quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Impulso

Achei este fragmento escrito em três de março: "Não precisava saber dançar sem música, fazer do céu teu cenário, presentear-me com teu jardim. É sério, sou bem simples. Não fazia questão de mágica. Ficaria bem só com teu senso de humor, teu sorriso tímido e tua gargalhada histriônica". Num dia desses, fiquei impressionada com minha pressa, com o impulso de não só virar as páginas rapidamente com os dedos, mas fechar com um baque a capa do livro e colocar a palma da mão sobre ele, como quem zela por uma história já concluída.
Fui além disso, chegando a imaginar como seria a tal da pessoa ideal com quem se decide passar os dias e noites insones. O que, diga-se de passagem, foi um fracasso. Custei a perceber, mas mesmo nessa idéia está impressa a noção de decisão, de escolha, de delimitar e também de abdicar. Apostar em alguém, investir em uma relação. Já dizia uma amiga que amor é construção... para espanto do meu coração hollywoodiano, que insiste em desejar que tudo ocorra "espontaneamente". Como se a intenção invalidasse o sentido. Como se sentimentos surgissem descontextualizadamente. Pois é, minha inocência às vezes beira a tolice.
E o pior de tudo, talvez, tenha sido a teimosia em não perceber o óbvio: eu penso demais. E pensamentos são deuses infinitos, com seus poderes estrondosos e por vezes indelicados. Criei cenários, personagens, cenas românticas dignas de serem filmadas para depois serem lembradas por alguma garota bobinha feito eu. Mas não eram acontecimentos reais. E isso fez toda a diferença. Para ser bem sincera, não é uma tarefa difícil encontrar gente interessante. Pessoas que sustentem uma boa conversa por algum tempo ou que despertem curiosidade, risadas, alguma euforia momentânea.
Momentânea. Alguns minutos depois, seremos estranhos novamente. Sem elo. Sem a menor vontade de descobrir uma conexão. Esse parece ser o grande problema das buscas... de alguma forma, buscamos sempre o que é mais confortável encontrar. Mesmo quando se anuncia o desejo de ser surpreendido. Não basta qualquer surpresa, ela tem que se encaixar em alguns critérios. E, quando não o faz, é hora de ir pra casa - cada um para a sua.
Foi necessário pensar até aí para entender que o amor pode ser sim uma escolha. Deve ser, na verdade. Diária, eu diria. Não tem a ver com precisar, com dependência, mas com relação, com companhia. Desejo de estar junto... porque faz sentido, porque faz sentir bem, porque a troca faz valer a pena. Porque é possível pensar em várias e diferentes razões pelas quais pode se tornar importante compartilhar momentos com alguma estabilidade.
Estabilidade parece ser a palavra que mais se aproxima do mundo adulto. Associá-la com rotina pode manchá-la com o rótulo de entediante, o que disfarça as críticas de quem tem medo de intimidade. Mas percebo que, para mim, seu sentido implica segurança, o que de alguma forma me conforta. Soa atrativo quando considero a existência de uma parceria nessas condições... agora que eu já sei me cuidar, sobreviver às angústias do mundo. Agora que, ao ser realista, afirmo que uma separação pode ser difícil, deixar marcas dolorosas, mas não mata ninguém.
Dizer "tchau" é o outro polo da escolha, optar pelo "não" e arcar com as conseqüências de suspender o investimento, ficar um período sem saber onde depositar energia... o que geralmente repercute em uma mudança pessoal, em novos planos, até que um novo alguém desperte outras inspirações.
Talvez seja isso, talvez seja inspiração. Tenho sentido isso nos últimos dias. Desde que eu quase fechei um livro recém iniciado por impulso, com medo de me frustrar no decorrer de sua história. O que poderia ser apontado como um ato bastante egoísta da minha parte. Mas não vejo razão para acusações. Minha maneira de enxergar meus envolvimentos sofreu alterações, resultando em ressignificações de histórias que já passaram e intenção de escrever diferente essa nova história em desenvolvimento. Detesto a pieguice dessa metáfora e a forma como pareço ser a única responsável por conduzi-la, mas mencionei a noção de parceria anteriormente, o que me autoriza a acreditar que não passo uma imagem tão rígida quanto a que devo estar imaginando.
Estranho e irônico pensar que há praticamente seis meses eu conduzia melhor meu embaraço sentimental do que há algumas semanas.  Mas impulsos também têm sua função, criam movimentos que nos fazem repensar as intensidades das dificuldades e redescobrir tesouros esquecidos. 
Hoje eu diria: "Não precisa me fazer rir com ações cotidianas, me renomear a cada 'bom dia', adiar teu sono, dividir tua solitude comigo e incentivar que eu invista na minha. Não precisa, mas continua. Não lembrava, na verdade, de como é a mágica. Mas, é sério, a sensação é ótima. Me divirto com teu pessimismo ancião, teus absurdos e tua gargalhada histriônica. Nossas diferenças me fazem bem, me instigam. E confesso que já perdi a conta de quantos parênteses deixamos em aberto, de quantas conversas desenvolvemos sem que o tempo as esgotasse. Dá até vontade de estocar amendoim para assistirmos à grama crescer daquela varanda."

