quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Solitudine


Eu não sei se deveria me desculpar pelos últimos dias, quando a minha cabeça seguiu na direção oposta ao corpo, e o coração foi para o outro lado e, assim, foi realmente difícil que alguém me encontrasse inteira por aí, sem faltar um pouco de senso de humor ou sensibilidade ou mesmo um pingo de atenção e raciocínio. Ao menos meu alongamento melhorou. Sei lá, na real seria pior ainda já começar o dramalhão com isso de pedido de desculpas. Quem realmente tinha que ouvir isso já ouviu pessoalmente. Entre outras coisas, de repente mais óbvias e de mais fácil entendimento, o que me tira o sono é aquela reconstrução nostálgica de coisas que foram e não foram, do que falta ser dito e de como algumas palavras realmente não serão ditas. Eu não me sinto tão abalada com a distância, mas com a impossibilidade. Quando alguém está longe, ele pode continuar perto - basta vontade, lembrança, já não sei. Mas isso não me conforta agora. (Drama). E eu falei disso pra umas três pessoas e de repente não foi como eu queria que fosse, na maioria, e eu não esperava muito mais do que isso mesmo, afinal sou eu que tenho que sentir o que eu tenho que sentir (ótimo uso de palavras, dona Ivy), nem existe razão em esperar que mais alguém se fira com isso. E o fato é que talvez não mude nada mesmo, afinal a distância já existia. Só a impossibilidade, essa sim, nunca tinha se apresentado. E, num momento onde tu se sente um lobo gordo entre ovelhas meigas, ver pessoas se perderem no caminho, tipo água escorrendo pelos dedos, é realmente uma merda. Ainda mais quando é uma daquelas que te fizeram crescer e honrar o valor de uma amizade. So here i go...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Olá! Só passei pra dizer tchau.

E, hoje, no ônibus, eu encontrei um conhecido que me perguntou com uma cara suspeita se eu continuava a mesma. E já foi consentindo que sim, que eu não mudei. E eu pensando no que pensar. Porque eu não sei bem como ele me via ou como as coisas eram exatamente para saber o que foi modificado ou não. E, grande merda, não me importa (aquela velha história de "hey, babe, você não paga as minhas contas"). Mas eu me senti indignada um pouco pelo tom de deboche e um pouco por eu me sentir ofendida (sendo que foi tudo fruto de, sei lá, desconfiança). E, num dia como hoje, uma coisa bobinha dessas me deixou pensando uma série de coisas. Ouvir o cara falar com uma guria sobre coisas aleatórias e lembrar de quando era eu a "ouvinte oficial" (a pessoa pra quem ele tava dirigindo as palavras, não uma qualquer que escuta a conversa dos outros no ônibus), de quando tivemos conversas boas e construtivas sem existir esse olhar de "antes e depois". Eu não senti saudade, de um modo afetuoso, mas senti um pouco de remorso ao lembrar que um dia existiu respeito (eu não isso pela história do ônibus) e que ele se dissolveu por razões infelizes. Tá, mas isso foi uma linha. A página de hoje é pensar besteira, conciliar fatos que seriam melhores se "simplesmente não fossem", pensar em escrever um monte de coisas e depois me arrepender por ter atos insensíveis, mas também ser emocional demais. E é meio estranho quando tu pensa em uma coisa e de repente ela aparece na tua frente com o mesmo jeito de sempre, só que para te dizer que isso nunca mais vai ser assim. Eu já não entendo nada.

"E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração..?"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Shining trough...


E eu sentei ali por uns minutos ou, talvez, horas, ou dias... Pouco importa. O bizarro foi aquela sensação que há muito eu não sentia, sobre tudo e sobre nada, aquela coisa sem nome que é o poder de se sentir realmente bem não pensando em nada, não vendo nada, não sentindo nada - e ao mesmo tempo tendo a certeza de que cada segundo estava sendo aproveitado ao máximo. Vento no rosto. Vento nos cabelos, um pouco de luz nos olhos - uma pequena confusão para manter a certeza de que somos humanos. Vento e barulho de gente, mas ainda assim o mais intenso silêncio. As coisas mundanas realmente perdem o brilho diante de um desses momentos de refúgio, que não são nostálgicos nem nos remetem ao futuro. E, só de lembrar, dá vontade de fazer isso pelo resto da vida - o que me conforta é que não é nada que possa ser planejado, com a possibilidade de dar certo ou errado, mas algo totalmente espontâneo. Tipo aquela chuva gostosa de verão, ou aquela música perfeita tocando em algum lugar repentinamente.

