a conversa. Sorriso ansioso, entre o sentimento de felicidade e nervosismo. Vendo que o rapaz se aproximava, trazendo um copo em cada mão, ela brindou internamente mais uma conquista: "A Jô, eu acho, viu o Marcos ontem com uma vadia", pensou, rindo da inocência da jovem de cabelos repicados desbotados. Nada como um aparelho de celular cujo número não esteja na agenda do destinatário...

Ele entrou na piscina, indo de encontro às costas de Lilian. Um beijo delicado e uma pergunta: quem ligou? Ela contou sobre Duda, comentou o quão desequilibrada andava a amiga - que acordara meio enjoada e precisava da ajuda dela para resolver uns problemas.
- Tá, eu vou ser sincera: ela quer te pedir desculpas pelas merdas e tal. Eu acho que ela realmente se arrependeu, sabe, ela é meio imatura às vezes, mas é boa pessoa.
- Do nada isso? Ela sempre quer brigar por qualquer coisa, a troco de que ela resolveu que estava errada?
- Ela é orgulhosa, mas ela sabe que estava pegando demais no teu pé, Marcos. Além do mais, ela gosta de ti pra caralho, não ia querer deixar essa distância entre vocês.
- Hum... é, pode ser. Ela já correu atrás antes, né? Pelo menos ela não desconfia de nada.
- Da gente? Não, nunca... E eu falei pra ela mil vezes que tu é um cara legal, que isso e aquilo... Opinião de amiga é o que conta, né? Então, eu cresci com ela, cara, eu sei do que eu tô falando... Ela tá super na tua.
- Ah, sério, tu é foda. Super cretina, mas muito foda.
- Mas, assim, fica comigo aqui e depois que tu me deixar em casa passa lá...
- De noite?
- É, faz uma visita. Não custa nada... e tu ainda se passa por namorado superpreocupado, já que ela andava exagerando na dose, né.
- Sim, eu vou ver se vou lá e tal... mas a gente tem tempo até lá...

O final da história não é necessariamente feliz. Sendo ficção, é ótimo fazer com que tudo dê certo: Marcos resolve aparecer na casa da namorada, encontrando Duda aos beijos com Caio. Ela se sentindo vingada e não exatamente enganada, ele um tanto contrariado com a cena. Ambos pensaram em Lilian como uma heroína, cada um com seus motivos particulares e errôneos: braços abertos o tempo todo parecem ser realmente um privilégio impagável.


quarta-feira, 21 de maio de 2008

Olhar Crítico

Eu não sei o que se passa: pensei que talvez fosse a falta de um espelho, mas eu me conheço bem o bastante, reconheço os meus defeitos. Sem cerimônia. Acontece que eu não gosto quando algo ou alguém tira de mim (a exclusividade de) algumas ações (ou funções). Quer dizer, não era essa a minha idéia inicial dos fatos... Se eu não gosto de uma determinada característica de um amigo meu eu não vou ficar feliz em ter isso como semelhança entre eu e um estranho qualquer. É quase como se eu tivesse o direito de não gostar, mas o dever de proteger quem está do meu lado (?). Esse foi meu primeiro pensamento. Depois, horas depois, sabendo que talvez soasse meio falso o primeiro, pensei numa segunda justificativa: é bom ter inimigos íntimos (seja lá o que isso quer dizer - me pareceu tão interessante, huhu...). A velha história de que não existe felicidade em duelar com uma pessoa fraca - tá, se existe mais de um predador pra mesma presa a moral da história passa a ser a estratégia, onde não se tira um olho da presa, mas se colocam os dois sobre o oponente (?). Ok, acordei falando grego.

Ah, eu fico de mau-humor por qualquer coisa. E, principalmente em dias 'cinzas', a tendência é não só observar as pessoas com o intuito de decifrá-las, mas algo do tipo "vou te desmascarar, magrão" - e nisso se enumeram uma série de defeitos sobre o pobre tio que cruzou comigo na rua, por exemplo. É nojento mesmo, eu reconheço. E eu não faço isso como uma alternativa de inflar o ego, a partir do momento em que eu reconheço pontos negativos nos outros. Eu prefiro pensar que eu apenas falo o que muita gente deixa quieto. No fundo, metade das coisas não feitas ou não ditas são por medo de repreensões bobas, do tipo "nossa, que feio o que você disse/fez, Fulaninho".


segunda-feira, 19 de maio de 2008

A História de Estella.

