segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Sad but true.

Esses russos! Acho que esperam até que um vírus os deixe constipados para registrarem o nome dos seus filhos. Como se fizesse parte de um ritual de iniciação espirrar ao dizer o nome da criança ao funcionário - e este o escreve como o ouviu, exatamente como ouviu. Só pode ser essa a explicação para tantos nomes impronunciáveis... É, eu fico pensando esse tipo de coisa quando as pessoas ao meu redor não parecem interessantes. Vou te dizer que acho desconfortável ser alvo desses olhares penosos. Eu fico sem graça até para cuspir o caroço de azeitona no guardanapo, o que eu acho um tanto patético. É divertido tentar mirar o caroço na lixeira e passar horas fazendo pontos imaginários. Sério, como as pessoas não têm criatividade. Tanta coisa para fazer e elas se enfiam, nesse fim de noite, num celeiro abandonado para beber e ouvir essas porcarias. Isso não é música... ah, mas não é mesmo. Tudo bem, eu exagerei quando chamei isso daqui de celeiro. Eu só sei que é de madeira e consideravelmente grande, numa área mais afastada - até pelo barulho que essa gente faz. Como se fossem animais no cio, só que sem algum motivo aparente. Eu olho para esses garotinhos e, ai, me dá tanta vontade de viajar no tempo e no espaço, chegar logo na Escócia de homens machões e de saia - eles não têm essas frescuras de dizer que tudo é coisa de viado. Eu acho um tanto depreciativo da parte dessas garotas passar uma ou duas horas na frente do espelho para encherem o rosto de pó e virem desfilar para esses trastes. Essas são as pessoas com quem ando ultimamente: inexperientes que posam de deuses e humaninhas querendo ser deusas. É, soou meio estranho. Daqui a pouco eu vou subir naquela camionete, lá na frente, deitar naquela parte de trás e ficar olhando pro céu. Bebendo sozinha. Bom seria se eu tivesse como ouvir minhas músicas daqui, sabe, pelo menos isso. Quando eu cheguei tinha um cara vomitando, e ele sentou no chão para beber água e ficou me encarando com os olhos vermelhos. Eu tenho uma cicatriz muito ruim na panturrilha, que faz muita gente me perguntar o que foi que eu tatuei. Eu não sei o que passa na cabeça dos outros quando eles me enxergam com esse ar de anormal. Eu menti quando disse com quem tenho andado. A verdade é que eu não só não tenho andado como também não tenho ninguém para andar, se fosse o caso. Tudo bem, ninguém já é demais... - perceba como sou irônica. Ai, adoro quando eu dou esses sorrisinhos sozinha, espontaneamente, e aquela garota de vestido vermelho olha para trás e cutuca o namorado, de quem ela deve pensar que eu estou afim. Até parece! Faz um século que eu não saio com garotos. Bom, pra dizer a verdade onteontem eu saí com um carinha, mas eu não posso dizer que valeu a pena. Esses amigos da Gabrielle sempre aparentam ser uma coisa e, quando eu vejo, são tão mais sem sal. E foi ela quem me trouxe aqui, aliás. Diz ela que "a festa vai bombar" e essas coisas. Eu fico feliz pela parte da bebida ser liberada (ainda que isso traga algumas conseqüências bem clássicas e infelizes) - até acabar. E eu nem paguei muito caro não - eu sou menina. As flores sempre pagam menos. Eu francamente não sei o porquê, mas não sou eu que vou reclamar, né? Acho ótimo, bem melhor do que ter nascido na Rússia, com nome de espirro. E cá estou eu, com passos lentos e desequilibrados, chegando perto da camionete vermelha. Eu não sei quem é o dono, mas ela parece ser bem confortável. Melhor espiar: não seria surpresa encontrar um casal escondido. Não tem ninguém. Ninguém. Ah, que perfeito! Pena que isso não vai demorar muito para acabar. Se eu disesse pra Gabrielle que estou louca para dar um basta ela tentaria dar um basta na minha loucura. Bem assim. Quando eu falo sozinha, ela imagina que eu esteja me relacionando com as azeitonas, veja só! Eu escondi uns doces no bolso. Não foi tão escondido assim, porque alguns estranhos viram e comentaram entre eles. Até aquela magriça do vestido vermelho. Doze doces para distribuir entre algumas horas... Eu nunca pensei que fosse gostar tanto de sentar num capô, com docinhos e absinto. Só faltava música. Tudo bem, isso parece ser realmente digno de incompressão. Eu poderia facilitar, dizer que prefiro mil vezes aquela clínica e toda a sua luminosidade do que esse celeiro imundo, cheio de pessoas e seus capuzes. Mas eu vou negar isso até o final... e quando não restar ninguém eu vou ser tão, mas tão feliz. Seremos eu, você, o celeiro, a camionete, o absinto, os doces que sobrarem e mais ninguém. Quero ver cada capuz cair, um a um. Eu sei que não sou imortal, foi um acidente eu ter sobrevivido. Mas não vão mais rir de mim por isso, não por isso e nem por nada. Nem a Gabrielle, nem ninguém. Nem ninguém! E talvez seja melhor sem música... ver as pessoas gritando, agora com motivo. E a lua fica realmente bonita refletida nessa lâmina. Adoro meus sorrisos espontâneos. Você também adora, não adora?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O'Clock

