segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

sereia

faz tempo que não sei quem sou. esqueci de mim. apertei as narinas para dar um mergulho, mas não retornei à superfície. fiquei imersa na imensidão, no caos, na suavidade que amedronta. esqueci do mundo. e voltei sem entender ao certo quanto tempo tinha passado. às vezes, isso ainda acontece silenciosamente. sempre que eu retorno de um mergulho profundo, não reconheço meus dedos nem os fios de cabelos boiando ao meu redor. é como se eu sempre voltasse diferente. e dessa vez não tem sido uma exceção. não sei quem está ao meu lado. nunca soube. em nenhuma das vezes, tive certeza. certezas e pessoas não combinam, não formam um par. e o que mais me assusta é perceber que eu não me conheço suficientemente bem para entender todas as minhas motivações e justificativas. existe intenção, vontade, chuva de emoções. existe verdade, razão e sentimentos. existe o mar e todo o mistério que o envolve. tudo existe. não há o que não tenha sido inventado. me reinvento toda semana, toda quinta-feira, toda vez que encho a caneca de sucrilhos, toda vez que percebo meu rosto no espelho. e, cada vez que eu retorno e as dúvidas parecem ter se multiplicado, é inevitável me afogar. nem sempre o pé alcança o chão. nem sempre existe fundo.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sobre nó(s) e nós

Ontem eu fiquei construindo mentalmente um texto no qual eu estaria me dirigindo a um senhor desconhecido que uma vez encontrei numa calçada, precisando de ajuda para se orientar na rua. A cena em que ajudei esse idoso aconteceu há alguns anos, mas me marcou profundamente. Ele estava perplexo, tinha acabado de se dar conta de que um lugar que adorava e que frequentava no passado tinha se transformado em um estacionamento privado. Então, me contou sobre isso e mais alguns fatos aleatórios que, honestamente, nem lembro. E no final de tudo, sem me fazer perguntas, me desejou muitas coisas bonitas, que soaram como palavras de um familiar muito querido. Em resumo, esperava que eu encontrasse alguém que me fizesse bem e que me tratasse com respeito, que fizesse parte da construção da minha felicidade.
E, nesse instante, logo após uma situação específica extremamente difícil de ser compreendida por mim, me peguei pensando sobre o quanto acho injusto generalizações, sobretudo quando buscam retratar o convívio familiar. É absurdo perceber que um estranho se dirige a mim com mais dignidade do que alguém que, em teoria, deveria ser muito mais próximo e acolhedor. Atualmente, se debate bastante sobre o quanto recursos tecnológicos são capazes de aproximar e/ou afastar as pessoas, favorecendo a comunicação, mas nem sempre qualificando o modo como se dão os relacionamentos, que ocasionalmente ocorrem de forma mais superficial. Pensando nisso, busco entender que outros fatores interferem na maneira como os vínculos pessoais se estabelecem e, por que não?, se estragam. Na situação experienciada, a troca de mensagens por celular é o único canal de comunicação que parece minimamente aceitável. Frases curtas, por vezes objetivas (mas também aparecem rodeios!), impossíveis de serem interrompidas e que, na maior parte dos casos, demandam respostas. Qualquer tentativa de diálogo em formato diferente do mencionado parece ser um ímã para o caos. Minha esperança de ainda conseguir qualquer sucesso nesse sentido é uma prova da minha ingenuidade.
Eu gostaria que fosse mais simples e possível poder transmitir informações, ideias, sem tornar essa tarefa algo estressante. Que a preocupação fosse demonstrada com aparência de preocupação e não como uma ameaça, uma punição ou um apelo desesperado. Que dúvidas e incômodos pudessem ser compartilhados, a fim de serem transformados, ao invés de ficarem restritos ao universo individual, se cristalizando e evoluindo para certezas. Que apoio fosse uma palavra com algum significado, mais amplo do que estímulo e mais afetivo do que uma crença no sucesso que não suporta outro desfecho.
Sinto falta de ser incentivada a ser feliz segundo o meu desejo, segundo os meus padrões, como se estivesse condenada ao julgamento daqueles que sabem o que é o melhor para mim. Faz parte do crescimento cair e levantar-se, embora isso soe caótico a alguns ouvidos. Poderia afirmar que uma grande dificuldade presente no contexto familiar é a falta de confiança uns nos outros, desde a relação conjugal até a maneira como se estabelece o laço entre pais e filhos. Mas estaria mais uma vez cometendo o pecado da generalização, na tentativa de tornar abrangente uma questão que, nesse momento, não é de mais ninguém além de mim.
Se eu encontrasse hoje o senhor que eu mencionei, eu diria a ele - entre lágrimas felizes - que eu encontrei uma pessoa que carrega as características que se encaixam no perfil que ele desejou para mim (e no que eu desejei para mim!). Mas que, infelizmente, minha família não merece desfrutar disso. Não merece supor que faz parte dessa história. Não merece acessar o que se passa no meu coração e nos meus pensamentos.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sobre (rein)ventar-se