O cigarro pressionado entre os lábios bem desenhados, as mãos bonitas ao redor do isqueiro. Fogo, luz fraca e fumaça.
- E aí, como foi?
- Como foi o quê?
- Como assim "o quê?", você sabe...
Lençóis bagunçados; o sujeito se arrastando, beijando as coxas dela.
- Ah, pára com isso.
Ela se levantou, os olhos fixos nas vidraças.
- Não gostou?
- Seria melhor sem essa pergunta.
Pelos buracos da persiana rústica, viu uma mulher com uma criança descerem de um carro azul.
- Ah, volta pra cá. Tá frio, volta.
- Eu não sinto frio.
- É claro que você não está com frio, você ainda está quente...
- Eu disse que eu não sinto frio.
- Cruzes, Estella. Você não sente nada.
Fumaça, o cigarro entre os dedos. Chutou para cima a calça jeans do chão, pegando-a no ar com a mão desocupada. Tal movimento era um hábito.
- Já vai embora? Como assim, onde você vai?
- Eu vou sair. Eu não moro aqui, daqui a pouco sua mulher chega.
- Não, ela vai para a outra casa. Essa daqui está em desuso, você sabe. Eu te disse para ficar aqui de vez e você não quis.
- Eu não quero fazer mais parte da sua vida do que você faz da minha.
Ele se levantou, ainda sem roupas, procurando pisar nos chinelos de couro marrom. Abriu os braços, sugerindo um abraço - que lhe foi negado.
- Você tem ciúmes, é isso?
- Não. Só que eu não preciso disso, eu tenho a minha casa, eu pago as minhas contas. Eu não transo contigo para ganhar recompensas.
- Ah, então pelo menos você gosta.
- Me poupe, Fernando.
Os pés descalços, a mão no telefone.
- Sabe o número de algum ponto de táxi?
- Ah, pára com isso, eu te deixo em casa.
- Não, eu vou sozinha. Só me consegue um copo de alguma coisa.
- Whisky?
- Qualquer coisa.
- Água.
- Que seja. Não, não me abraça. Eu estou irritada.
- Eu sei, eu vi que você se alterou... mas o que houve? Te machuquei?
- Não, é claro que não. Olha só o seu pinto.
- O que tem ele?
- Nada, eu só disse para você olhar.
Risada breve.
- Não é engraçado como vocês, homens, se preocupam com isso? Metade do tempo é consumido pelo toque, a outra metade pela boca. Isso daí é o de menos, e vocês julgam o mais importante.
- Ah, agora você virou feminista... na hora em que...
- Cala a boca e pega a água.
Calçou os tênis sem meia, não estava afim de procurá-las pelo quarto grande e cheio de papéis.
- Eu te levo, está frio. Só me deixa colocar uma camisa.
- Eu vou sozinha.
Bateu o copo na escrivaninha, o que despertou a ira do homem.
- Vem cá, o que está havendo? Eu sempre te tratei bem, você está agindo como uma menina mimada.
- Vai dizer o que, que eu não tenho educação?
- Também.
- Vindo de você isso é realmente engraçado.
Bebeu o resto da água que não fora arremessada para fora do copo.
- Te incomoda o fato de eu ter outra mulher, é isso.
- Me incomoda o fato de eu não ter o que fazer. Eu estou entediada, cansada dessa vidinha mais ou menos. Não gosto de estar contigo, como estou fazendo, não gosto das nossas conversas sem conteúdo, que sempre acabam na cama, de maneira depressiva.
- Depressiva?
Pegou o sutiã do chão, amassando-o para dentro da pequena bolsa de verniz preto. Vestiu uma regata bege que puxou de dentro do armário, na qual veio enrolado um cachecol antigo cor-de-vinho.
- Está frio lá fora, você não vai só com isso. Leva um casaco, depois você me devolve.
- Eu não vou mais te ver.
A fumaça sendo modelada pelos lábios voluptuosos vermelhos.
- Decidiu isso agora, do nada?
- Sei lá. Você por acaso gosta da minha companhia ou não faria diferença se eu fosse outra qualquer?