Ele deixou cair a merda do relógio e ficou me olhando com aquela cara de quem não sabe o que fazer, pensando que ele era um desastrado mesmo, mas que tudo seria melhor se eu não gritasse tanto. Bufei e chutei um pouco de terra pro alto e saí andando campo afora. É sempre chato quando não se tem um lugar aonde ir quando a gente precisa de um. A minha vontade era de pegar as coisas e sair por aí, como a gente vê nos filmes. Só que, como eu disse, isso só dá certo nos filmes.

Eu não queria admitir que o que ele fez foi realmente inocente, mas eu não podia deixar de culpá-lo por ter destruído o meu único elo com, bem, eu simplesmente não tinha como agir com indiferença. Não foram ovos quebrados, nem um vidro de perfume, nem nada que valesse algum dinheiro: era só o meu relógio, o meu relógio. E, agora, nem mais ver o tempo passar eu podia. Era a minha motivação.


Está certo que, às vezes, os ponteiros param e a pilha é trocada, mas isso não muda o fato de que aquele objeto em especial era intocado. Eu sempre o guardava num bolso, próximo ao peito - enrolava a corrente pelo qual estava pendurado o medalhão e mergulhava o pequeno embrulho metálico no bolso. Se você quer saber, ele não fora do meu avô, nem resistiu à Primeira Guerra Mundial, nem nada assim. E talvez não fosse tão bonito mesmo, mas significava muito.

Eu nem deveria falar disso agora. O que importa é que o infeliz do Larry vai choramingar a noite inteira por causa do ocorrido, vai me oferecer seus óculos (iguais aos do Neo) e o que for para não se sentir em dívida comigo. E eu estou pouco ligando. Ok, isso é mentira. A culpa foi dele, toda dele - talvez não totalmente. Ele é um bom amigo e fica nervoso com facilidade. Tipo aqueles idiotas dos filmes, que gaguejam e usam o mesmo corte de cabelo de quando tinham uns seis anos: ele é o perfeito idiota.

O problema todo é que ele não tem vontade própria e é totalmente submisso ao que eu e todo mundo achamos dele. Ser bom em física deveria ter como recompensa alguns benefícios, tipo músculos e garotas. Ou não. Eu sou bom em física e não tenho nada disso, senão um amigo idiota e um relógio quebrado. É até irônico não poder ver o tempo correr nesses momentos de crise. A moral do relógio era essa, só essa. Eu o comprei durante uma fase nebulosa e me fazia bem deitar na cama e ficar seguindo os ponteiros com os olhos, ainda que isso pareça sacal.