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quando dois não é par

Eu não te amo. E a recíproca é verdadeira. E isso não deveria ser um drama. Se tem algo que a passagem do tempo faz é limpar um pouco o romantismo das coisas. O cru é mais honesto. Já basta o esforço diário para desempenhar um papel razoável no trabalho, no grupo de amigos, no meio familiar. Voltar para casa, para o quarto silencioso, é protetivo. Para mim e para quem precisa conviver comigo. E creio que seja o mesmo para as outras pessoas. Depois da urgência típica da juventude, de quem parece sentir o futuro distante - como se nunca se concretizasse -, vem uma certa calma. Não chamaria de tranquilidade, mas de movimentos e intensidades atenuadas. A rotina estabelece tédio e segurança. Toca o despertador na segunda, na terça, já nem importa o dia. O conhecido é confortável, fácil de acomodar. Também desacomoda, quando o sono não vem ao deitar. Dormir parece ser um parâmetro adequado para avaliar o momento pessoal de cada um... Se o sono chega antes que o corpo possa se ajeitar na cama é um sinal de que temos tido pouco tempo para pensar, para ponderar sobre o ontem e o amanhã, que o impulso tem prevalecido. Quando o corpo nos permite pensar demais, sem que os olhos se fechem, indica que nossas nuvens insistem em chover no mesmo terreno exaustivamente, até a última gota, como se não soubessem viajar e encontrar terra seca. E tem aquelas noites em que dormimos sem realmente descansar. Estranhos tempos estes, em que sonhar virou tarefa para se fazer acordado, mas limitada aos intervalos de outras atividades.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Jantar

Eu gosto da tua família aos teus olhos. Gosto de me imaginar na mesa, como se fosse uma mosca que pousa na salada de batatas, quase invisível aos debatedores que insistem em fazer uma retrospectiva dos sucessos alcançados nos últimos meses. Gosto das disputas, das palavras ousadas. Gosto da força e da espontaneidade com que as verdades aparecem. Não sei se todas, mas algumas - as que parecem importar e dar forma ao conteúdo emaranhado. Estranho, mas o meu emaranhado não te assusta. A minha bagunça não te desorganiza. Mas tua bagunça desperta algo ruim em mim, o qual eu gostaria de poder evitar. Mas algumas palavras não podem ser adiadas. Imaginei os vários nãos que tu dirás aos teus filhos. Daqueles nãos firmes, mas ao mesmo tempo reconfortantes, como se guardassem um lugar seguro. Quando muito é permissivo, a gente se sente perdido. Poder escolher compreende, antes de qualquer coisa, delimitar. Dar nãos. Mas, mesmo buscando contrariada os teus nãos, tu me ofereces talvez e alguns porquês. Não gosto de cobranças, gosto de conversas. Nossas conversas estão entre minhas favoritas, justamente por permitirem voltas e mais voltas, mas partindo de um ponto e necessariamente terminando em outro. São sucessões de novidades, apesar de muito falarmos do cotidiano, que passa batido para muitas pessoas. Me apaixono por determinação, intensidade, impulso. Me apaixono por quem sabe escutar e acolher, sobretudo por quem não muda sua opinião e ainda assim consegue respeitar e valorizar outros modos de pensar. Me apaixonei por tua família ser tão defeituosa. Por teus amigos serem tão fracos, apesar de divertidos e companheiros. É gostando desse gradiente que me aproximo da tua história. Talvez da nossa história. Não sei quando algo pode vir a ser ou deixar de ser nosso, representar um "nós". E não tenho pressa em saber. Tampouco os debatedores da hora da janta, presos em suas falas enérgicas e agarradas ao passado. Será que já passamos e nem vi? Acho que não. Espero que não. Espero teu não para que eu possa dizer meu sim. 