- Que bobagem, Estella, é claro que eu gosto!
Socou os cabelos longos para dentro da blusa, penteando a franja morena para trás, com os dedos.
- Você é tão bonita, tão atraente, tão sexy. Tá, não me olha assim, eu não quis dizer só isso... sabe, você é superinteressante, provavelmente a garota mais legal que eu já conheci.
- Ah, conta outra.
- É sério... tá, você vai me perguntar sobre o meu casamento com a Suzane, mas eu já cansei de falar que...
- Ela está doente, ela é paranóica, ela isso e aquilo. Vem cá, eu quero ouvir alguma coisa sem ser comparada com ninguém.
- Tudo bem, então. Você é... especial. Diferente.
- Diferente?
-
Diferente.
- Ok, e como?
- Diferente como uma garota diferente, ué.
- Diferente como uma garota qualquer diferente, é isso que você quer dizer. Eu sou igual a qualquer uma.
Amassou a bagana contra o rodapé, manchando a parede com as cinzas ralas.
- Ah, não estraga...
- Você tem dinheiro disponível mesmo, não vai fazer diferença se sua mulher não vem aqui olhar.
- Tá, espera, não sai correndo.
- Eu te esperei colocar a camisa e você não fez nada.
- Tá frio... fecha a porta.
- Porque eu deveria ficar se eu tenho mais o que fazer?
Os olhos se cruzaram, sérios e cansados. Silêncio, sem fumaça. Apenas perfume, o perfume dos amantes.
- Última vez. É de verdade então?
- É.
- Eu não sei como agir, eu nunca fiz isso antes. Eu deveria me despedir?
- Não seja ridículo, nós não temos um caso de amor.
- Mas eu gosto de ti.
- Fazer listinhas e enumerar qualidades... isso não torna ninguém especial.
- Qual seria a melhor resposta?
- É simples: você gosta de mim porque eu sou eu.
Ele riu brevemente, mas o gesto não foi acompanhado.
- Aristóteles?
- Você é mais velho mas não tem maturidade mesmo. Eu não me enganei.
- Hey, eu prometo que vou te tirar dessa... espera só mais um pouco...
- Mas eu não quero ser sua mulher. Eu estou cheia, você não entendeu? E não é só de você não, é de tudo. Eu tenho que tomar um rumo.
Silêncio, olhos baixos.
- Quer um café?
- Não. Foi assim que tudo começou, há dois anos, com essa mesma frase.
Olhos tristes.
- Foi porque eu não te liguei na virada do ano?
- Foi porque o meu coração nunca bateu.
- Eu sinto muito se...
- Não, você não sente. Mas a culpa não é sua, porque eu não sinto também.
- Então está tudo resolvido, tão simples assim?
- É.
Barulho de um celular vibrando sobre um móvel.
- É a Suzane...
- Tudo bem, atende.
- Só não vai embora, eu falo rapidinho com ela.
As falsas declarações de saudade de Fernando foram a última coisa que Estella ouvira antes de bater a porta da frente da casa. O viu na janela, os olhos por entre os buracos da persiana, as mãos agitadas num gesto desesperado, pedindo que ela o esperasse concluir a ligação.
Saiu andando sem rumo, sentindo o frio gelar os pulmões. Não estava satisfeita com a vida que levava, com a certeza de que era um tapa-buracos na vida dos outros - e este era o seu papel, o tempo todo. Não só na cama, mas em todos os momentos se sentia incapaz de alcançar a própria satisfação. Cigarros vazios, assobios vazios, abraços sem calor, diálogos que não diziam nada.
Talvez estivesse na hora de repensar conceitos, traçar planos, mas um carro preto parou ao seu lado, rente à calçada.
- Eu disse para você me esperar, Estella... que teimosia.
"Vou começar mudando de nome". Seguiu indiferente até a quadra seguinte, ignorando o fato de estar sendo seguida.


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