Pensei em aceitar os óculos, mas isso não seria justo com o Larry. Oh, Deus, ele é tão idiota. E eu me sinto como ele, idiota, quando falo de uma coisa que eu não acredito. Eu tenho este hábito de falar sozinho também, em voz alta, e já surpreendi muitos desavisados com isso - essa gente que entra no meu quarto achando que é o banheiro e encontra um marmanjo deitado e conversando com as paredes. Eu moro em uma pensão, no último quarto do corredor. A minha maçaneta está estragada, antes que alguém pergunte. Eu fiquei de arrumar, mas isso foi há quatro meses.

A minha mãe me manda dinheiro para o aluguel, para o resto eu me viro. Aquele relógio custou uma puta grana, na verdade, muito mais por ser antigo do que qualquer outra coisa. O vi dentro de uma caixa marrom e pequena, sob uma espécie de cofre de vidro, onde ficavam expostas as jóias da loja. Era uma típica loja de velhos negros que gostam de Jazz e ainda estão à procura de alguma mulher para presentear. Eles são sempre assim aos meus olhos. Não me parece mau... é, nada mau.

A verdade é que, junto com o relógio, se foi todo um lance de memória, afinidade, essas coisas com um quê de afeto que fazem a gente parecer mais meloso do que realmente é. Tipo quando se dá um buquê de rosas para uma garota, desejando que ela, enfim, te receba de portas bem abertas. É uma maneira fácil e indolor de conseguir que ela te veja com bons olhos quando, no fundo, você não só não foi nada original como foi incapaz de realizar a façanha de escrever um cartão com algumas palavras que enfeitassem um pouco a sua mentira.

Eu não sou dessas pessoas que cortam o cabelo para começar uma nova vida, mas eu tenho manias tolas e cadarços que me dão sorte. É idiota falar isso, eu sei - droga, nem o Larry tem essas idéias -, mas eu aposto como existe mesmo troca de energia entre alguém e um objeto de suma importância. É como se aquilo te desse força, tipo um escapulário. E eu que pensava que era o mais cético dos céticos.

E, se eu pensar bem a respeito, concluo que esse apego às coisas se deva a minha falta de apego com as pessoas. Autoanálise não funciona, eu sei, e não é essa a minha intenção. A moral é que eu estou sentado nesse quarto há umas vinte horas e não sei o que fazer e nem o tempo exato que eu gastei escrevendo isso. Eu deito na cama e torno a levantar, eu olho pela janela e vejo a chuva molhar a terra e a grama e todas aquelas plantas que eu não sei nomear. E quem se importa com aquelas plantas - que, por sinal, não são roseiras - ? Parece até que o mundo é feito de cães, humanos e rosas.

O fato é que o Larry é um doente e eu vou demorar até encontrar algo para me entreter. Eu deveria arrumar a maçaneta e deixar de me preocupar com esses hóspedes que não sabem ler placas em portas. Eu deveria, eu deveria, eu deveria tanta coisa... Só não quero aceitar que eu matei o tempo para me dedicar àqueles ponteiros e agora só a corrente está inteira. Que vida desperdiçada, cruzes. De qualquer jeito, eu sempre tive que encontrar algum lugar para chamar de meu. Seria mais fácil começar pelos músculos, pela tática das rosas, pegar a mochila e sair por aí... mas eu não sei a hora certa para agir. Nunca soube.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sides.

O lado bom da imparcialidade é que, de fato, ela não lhe oferece uma inimizade.
O lado ruim, é óbvio, é a ausência de proteção.
O lado bom de falar sem pensar é uma verdade espontânea - que nem sempre oferecesse seu melhor ângulo.
O lado ruim de pensar e pensar é acabar não falando, ou reprimindo certas emoções.
O lado bom de ousar é manipular sua insegurança.
O lado ruim de tudo isso é que você não pode manipular a confiança que os outros depositam em você.
O lado bom de viver como um desgarrado é poder ter sempre um novo presente para conhecer.
O lado ruim é ter uma história longa, mas recheada de acontecimentos vazios.
O lado bom de pensar nisso tudo é a sensação de aprendizado.
O lado ruim vem do martírio, da nostalgia. E do sentimento de que algumas feridas ainda latejam.
O lado bom de escrever é colocar para fora parte do grit
o.
O lado ruim é o medo da interpretação e da exposição. Mas, se a folha for arremessada na lixeira, é como se fosse uma memória não vivida e descartada - e, sabe-se, mais cruel do que a lembrança é a sombra da indiferença.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Manuscrito.