E eu olhei pro lado e vi outro de mim, ali parado. De olhos semi-fechados, com vento nos cabelos. E nada precisou ser dito, nada precisou ficar mais claro: a sintonia é causa e conseqüência. Liberdade e companhia, tudo no mesmo pacote. Impossível não se sentir realmente bem.

sábado, 27 de setembro de 2008

músicas para ouvir sozinho

(companhia é opcional, é claro)

1. quando tomar chá: my head is my only house unless it rains (everything but the girl)
2. para se balançar: smells like teen spirit (nirvana)
3. para montar coreografias sobre as lajotas da cozinha, comendo algum doce: no milk today (herman's hermit)
4. quando tirar a roupa: mad about you (hooverphonic)

5. para fechar os olhos e esquecer do resto: she's lost control (joy division)
6. quando sentir-se agoniado: everything (lifehouse)
7. ao tomar água fresca (nem gelada nem quente): quase nada (zeca baleiro)
8. e fazer as malas: pretty fly for a white guy (the offspring)
9. em momentos de egocentrismo: the world (nightmare)
10. num dia leve, de primavera: someday we'll know (
new radicals)
11. e pensar no que falar: feedback (nenhum de nós)
12. e refletir profundamente num dia cinza: unforgiven II (metallica)
13. ao voltar pra casa: unwell (matchbox twenty)
14. e cantarolar docemente: a waltz for a night (julie delpy)
15. e repensar sobre aquela faxina nas músicas do pc, enquanto varre o resto de comida do prato: reggae night (jimmy cliff)
16. ao fazer o xixi-pré-balada: cold hard bitch (jet)
17. quando sentir que foi deixado de lado: come pick me up (ryan adams)
18. e fazer performance: beat your heart out (the distillers)
19. para beber algo gelado, no gargalo, rebolando na frente da geladeira: eu não consigo ser alegre o tempo inteiro (wander wildner)
20. e se sentir na praia: já que você não me qu
er mais (seu cuca)
21. e pensar em sexo: one way or another (blondie)

22. e desejar cair na estrada: song 2 (blur)
23. quando se sentir brasileiro: isso é calypso (calypso)
24. e imaginar um filme: superafim (cansei de ser sexy)
25. num dia meigo: quelqu'un m'a dit (carla bruni)
26. e parodiar: saint seya (cavaleiros do zodíaco)
27. e fazer piadas de humor negro: somebody put something in my drink (children of bodom)
28. e lembrar carinhosamente de um amigo: never grow old (the cranberries)
29. no carro, de noite: voyage (desireless)
30. em época de fim de ano, de tarde, antes de ir para alguma festa entediante de família: thank you (dido)


Reset

O preço de viver num passado de coisas imperfeitas é se obrigar a aceitar que nem tudo é como se deseja. Só isso: aceitar que, por maior que seja o esforço ou a vontade, nem sempre os resultados são reflexos do que foi sonhado. E o não sair dessa condição, desse espaço estacionado no tempo, só faz aumentar a angústia de não entender algumas verdades. As raízes crescem, então, e lá estão os pés fixos ao chão, incapazes de saírem do lugar - ou sequer projetar uma sombra sobre o que ficou. Começar de novo, remodelar os pensamentos de modo que o que foi vivido não interfira como um medo ou uma ferida é um processo na maioria das vezes lento - e tantas e tantas vezes impossível.

_

Às vezes eu acho que as pessoas não têm noção de como tudo pode ser facilitado. O problema não está nela ou nele, mas no conjunto de coisas que interfere no comportamento de ambos. Nem tudo é reversível, é claro, mas o poder de amenizar não é restrito nem proibido. Se eu ajo de tal modo e faço com que minhas ações sejam invisíveis ou insuficientes não quer dizer que eu não queira tornar melhor o resultado final - só acho que existe falta de boa vontade de outrém. Eu não gosto do senso comum - um pouco por valorizar meu cérebro, um pouco por teimosia. O dia que eu almejar ser igual a todo mundo estarei assinando meu atestado de ninguém. O que eu quero dizer é que existem detalhes que não devem ser interpretados como defeitos por fugirem do padrão. A porta para a liberdade de ir e vir existe - e a única maneira de fechá-la é não vê-la.