sábado, 26 de dezembro de 2015

Carta ao amigo ingênuo

Eu sinto que, saindo da minha boca (ou das minhas mãos), essas palavras podem não receber a devida importância, mas vou dizê-las mesmo assim. Eu sei que, apesar de contrariado, você está sendo ingênuo. Seus amigos te mostram isso. Mas, fique calmo, a ingenuidade não faz de ti um tolo. Eu entendo que você queira oferecer votos de confiança, que são essas apostas na sinceridade que movem suas escolhas pessoais e até mesmo profissionais. E que tudo pareceria sem sentido se, de repente, você se desse conta de que a sinceridade nem sempre é um objetivo comum. A comunicação nem sempre é um objetivo comum. Dar certo, seja lá o que isso quer dizer, nem sempre é um objetivo comum. Imagino que, para chegar ao ponto de pedir socorro, você tenha percebido que já não cabe em si, que o desespero é tanto que precisa ser esculpido a partir de longas conversas até virar um texto bonito ou, ao menos, um discurso claro (e nem por isso menos cinzento). Um discurso sincero. Não fica chateado comigo, mas não é raro nossa maior qualidade ter um lado-defeito e um lado-perfeição. E a dificuldade em ser ingênuo é justamente continuar sendo ingênuo, apesar dos tropeços nas mentiras que estão por aí. A beleza da pureza, da inocência, é a mais difícil de ser preservada, a primeira a ser invadida e alvo de palavras pontiagudas. Você vai precisar de maturidade para lidar com isso e não perder essa sua grande qualidade. Não minto quando afirmo que valorizo a ingenuidade. De pessoas amargas o mundo está cheio. E pessoas que se consideram "realistas" tendem a ser pouco otimistas ou até cruéis, como se fossem donas da verdade, de uma verdade sem potencial de transformação. Ingênuos, como você, dificilmente sabem de alguma coisa. São uns perdidos, uns sonhadores e, por vezes, parecem viver na indecisão dos "talvez", dos "e se" e levam um tempo a mais para formular afirmações. Vivem de hipóteses, inspiram idéias, expiram dúvidas. O motivo para tanta busca é que elas estão muito mais interessadas em olhar para os outros, tentar entendê-los, decifrar novos mundos... Sim, o preço você já sabe: ao sair para explorar outros universos, a porta do seu ficou aberta - sabe-se lá quem entrou, a bagunça que fez, o estrago que ficou e o tesouro que foi levado. Sabe-se lá! Mas ambos sabemos que fechar a porta só fará com que você se guarde num quarto vazio, sem vento, sem música. Lembra da redoma de vidro? Manter-se fechado, por mais que as paredes sejam transparentes e possamos observar o que se passa lá fora, é um meio de não se deixar crescer. E nós todos já passamos dessa fase ao enfrentar nossos medos antigos. Mas, por favor, não se torne indiferente. Esse é meu apelo! Não permita que o machucado se espalhe, que a ferida tome conta do seu corpo e te paralise. É somente quando conseguimos nos aproximar dos outros que experimentamos o conforto do calor do abraço, a umidade morna dos beijos, a delícia dos afetos. Você vai precisar continuar saindo ao sol, mesmo que eventualmente seja surpreendido por uma chuva congelante. Faça isso por mim e pelas pessoas ao seu redor. É inspirador! Como eu disse, não precisamos de mais vozes para constatar o que não vai bem, o que não funcionou e o que ainda pode dar errado. Para brindar os fracassos, já temos várias taças rachadas. Mas precisamos de novidade. E, eu sei que você sabe, você está sendo ingênuo agora. Talvez até mesmo tolo! Mas nenhum de nós iria tão longe para ousar descobrir a seqüência dessa história. Eu disse que ninguém além de você se permitiria desprender-se, abrir mão de ser o autor do próprio roteiro. Provavelmente já teríamos escrito o capítulo final há algumas páginas, resignados com nossas decepções precoces. Parece mais lógico encerrar tudo logo, elencar algumas frustrações como um limite, uma forma de prevenir danos piores. Mas, por ingenuidade, o livro ainda não está completo. Por favor, continue a história.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Satellite of Love