E, assim que a porta bateu, os belos olhos se voltaram para o manuscrito que repousava sobre o travesseiro. Teria o tempo de um banho para vasculhá-lo, encontrar o que queria e devolvê-lo ao seu lugar de origem, com a aparência de intacto. Não seriam poucos minutos o problema, mas o virar ou não de páginas.

Clara era uma jovem bonita, de cuja pele fazia jus ao nome. Podia ter aos seus pés quem quisesse sem muito esforço. Sofia não era muito diferente disso, apesar de gostar menos de exposição. Se conheceram e desenvolveram uma relação incomum de afeto, onde a dependência que uma tinha da outra era constantemente perturbada pela rivalidade.

O tempo de um banho seria suficiente. Mais que o suficiente, pensou. A convivência com a dona das palavras fora útil, uma vez que ficara fácil trapaceá-la depois de ouvi-la falar sobre suas manias mais particulares. O hábito de contar seis dedos de margem e então alinhar o diário ao contorno imaginário fora uma descoberta essencial - um centímetro a mais ou a menos denunciaria uma invasão de privacidade.

Abaixou o volume da música, temendo que os passos fossem abafados. Ajoelhada do lado do rádio, com as mãos sobre os joelhos ossudos, hesitou por mais alguns segundos. Já tinha resistido demais. Engatinhando em direção ao beliche, confirmou com o canto dos olhos que a porta fora bem fechada.

Com dedos trêmulos e magros, acariciou a capa peluciada que embalava aquele recheio de segredos. Pegou o diário com as duas mãos bem firmes, mas não pôde impedir que uma foto escorregasse do meio das folhas. Atrapalhada, resolveu continuar a busca e deixar para depois a solução para o imprevisto.

Letras de música, recortes e rabiscos preenchiam aquelas páginas virgens, que sequer traziam linhas. Notas de trabalhos, medidas de busto, quadril, altura, amostras de cabelo presas com durex. Sofia reconheceu seus fios castanhos entre os demais e sorriu carinhosa e silenciosamente. A alegria e a sensação de bem-estar não demoraram a desaparecer.

Os olhos belos passaram de lacrimosos a perplexos e o nervosismo só não foi maior porque a surpresa, no caso, fora uma confirmação. Não duvidava que Clara fosse capaz de fazer o que fez, só não esperava que fosse verdade - mais ou menos esse filme passava em sua mente. O problema agora não era descobrir o que tinha realmente ocorrido, mas como conviver com uma desconfiança que nascera sem motivos e crescera a ponto de comandar ações.

Fechou o manuscrito com um tapa e ajeitou-o sobre a fronha com tal violência que amassou-a consideravelmente. Alimentar uma ilusão é uma coisa, vê-la sair de seu controle é outra. Não dominava mais a situação no papel de vítima: agora Sofia podia ser tão culpada quanto a amiga. "Amiga".

Não é à toa que Clara se mostrava tão carinhosa... provavelmente era um jeito de se redimir. Seria de melhor praxe mudar o vocabulário para uma direção mais coerente - quem sabe se tentasse argumentar, explicar seus sentimentos? Clara não faria isso. Clara não fez isso.

Uma garota tão racional - a outra tão flexível. Uma de língua afiada, a outra um tanto passiva. Uma de humor negro e cigarro, a outra de gatos e vinhos. Uma de branco no preto, a outra de preto. Só preto. Talvez não combinassem em tudo, talvez nem combinassem no mínimo - o fato é que seus laços eram realmente incompreensíveis para observadores novatos. Nem nós, nem laçarotes: eram laços impecáveis, fortes, simétricos.