Eu estou aqui, como sempre estive. No mesmo lugar, com os tênis na mesma lama e os cadarços com os mesmos nós. Não faz diferença a intensidade do vento: eu nem sei pra onde e se vou. E pouco importa se o dia está ensolarado ou cinzento, pouco importa a ordem dos fatos: o que passou é imutável, irremediável, inesquecível e imperfeito. Perfeito seria se tivesse um fim - mas os fins são para os grandes enredos, para as histórias recheadas de bravos homens e monstros inescrupulosos. E, por enquanto, não vi nem um nem outro por aqui. Eu não sou a donzela em perigo, nem o cavaleiro que vai salvar alguém. Nem ninguém tão previsível e simplório. E, muito mais importante do que a minha identidade, é o sentimento que existe por trás de cada palavra. Mas eu não posso culpar ninguém por tentar mudar a situação, por maior que seja a teimosia.
O preço de viver num passado de coisas imperfeitas é se obrigar a aceitar que nem tudo é como se deseja.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

pt. 12

- Só isso?! Entrou no bar da esquina, pediu uma bebida e voltou? - Os dedos no queixo, alisando uma barbicha imaginada, demonstravam o quão inquieto o homem estava. Não se conformava com a inocência do erro de Antoine. - Mas ele não ligou pra ninguém, não tirou o celular do bolso, não encontrou nenhum conhecido?
- Não, não encontrou ninguém. E ficou bastante incomodado quando eu me aproximei.
- Sim, homem.Quem é que não fica? - Levantou-se de imediato e deu início a uma incessante caminhada pelo escritório. Contava nos dedos as imprudências do rapaz em questão. - Ele pode ser muito útil, mas eu preciso que ele cresça, que pare de mentalizar isso como se fosse um filme cheio de... cheio de...
- Sortilégios? - Thomas calou-se em seguida, afundando-se na poltrona empoeirada. Ficou esperando reação de Arthur, mas este pareceu não ter dado ouvidos.
- O que eu quero dizer é que eu deixo tudo nas mãos dele, tudo o que não precisa de muito esforço para dar certo, sabe? Aquela história infeliz que ele inventou para a menina... aquilo é um absurdo... Me diz quem divulga suicídio num jornal? E porquê uma folha daquele tamanho, com foto? Ela não é nenhuma celebridade para aparecer em vários jornais e chocar o mundo. Ela mal tem família, aquela desalmada!
- É... mas o garoto é novato, Arthur. Você entrega tudo nas mãos dele, é nisso que dá. E, digo mais, você tem culpa no cartório... Acho bom não deixar mesmo tudo tão fácil, tão barato pra ele. Só que, pra isso, você tem que dar o exemplo, mostrar a ele o que deve ser feito.
- Você diz para eu fornecer instrumentos, mas eu não acho que ele esteja pronto. Se ele soubesse o futuro que lhe espera... Ah, se ele soubesse.
- Pois, então, conta pra ele.
- Não. Ainda não é tempo. - Parou de se mexer, por fim, sentando-se sobre a mesa, mas continuou pensando em voz alta. - E ela acreditou ainda. Um pior do que o outro! Seria tão melhor dizer que ela foi vítima de um acidente qualquer... "Virou um ônibus na estrada", sei lá. Representar ela como só mais uma: é esse gosto que eu quero que ela prove. Até agora foi muito mimada.
- Corria tudo bem quando ela ainda trabalhava para a Lorah.
- É, mas naquele dia em que o Antoine trouxe ela pra cá teria dado tudo errado se ele não tivesse agido. A Lorah errou feio ao colocar um qualquer na jogada. O que era aquele "cliente"? Não podia ter simplesmente armado uma história? Pra quê colocar pessoas reais em jogo? São negócios, negócios! É o meu dinheiro que está ali.
______
Arthur puxou uma jaqueta das costas da cadeira, vestindo-a em seqüência. Tateou o interior de uma gaveta entreaberta e tirou dela um molho de chaves reluzentes. Seus gestos serviram como um convite para o segurança se retirar do aposento também. Continuaram a conversa corredor afora.
- E como ficou aquela história? Ele ficou com raiva de você?
- Não me importa. Eu deixei ele naquele quarto, como você pediu. Ele relutou um pouco, mas viu que não tinha jeito.
- Não apelou?
- Chantagem emocional? Não... Eu sou homem, ele não ia tentar umas coisa dessas comigo. Ainda mais depois do banho de catchup.
- É. - Olhou de esguelha para Thomas. - O que eu achei um tanto inadequado... Mandei que o cultivasse como um aliado.
- Ah, ele é muito gosminha. Só sabe pensar em "garotas e bebidas", como ele mesmo fala. - Afinou a voz ao imitar o colega de trabalho. - Ele tem que aprender que não têm mais doze anos.
- Eu não pensava em bebida aos doze anos.
- Em compensação, agora todo o dia tira o atraso... - Ambos gargalharam em alto e bom som. A verdade é que Arthur não gostou do comentário, mas não queria se indispor com o segurança. As coisas não iam bem e não era hora de complicar ainda mais os afazeres. Apesar do avanço, de uma ou outra surpresa por parte de Agatha, não estava certo de que a jovem se adaptaria. A decisão de deixá-la circular pelo esconderijo fora repentina e até desesperada, embora não fosse motivo para arrependimento. Mais fácil deixá-la ocupada com qualquer coisa do que sustentar uma rotina que em nada a faz evoluir.
- Acompanhe Rudolph na reunião de hoje. Não vou comparecer.
- Mas, chefe, é uma reunião importante. O Rudolph não é muito competente... você sabe como ele reage com certa pressão... e ainda dispensa o uso de calculadora...