Sem saber o quanto faria sentido para mim, uma pessoa querida me mostrou uma poesia de sua autoria em que identifica um relacionamento amoroso como um “compromisso com a ilusão”. Achei essa expressão ao mesmo tempo linda e assustadora, perfeita para pensar sobre uma situação que estou vivenciando, que parece mais intensa em função de estar presa no plano das idéias, do imaginário. Será que é perceptível minha confusão? É tão difícil não saber se o que eu penso corresponde à realidade. Tenho tantas idéias que, seja qual for a mais plausível, não deve se parecer com a verdade. E tenho me questionado muito sobre a influência disso no que eu sinto. Eu amo uma pessoa? Uma idealização de pessoa? Amo como ela faz eu me sentir? O que interfere nesse sentimento? Nunca pensei de forma determinista e inflexível sobre relacionamentos. Cada pessoa é um planeta singular, cada interação representa um universo. Lembro de ainda bastante jovem, de forma um tanto dramática, me questionar se eu deveria desinvestir de uma possibilidade de relacionamento em função de um envolvimento temporário da pessoa por quem eu nutria expectativas com outra. É necessário e obrigatório “desistir”? Me questiono o mesmo novamente, mas agora contrariada de tal forma que começo a pensar que sou surpreendente mesmo para mim. O “compromisso com a ilusão” tem a ver com construir algo de forma conjunta, expectativas e planos a dois (ou a três, quatro... depende da concepção de família e de até onde chega esse compromisso). E, mais do que sonhar junto, é se enganar junto. Enfrentar os problemas, mas também deixar de percebê-los em alguns momentos. A completa transparência pode ser mortal, bem como a cegueira do escuro. A luz é o que possibilita os nuances, os sabores, as aproximações, os encontros e desencontros. É a luz quem possibilita a dança dos afetos, do fascínio e da frustração. Mas tudo isso se torna imperativo, pois é necessário se comprometer com um ideal de felicidade, amor, interação, envolvimento. Eu não sei o que de fato está acontecendo. Mas, na verdade, a gente nunca sabe. Nunca tem certeza. E, se for pra viver se corroendo por dúvidas, questiono por quanto tempo é possível essa existência. Não consigo identificar o momento em que a curiosidade ganhou status de desconfiança. Logo eu, que sempre confiei no que me diziam, me vejo agoniada e ao mesmo tempo decepcionada por depender de respostas que não são minhas. Não gosto dessa sensação, mas não vejo saída. E parece irreversível, o que só piora meu medo. Então, dependendo do que eu descobrir, devo alimentar mais ou menos os meus afetos? Eu posso controlar isso? Deveria poder fazê-lo? Só gostaria que fosse possível retornar ao ponto em que as dúvidas eram vagas e não incomodavam, eram apenas afirmações sobre um planeta que não é o meu. Estranho estar tão apaixonada por um universo, independente de quem seja realmente seus planetas.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