Quando a toalha voltou ao quarto, dessa vez molhada, foi atirada na cama com indiferença. Sofia mais uma vez estava sentada no chão, do lado do espelho vertical, com as costas repousando na parede fria e úmida. O rádio do lado, em volume mais alto do que o normal.

Clara agitou os cabelos, de forma a jogar água na garota. Completamente nua, se abaixou para fitar os olhos belos. Levantou-se silenciosa, esticando os braços para o alto e observando seu corpo no espelho. Questionou se tinha engordado, obtendo um não como resposta. Passos para trás e uma coisa grudada no pé direito: entre o indicador e o polegar de Clara estava a foto que caíra do diário.

Assoprou para fora da foto algumas gotas cristalinas e fixou-a num porta-retrato da escrivaninha, esboçando satisfação ao fazê-lo. No fundo, não era o que sentia. Sabia o que tinha acontecido, mas ainda não entendia sua posição quanto a isso. Achava realmente mais fácil ser lida do que ouvida e não esperava reação diferente de Sofia quanto à notícia - embora, em seu íntimo, quisesse acreditar que a garota não tocaria no manuscrito.

Se encararam por alguns segundos, Sofia encostada na parede, abraçando as pernas magras, e Clara sentada na cama, com o tronco pendendo para a frente. Se entendiam completamente, conhecendo a situação em que a outra estava e o que supostamente sentiam. E sentiam como ninguém. A frieza de uma era corrompida pela ingenuidade da outra. Eram como sombra e luz, num jogo de amor e sofrimento. E o manuscrito era só um capítulo à parte.



quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Caixão e cinzas.

Eu acabei de chegar de uma dessas cerimônias que as pessoas fazem quando morre algum conhecido delas. Foi estranho, mas foi bom. E eu sequer tinha idéia de quem era o falecido. Não era muito velho, mas devia ser solteiro - quem sabe viúvo? -, pois não vi nenhuma figura feminina que se comportasse como uma amante dele. Só compareceram parentes e amigos engravatados. Dezessete pessoas, para ser mais precisa. Entre elas, duas crianças que não pararam de correr um segundo. A mãe delas, coitada, nem prestava atenção nisso, uma vez que devia ter realmente uma forte ligação com o morto - e o cara ao seu lado, que eu julguei ser seu marido.

Eu cortei o caminho por aquela rua arborizada, pensando que talvez fosse bom dar um basta no cigarro, respirar algo mais puro. Não fui muito feliz, já que no enterro tinham uns homens que não deixaram o vício de lado nem para expressar tristeza. Mas eu não sou ninguém para falar deles. Até foram legais comigo, me cumprimentando como se eu fosse a filha ou, quem sabe, a namorada do sujeito do caixão. Eu achei meio bizarro aquilo tudo. A gente que não tem nada a ver com a história sofre um monte ao ver os rostos sem cores nesses rituais silenciosos. Quer dizer, tinha barulho. E aquela música de partir o coração. Mas eu juro que nem ouvi nada - não com a mente.

O dia foi uma merda, como vem sendo há muito tempo. E se tem uma coisa que eu não gosto de verdade é não conseguir colocar para fora a minha angústia. É como se, nessa hora, todos conseguissem - menos eu, que mais preciso. Eu precisava chorar. Uma lagrimazinha que fosse, umas reles lágrima. E eu precisei da dor alheia para sentir a minha. Quer dizer, é meio dramático falar disso, mas é realmente imbecil perceber que você deseja uma realidade às vezes pior para se mostrar digno de admiração. É claro que eu não achei que todos os presentes estavam lá realmente por amor e respeito ao morto. Umas cinco, seis pessoas deviam estar realmente à beira de um colapso nervoso, é verdade, mas falar que todo mundo se importou seria ocultar alguns fatos. A verdade parcial esconde a necessidade, isso é uma regra. Tipo o marido que estava fazendo companhia à esposa. É incoerente eu julgar um alguém pelo coimportamento aparente, mas estava na cara que o que levou o cara lá foi a esposa. E só.