Ouvi dizer que nenhum vento sopra a favor de quem não sabe aonde ir. Faz sentido. "So don't complicate it by hesitating" diz a música, como que dando um basta em toda essa cadeia de pensamentos e ansiedades que rodeiam o desconhecido. Como se fosse simples. Mas às vezes é. Esse não é mais um discurso sobre espontaneidade... se parece mais com um estímulo à ousadia, ao novo. Tenho recordado várias frases de efeito que se popularizaram e foram reescritas, moldando-se a novos contextos. Nunca fez tanto sentido pensar em "seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo". A gente precisa se reinventar. O vento vai, o vento volta... traz um pedaço de alguém, nos aproxima, nos afasta, nos esquece, nos esfarela... Mas o vento não tem intenção, não tem desejo, não tem nada além de força e delicadeza. Vento é só tato, é só sensação. Não é ele que de fato determina aonde vamos. "I do believe if you don't like things you live for some place you've never gone before"... Acho que ultimamente tenho optado por escolhas menos óbvias e mais incertas, talvez até numa tentativa desesperada de não precisar lidar com tudo, com todo o fardo da razão. Talvez pareça inteligente admitir que não se tem controle sobre as circunstâncias. "Fuck this shit". Quem só olha pra trás, não vai pra frente. E o futuro é feito mais de imaginação do que de qualquer outra coisa. Eu não sou o tipo de pessoa supercentrada em viver o presente, que pouco se preocupa com o que virá, o que será, o que eu serei. Não sou um bom exemplo. Mas me parece razoável fazer o que é necessário e o que é prazeroso no momento, mesmo que mude, que o efeito seja passageiro. Mesmo que seja confuso. Sinto que eu sempre evitei a confusão, como se não houvesse beleza no caos e na bagunça. As pessoas são bagunçadas. Eu sou bagunçada. "Se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. Se ela te fosse direta, você a rejeitaria". Hoje acordei musical. E música nada mais é do que emoções ventilando, seja harmoniosamente ou de forma violenta.






"Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais?
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei mais"

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Mesmo que mude

"Ele vai mudar,
Escolher um jeito novo de dizer 'alô'
Vai ter medo de que um dia ela vá mudar
Que aprenda a esquecer sua velha paixão
Mas evita ir até o telefone
Para conversar
Pois é muito tarde pra ligar
Tem pensado nela
Estava com saudade
Mesmo sem ter esquecido que
É sempre amor, mesmo que acabe
Com ele aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou"


Eu achei que já tivesse escutado demais essa música para gostar de ouvir de novo, mas hoje fez um certo sentido. Sei lá, essa semana foi estranha. Odeio quando coisas que pra mim são invernais ocorrem no verão. E vice-versa. E acho que nunca vou me acostumar a ignorar determinadas notícias e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Nas últimas semanas elas têm chegado aos montes. Mas tudo bem.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Welcome home

Sleep don't visit, so I choke on sun
And the days blur into one

And the backs of my eyes hum with things I've never done



Sheets are swaying from an old clothesline

Like a row of captured ghosts over old dead grass

Was never much but we made the most

Welcome home



Ships are launching from my chest

Some have names but most do not

If you find one, please let me know what piece I've lost



Heal the scars from off my back

I don't need them anymore

You can throw them out or keep them in your mason jars

I've come home



All my nightmares escaped my head

Bar the door, please don't let them in

You were never supposed to leave

Now my head's splitting at the seams

And I don't know if I can



Here, beneath my lungs, I feel your thumbs press into my skin again


.Radical Face.


 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

It's nothing but time and a face that you lose


When there is nothing left to burn,
You have to set yourself on fire


God, that was strange to see you again,
Introduced by a friend of a friend,
Smiled and said 'yes I think we've met before'
In that instant it started to pour,
Captured a taxi despite all the rain,
We drove in silence across Pont Champlain
And all of the time you thought I was sad
I was trying to remember your name...