mimimi.doc

Não lembro de ter me sentido tão ansiosa antes em função de algo que não fosse relacionado a doenças ou mesmo dramas da profissão. Eu sou alguém que facilmente cria expectativas (talvez muitas bastante distantes de serem proporcionais à realidade), imagino que isso não seja novidade. Mas a maneira como venho me sentido não é familiar. Ando pensando em várias situações passadas, tentando avaliar como eu era em diferentes épocas, as mudanças, essas coisas... Só consigo chegar à conclusão de que algumas das pessoas com quem me envolvi já cumpriram suas importantes funções na minha vida e se encaminharam para destinos diferentes. Espero, sinceramente, que se sintam bem. E gostaria de me desculpar por acreditar que eu realmente gostei de cada uma delas por sua singularidade. Não é de todo mentira, mas eu costumava criticar os relacionamentos em que um da dupla poderia ser substituído, quase que brindando um excesso de excentricidade... e hoje me dei conta do quanto errei em função de buscar ser original. Eu era espontânea, mas namorei pessoas substituíveis. E poderia ter sido alguém melhor se não me importasse tanto com me tornar memorável. Convenhamos, já vivia em mim muito drama e medo. Sempre me identifiquei com essas meninas tristes que assistem os outros serem felizes. Que ficam verdadeiramente alegres pelos outros, mas sentem que não encontraram seu lugar no mundo e esse mimimi. Que ficam pra tia. Mas eu sou filha única e nem isso pareceu ser uma opção plausível. Acho que por muito tempo me poupei da solidão estando acompanhada por pessoas que, em sua maioria, foram bacanas e me ajudaram a me descobrir internamente, ainda que isso não fosse uma tarefa tão tranquila. Mas eu buscava relacionamentos, precisava estar com alguém do lado. Fico me perguntando o quanto estou diferente, se estou me enganando ao pensar que tenho agido de outra maneira nesse momento. Mas foi só me imaginar de novo em um desses namoros mornos que a vontade de ocupar esse papel passou. Eu não quero mais viver isso. Não quero apresentar para familiares e amigos alguém transitório, que ficará por algumas semanas até que a paixão desapareça. Preciso que faça sentido para mim, não para os outros. Preciso que essa pessoa me conquiste. E queira ficar. Percebo que eu facilitava muito as coisas para que ficassem perto de mim. Não me considero alguém de difícil convívio. Me adapto bem. Mas conquistar não tem tanta graça se o objetivo se perde. Não preciso de alguém substituível ou de uma pessoa em determinada função. Quero que seja-quem-for abra espaço, me visite e encontre em mim um lugar seu. Sem que eu tenha controle sobre isso. Por favor, não me deixe poder controlar nada disso! Eu vou estragar. Quero que me bagunce em nome de algo maior, que faça valer cada sentimento, cada nuance de emoção. Quero sentir! É só o que sei. Quero a certeza de que é válido me expor, abrir as janelas, confiar. Cansei de correr, de fugir de mim, de sair do lugar. Meu lugar sou eu mesma, seja aonde eu for. É tudo o que eu tenho, é quem eu sou. Não quero me buscar em outras pessoas, quero ser encontrada. E, apesar da ansiedade ser uma manifestação de um pensamento situado no futuro, nunca me fiz tão presente quanto hoje, quanto agora, quanto a cada segundo. Nunca fui tão eu. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sobre fases

Penso que dividir a própria vida em "fases", algumas bastante subjetivas e singulares e outras mais coletivas, faz parte de afirmar pra si mesmo que está evoluindo ou, ao menos, saindo do lugar. Não consigo perceber como isso poderia deixar de acontecer na sociedade atual. Se aproxima muito do efeito "ano novo", com promessas e expectativas. Essas datas comemorativas e alguns ritos de passagem, em geral, me causam desconforto. Não exatamente por não ver neles sentido e/ou não me encaixar. Talvez seja exatamente por isso, na verdade. Mas me incomoda a constante reprodução de coisas sem qualquer reflexão sobre o assunto. Comecei a escrever achando que seguiria uma direção mas, para variar, me perdi. Acho que eu mesma fiz muitas dessas "agora não sou mais daquele jeito tal, sou desse". Se eu ignorar a vergonha e não tiver nada melhor pra fazer, encontraria vários desses momentos registrados nesse blog. E, nas últimas semanas, esbocei bastante dessas experimentações. Tirei o último dos sisos. Em teoria, estou crescida e não deveriam me perguntar mais o que eu quero ser quando crescer, o que é muito triste. Como se a gente crescesse e deixasse de desejar ser alguém especificamente. Mas concordo com o comentário sobre borrar as barreiras, considerando que (pelo menos algumas) fases não existem. Adultez é uma farsa. Lembro de ter escrito uma vez que a única diferença é que os ditos mais velhos ou mais experientes negavam seus medos. Mas, enfim, a idéia de construções coletivas de expectativas para as tais fases é sempre perturbadora. Eu finalmente parei de roer unhas. O que não deixa de representar uma vitória, mas lá se foi uma parte de mim. Isso não me torna necessariamente mais apta, mais adulta, mais alguma coisa melhor. Mas sei que é encarado dessa forma por pessoas conhecidas. E as desconhecidas nem imaginam, o que me faz sentir como se eu fosse uma "enganadora". Mesmo com essas informações bobas. Mesmo sabendo que todos têm suas esquisitices. Acho que essa postura meio paranoica é emblemática na sociedade, esse prestar contas a todo mundo desesperadamente. Eu tento fugir disso, mas é quase como se fazer isso fosse causar uma impressão específica intencionalmente. Ou seja, não há saída. Eu não a conheço ao menos. E espero que nunca me torne alguém cheia de poréns e nuncas e do tipo que se sente muito velho ou sério ou sei lá para experimentar algo novo. Mencionei anteriormente essa representação de "iluminação" que algumas obras de ficção utilizam para falar das fases, especificamente sobre quando se "amadurece" (aliás, tem termo mais mesquinha do que esse?). Especificamente sobre quando se sai da fase adolescente e talvez até jovem para se tornar, enfim, um adulto. Um deles. Ou um adulto jovem, para não desperdiçar a beleza da juventude. Eu sempre fui perdidamente apaixonada pela adolescência, pelo confronto da inocência com as crises e as distorções e as verdades e todos esses conflitos emocionais característicos, movidos por discursos ideológicos e carregados de paixão. Ou apenas as revoltas e inquietações. Não fui porra louca, mas não abandonei grande parte dessas características. Acho que por isso gosto tanto de ler Salinger, aquele velho atemporal.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