Eu caminhei devagar por entre a roda de pessoas, observando tudo com a curiosidade de um gato. E me fez bem olhar para o semblante de um ser inanimado. Eu sei lá o que houve com ele, era jovem para morrer. Eu não estava diretamente afetada, uma vez que eu não tinha relação de afeto nenhum com ele - pensando bem, não tenho isso com ninguém quase. Fiquei imaginando o que o falecido pensava de mim naquela hora, chegando de intrusa numa cerimônia restrita e, bem, realmente inadequada para estranhos. Ele devia ter pena de mim. Eu sempre pensei que os mortos soubessem bem mais do que os vivos, sabe. Eles morrem e ficam transparentes, andando por aí e atravessando paredes, com a velocidade da luz. Podem descobrir o que quiserem. E talvez até saibam ler pensamentos. Deve ser bom.

Cheguei aqui com os pés embarrados. O porteiro me olhou torto e apontou para o tapete da porta do hall de entrada. Eu nem dei muita bol, mas limpei os pés para evitar conflitos momentâneos - eu voltara de uma boa experiência, não queria que um porteiro de merda me deixasse emburrada. Eu voltei cedo porque os caras da loja ficaram de entregar o sofá agora - por mim ficava mais tempo na rua, já que o tempo está bom. O meu casaco verde escuro não me favorece, mas eu reparei que tinha um senhor na cerimônia que não tirava os olhos dos meus. É algo desconfortável, sabe, quando você está chorando por alguma bobagem em que anda pensando, num local super temático para tal, e um velho resolve te achar bonita. Quer dizer, ele podia ter desconfiado de alguma coisa. Mas agora tanto faz. Não falam por aí que os jovens não têm cabeça, são todos imaturos e fazem coisas para chamar a atenção? Então, de repente eu sou assim também.

Acontece que, por alguns segundos, eu me senti um elo daquela corrente de tristeza. Mesmo pessoas como o marido da mãe das crianças que corriam, que devia estar pensando em coisas do trabalho ou ouvindo o jogo de futebol no rádio com fones de ouvido megadiscretos, sentem coisas parecidas em momentos ímpares. Sabe, diante da morte, por exemplo, todo mundo é igual. A gente finge que não, mas morre de medo de conhecer a nossa vez. E talvez eu queira todo esse mar de poderes que vem depois da passagem, mas eu nem sei se acredito nisso que eu digo acreditar. Parece que eu passei o tempo todo fugindo de tudo, fugindo da vida, feito aquelas crianças que, sem saber, brincavam felizes e cruéis diante da única verdade universal. É claro que elas não vão escrever isso numa redação para a escola e é claro que nem têm noção da complexidade que envolve um defunto. Nem eu sei.

Talvez eu nem devesse parar de fumar - sempre que eu penso o contrário me acontecem essas viagens.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Fuckhoroscope

Oh god... Não sei se fui eu que não reparava muito, mas as pessoas parecem tão mais generalizadas. Ok, não é neste sentido que deve ter soado: todo mundo está tão mais feliz se descrevendo com coisas comuns e vagas. Eu gosto de astrologia, gosto mesmo, mas ouvir sobre isso o tempo todo é muito irritante. Principalmente quem justifica todas as atitudes e características e papapá com esse artefato. Conhecimento de horóscopo de jornal é algo lindo, mas só para quem escreve as besteirinhas nos quadrinhos. Que merda. Eu nem ia falar disso, mas já que eu me lembrei de alguns fatos resolvi comentar. Como se todos os taurinos fossem do mesmo jeito, só os cancerianos pudessem fugir para o lado emo da força e essa coisa toda. "Ah, ela é de gêmeos, né cara? Tinha que ser duas-caras." - quem merece isso? Que perseguição do diabo, que neura. E aquela propaganda toda no Orkut (veja como sou quente hein, o meu signo é foguentinho). Que coisa bizarra. Tá, eu juro que queria ter feito algo melhor do que só jogar essa reclamação aqui. Mas eu vou deixar tudo um trapo mesmo, afinal eu sou teimosa, né? Sabe como são essas arianas...