This scar is a fleck on my porcelain skin,
Tried to reach deep but you couldn't get in.
Now you're outside me,
You see all the beauty
Repent all your sin...

It's nothing but time and a face that you lose,
I chose to feel it and you couldn't chose.
I'll write you a postcard,
I'll send you the news
From a house down the road from real love...

Live through this, and you won't look back...
Live through this, and you won't look back...
Live through this, and you won't look back...

There's one thing I want to say, so I'll be brave...
You were what I wanted,
I gave what I gave.
I'm not sorry I met you.
I'm not sorry it's over.
I'm not sorry there's nothing to say.
I'm not sorry there's nothing to save!

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[ Your ex-lover is dead - Stars ]

Sobre amor em tempos de avião

Sou do tempo em que o príncipe encantado era aquele que lutaria bravamente pela princesa - ou, pelo menos, sofreria muito com a dor de sua perda. Digno de um final estilo Romeu e Julieta. Quando eu falo em sofrer, quero dizer arrancar os cabelos, chorar soluçando com o rosto vermelho e todas esses gestos dramáticos de quem só consegue expressar o desespero em ações, ainda que pareçam limitadas. O sentimento é tanto que não há espaço para razão, para palavra ou frase. E a recíproca seria verdadeira. Oh, o drama da distância, da saudade, dos empecilhos...
Por mais que a tecnologia tenha melhorado muito os meios de comunicação, eu continuo com um resquício desse velho modo de pensar. Que lindo seria acordar com pedrinhas batendo no vidro da janela. Sei lá, eu não estou falando de flores nem nenhuma declaração necessariamente formal de amor. Mas acho interessante pensar nesse modo "antigo" e mais lento de viver intensamente os relacionamentos. Eu penso que de nada adianta se revestir de armaduras - válido é viver, com todas as qualidades possíveis (e indesejáveis também). Se não der certo, paciência. Mas... antes do "paciência", deve existir a crise. A crise é essencial para a formação da identidade de qualquer um - mesmo que isso não apareça em nenhum livro de auto-ajuda. A graça de tudo é o barulho. Relacionamento sem barulho não existe - onde está o resultado da interação?
Fico pensando que hoje em dia qualquer distanciamento é muito mais acessível - apesar de parecer cada vez menos desejável. É só pegar um avião. Mas e o resto? O que fica? O que vai? Por um lado, penso que devemos fazer escolhas sem deixar que certas questões interfiram na decisão. Mas não sei até que ponto essa frieza é sincera ou mesmo benéfica. As vontades de ir e ficar podem coexistir, é claro, mas acredito que - mesmo que inconscientemente - esse período entre uma coisa e outra compreende o desejo de sentir que fará falta. Você vai por querer conhecer o novo, por querer pertencer a um novo espaço. Mas, para isso, como um conforto ou pura segurança, é desejável que uma parte fique - nem que seja um pedacinho - para manter viva naquele local a presença ou a lembrança de alguém que, sim, é importante.
Por mais piegas que isso seja, eu costumo achar compreensível aquelas cenas de filmes e afins em que alguém vai correndo até o aeroporto impedir alguém de embarcar. Ok, geralmente a pessoa decide isso minutos antes do horário do vôo, mas faz parte do suspense amoroso. Não lembro de ter feito nada parecido e nem lembro de nenhum caso com um conhecido. Mas gostaria que isso fosse mais comum. Que essa impulsividade, esse desespero, fosse mais expresso. Não que as pessoas não possam ir... Elas podem. Elas devem. Mas o barulho deve existir. Quantos relacionamentos não terminam por causa de uma viagem? Claro que eu entendo a realidade, os motivos e todas as conseqüências que as novidades podem trazer, mas questiono até que ponto se deve assistir a tudo isso. De mãos no bolso. Assim.
Talvez o que eu esteja tentando dizer seja simplesmente aquela velha história de dizer coisas reais e bonitas a pessoas queridas em tempo de ser ouvido. Mas eu gosto de pensar que é mais do que isso. Porque dizer já se trata de um segundo passo, em que a pessoa já está consciente de seus desejos e suas necessidades, e expressa isso em forma de ação. O primeiro passo é sentir. Sentir, morrer, se descabelar, chorar, ter pensamentos absurdos e catastróficos. Absorver sem utilizar o filtro da racionalidade. Voltar ao zero, sentir-se sozinho no escuro. Acho que todo mundo deveria se sentir assim um dia para, então, experimentar o amor.


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