- Que seja, Thomas, que seja. Cuide para que ele não enfie a empresa na lama. - Parou os passos, de imediato, e virou-se de frente para a enorme figura que andava à sua esquerda. - E, por favor, não deixe que ele saiba o que estou planejando, sim? - O rosto inclinou-se, expondo os olhos faiscantes que pareciam tímidos quando as sobrancelhas não se arqueavam.
______Arthur deixou o segurança para trás e seguiu pelo labirinto escuro que o levava aos demais cômodos da casa. Passou pela cozinha, onde cumprimentou a cozinheira com um aceno de cabeça: mudar os modos ao se dirigir a outras pessoas se tornou um hábito peculiar. E, de novo, substituiu sua expressão por outra ao ver uma silhueta feminina encostada a parede, dentro de um quarto ainda mais afastado e recheado de alarmes e câmeras.
- Oh, minha querida, como tem passado?
- Poupe-me, Arthur, poupe-me.
- Seus cigarros acabaram de novo? Vi que tem fumado mais do que o habitual.
- Não, ainda tenho alguns por aí. Quer? - Lorah parecia abatida, mas isso não fez com que ela se mostrasse menos sedutora.
- Não, querida, eu não fumo e você sabe. - Ele encenou um ar de desaprovação exagerado.
- Então, o que te trouxe aqui?
- Custa muito me ouvir? - A falsa cordialidade do homem era muito bem sustentada pelo seu tom de voz agradável.
- Não, eu não quis dizer isso... - Ela se levantou, deslizando as mãos pelos cabelos sedosos e vindo de encontro ao chefe. Aproximou-se com a respiração compassada, erguendo-se aos poucos nas pontas dos pés, parando diante da boca de Arthur.
- É claro que não. - Ele baixou os olhos e aproveitou a oportunidade para voltar a agir normalmente, como o velho seco e impaciente que era. Afastou-se a passos largos, deixando Lorah num misto de vergonha e raiva.
Desaprovava as repetidas investidas da mulher e, por vezes, sentiu vontade de interrompê-la com um tapa no rosto. Deu uma risada baixa antes de prosseguir. - A garota pensa que é com ela. Todo esse plano para ensiná-lo a brincar e ele lida com essa imaturidade...
- Isso é exagero, Arthur. - Desgostosa com a cena anterior, Lorah agora falava com a mais severa naturalidade de qualquer pessoa com senso de profissionalismo. - Deixa o garoto fazer as besteiras dele, ele está em treinamento.
- Aí é que está! - Ele berrou, levantando os braços acima da cabeça. - É ele, é ele, Lorah.
- Você diz...? - Sua expressão ficou ainda mais séria, mas pontuada com um quê de preocupação quase maternal.
- Sim...
- Certeza?
- Eu não me engano duas vezes, Lorah.
- Hum... bom, então fala pra ele logo. Você não tem muito tempo.
- Mas é estranho, é estranho concordar em ser pai dele assim, de uma hora pra outra.
- Você não está falando sério, Arthur, são só papéis. Só papéis.
- Papéis e dinheiro.
- Ainda assim papéis.
- Mas e se ele deixar tudo que eu construí afundar?
- Então não é o lugar onde ele deveria estar.
- E você acredita que faria isso melhor?
- Convenhamos, Arthur, nós sabemos do que eu sou capaz. E já não é sem tempo, né? Faz anos que eu estou tentando te convencer... Eu estive do seu lado, querido, desde o começo. Eu te vi fazer tudo o que fez, eu acompanhei sua carreira, sua ascensão, seus erros... Arthur, eu sei de tudo que você precisa e não precisa!
______Arthur acompanhou a revelação surpreso com a "modéstia" da mulher, apreciando o som podre que cada sílaba parecia produzir... Só não fechava os olhos para ser mais fácil de acreditar nas barbaridades que ouvia. Nunca na vida colocou seus segredos à disposição de qualquer pessoa que não fosse avaliada para isso. Conhecia Lorah há algum tempo, verdade, mas em momento algum deixou-se envolver por suas ações de falsa amizade, onde o interesse pelos negócios era tamanho que não poupava o próprio corpo.
- Mais alguma palavra, querida?
- Eu disse tudo o que você já sabia.
- Naturalmente. - consentiu o homem. - Então, vejo que não nos veremos tão cedo.
- De novo? - Ela exprimiu um sorriso nervoso. - Olha... eu não queria falar disso, mas eu não estou muito confortável por aqui. A sua casa é bonita, sim, mas eu sinto falta de... hum... movimento... sabe? - O que foi dito ganhou dois sentidos, embora o desejo maior fosse de exaltar que o ambiente sem pessoas lhe trazia certa angústia.
- Movimento? - Arthur riu maliciosamente, os olhos apertados por trás das lentes.
- É... movimento. - Ela passou a mão nos cabelos e ficou à espera de um convite qualquer, que não aconteceu. - Mas vejo que você ia falar algo e foi interrompido. Prossiga, querido.
- Eu disse que não vou te ver tão cedo. - O silêncio que se seguiu entregou a gravidade da situação. Em questão de segundos Lorah virou às costas para Arthur, se projetando para frente, buscando apoiar as mãos nas grades que embelezavam o contorno da cama.
- Seu traidor... você disse que não ia... não ia... - A fala foi interrompida por um grito de dor e horror que aos, poucos, deu lugar a gemidos e resmungos baixos... As balas da arma de Arthur acertaram pontos vitais do corpo de Lorah. Era questão de tempo até encontrá-la sob seis ou sete palmos do chão.
______Satisfeito, o velho acomodou o revólver de volta no bolso. Recuou alguns passos, para então se virar para a porta. Não se lembrou de tê-la deixado aberta, mas aprenderia em breve que esse tipo de esquecimento poderia rascunhar novos problemas: Agatha estava parada no corredor, as mãos tapando a boca e abafando os soluços chorosos.