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Acetona


O telefone tocou. Uma, duas vezes mais. Ela continuou sentada na poltrona, com o vidrinho de esmalte preto comprimido entre as pernas. Ouviu sua voz dar um aviso à pessoa que estava tentando contatá-la, algo sobre ela não estar disponível e, por favor, deixar um recado e aguardar. Fora uma mensagem infantilmente alegre, uma vez que o som desafinado do violão não fora abafado durante a gravação: nada surpreendente para uma jovem que reúne os amigos no apartamento com certa freqüência.
A camisa de flanela não cobria grande parte de suas coxas - e, ainda assim, a façanha era praticamente impossível levando em conta a posição da garota. As mãos recheadas de anéis prateados ganhavam destaque com a tinta nas unhas. O dia, lá fora, estava mais para domingo: vento, nuvens e menos luz do que o habitual. O clima, dentro da casa, era atemporal: o calendário mais parecia um enfeite, presente de mau gosto - não tinha muita utilidade.
- Natalie, eu sei que você está em casa. Tá, eu sei que você não quer atender, mas... Veja bem, eu estou ligando com a melhor das intenções, você sabe que eu não ligaria se não fosse por algo importante, né? ...Bom, você não vai responder que eu sei, mas eu sei que você está aí ouvindo tudo o que eu estou dizendo...
Ela se levantou, com os dedos esticados, para ir até a cozinha, onde pegaria um copo de água fresca e abriria a geladeira na saída, para olhar o que tinha dentro dela, como se isso fizesse parte de um ritual. Os pés se cruzavam a cada passo dado nas lajotas gélidas de inverno. Correu para a poltrona, com um biscoito amanteigado entre os dentes.
- Você não vai atender mesmo, né? Eu devia ter ouvido a Bonnie... devia mesmo. Tá, não era isso que eu queria te dizer mas, já que eu toquei nesse assunto, eu devo te contar sobre a Bonnie. Ela anda falando cada coisa, cada coisa mais horrível... Eu sei que a sua reputação não é das melhores, ela deixou isso bem claro, mas se ela continuar falando tudo o que ela diz ela também vai ser vista com maus olhos. Pode escrever que vai. Mas... e então? O que você tá fazendo que não pega nesse telefone? Ah, é o Gabu? Ele tá aí contigo?
Os farelos que rondavam a boca foram atirados para longe quando Natalie passou o dorso da mão pelo local, entediada. Tomou um gole de água antes de se esticar em direção a pequena mesa de centro, onde a embalagem de acetona estava. Bocejou ao desenroscar a tampa azul e, em seu lugar, encaixar uma bolinha de algodão colorido. Estava sozinha e sem paciência para o mundo, ainda que o máximo de perigo que esse oferecesse no instante fosse o monólogo de uma conhecida que parecia não ter o que fazer senão criar problemas em relacionamentos praticamente inexistentes.
Antes que pudesse ouvir mais da boca de Lee, apertou um botão qualquer do aparelho, o que fez com que a ligação fosse abortada. Assustou-se ao ver um vizinho, na janela de frente para a sua, e correu para fechar as cortinas. Tudo pareceu mais mórbido e perfeito. Passou a mão pelos cabelos bagunçados e mais uma vez se acomodou na velha poltrona.
- Gabu... - Natalie riu. Agitou o frasco de acetona e pegou o pedaço de algodão encharcado, aproximando-o do nariz. Repetiu o movimento incessantemente e não tardou a fechar os olhos, extasiada. Os telefonemas seguintes, que também não receberam atenção, foram ouvidos silenciosamente apenas por Bonnie que, após acordar e se perguntar onde estava, avistou uma roupa que não lhe parecia estranha na sala. Não entendeu o que fazia a camisa do namorado no corpo da amiga. E nem tentou achar explicação. Tirou o frasco de acetona do colo de Natalie e pôs-se a sentir seu aroma.
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