quinta-feira, 18 de setembro de 2008

areia molhada


E, se você parar pra pensar, vai ver que não é tão diferente...
Não pensei num desfecho pra idéia, só me deixei embalar por aquelas lembranças que, no fundo, podem não dizer nada - mas, de repente, mostram um monte de coisas. Tipo ficar em pé, na beira do mar, esperando as ondas se aproximarem e a água tocar seus pés: chega um momento em que, a não ser que tu seja uma tatuíra (ok, isso foi desnecessário), tu vai ter que te equilibrar colocando pelo menos um dos pés em outro ponto. A água vai arrastando a areia e, com o vai e vém, os pés vão sendo cobertos pouco a pouco (ou não tão lentamente).
Tudo bem, eu não sei descrever o mar, nem nada disso. Mas eu me lembro de ficar horas paradas, desafiando o nada. O bom da praia, pra mim, são esses momentos em que tu foge um pouco da tua lucidez e de todas as regras que regem o mundo para prestar a atenção em coisas simples e prazerosas - tipo o vento, a água e enfim. Desprezando o calor e, bem... tentarei me manter firmezinha e não falar de outras coisas.
Férias, luz e a beleza das coisas imateriais!
Nossa, eu daria tudo para sentir essa tranqüilidade das lembranças agora. Na verdade, eu só preciso desse momentinho: afundar os pés na areia molhada por algum tempo e conseguir não pensar em nada; olhar pro chão e entender o que pode ser aprendido com detalhes realmente incomuns.
Talvez a cena só te diga que existe hora de agir, que nem sempre o ficar parado - ainda que numa boa - te leva ao melhor caminho. É, eu não gostaria de ter dito algo assim. Eu pensei em tanta coisa legal e agora ficou banana de escrever isso. Tanto faz. O que importa é não se deixar levar (haha).
E as coisas andam tão inconstantes que já nem sei onde procurar essas mensagenzinhas.
Talvez os homens compliquem demais. Ou talvez seja só eu.
Mas eu ainda acho que tem alguma coisa por trás disso - porque
se você parar pra pensar, vai ver que não é tão diferente...
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