sereia

faz tempo que não sei quem sou. esqueci de mim. apertei as narinas para dar um mergulho, mas não retornei à superfície. fiquei imersa na imensidão, no caos, na suavidade que amedronta. esqueci do mundo. e voltei sem entender ao certo quanto tempo tinha passado. às vezes, isso ainda acontece silenciosamente. sempre que eu retorno de um mergulho profundo, não reconheço meus dedos nem os fios de cabelos boiando ao meu redor. é como se eu sempre voltasse diferente. e dessa vez não tem sido uma exceção. não sei quem está ao meu lado. nunca soube. em nenhuma das vezes, tive certeza. certezas e pessoas não combinam, não formam um par. e o que mais me assusta é perceber que eu não me conheço suficientemente bem para entender todas as minhas motivações e justificativas. existe intenção, vontade, chuva de emoções. existe verdade, razão e sentimentos. existe o mar e todo o mistério que o envolve. tudo existe. não há o que não tenha sido inventado. me reinvento toda semana, toda quinta-feira, toda vez que encho a caneca de sucrilhos, toda vez que percebo meu rosto no espelho. e, cada vez que eu retorno e as dúvidas parecem ter se multiplicado, é inevitável me afogar. nem sempre o pé alcança o chão. nem sempre existe fundo.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sobre nó(s) e nós

Ontem eu fiquei construindo mentalmente um texto no qual eu estaria me dirigindo a um senhor desconhecido que uma vez encontrei numa calçada, precisando de ajuda para se orientar na rua. A cena em que ajudei esse idoso aconteceu há alguns anos, mas me marcou profundamente. Ele estava perplexo, tinha acabado de se dar conta de que um lugar que adorava e que frequentava no passado tinha se transformado em um estacionamento privado. Então, me contou sobre isso e mais alguns fatos aleatórios que, honestamente, nem lembro. E no final de tudo, sem me fazer perguntas, me desejou muitas coisas bonitas, que soaram como palavras de um familiar muito querido. Em resumo, esperava que eu encontrasse alguém que me fizesse bem e que me tratasse com respeito, que fizesse parte da construção da minha felicidade.
E, nesse instante, logo após uma situação específica extremamente difícil de ser compreendida por mim, me peguei pensando sobre o quanto acho injusto generalizações, sobretudo quando buscam retratar o convívio familiar. É absurdo perceber que um estranho se dirige a mim com mais dignidade do que alguém que, em teoria, deveria ser muito mais próximo e acolhedor. Atualmente, se debate bastante sobre o quanto recursos tecnológicos são capazes de aproximar e/ou afastar as pessoas, favorecendo a comunicação, mas nem sempre qualificando o modo como se dão os relacionamentos, que ocasionalmente ocorrem de forma mais superficial. Pensando nisso, busco entender que outros fatores interferem na maneira como os vínculos pessoais se estabelecem e, por que não?, se estragam. Na situação experienciada, a troca de mensagens por celular é o único canal de comunicação que parece minimamente aceitável. Frases curtas, por vezes objetivas (mas também aparecem rodeios!), impossíveis de serem interrompidas e que, na maior parte dos casos, demandam respostas. Qualquer tentativa de diálogo em formato diferente do mencionado parece ser um ímã para o caos. Minha esperança de ainda conseguir qualquer sucesso nesse sentido é uma prova da minha ingenuidade.
Eu gostaria que fosse mais simples e possível poder transmitir informações, ideias, sem tornar essa tarefa algo estressante. Que a preocupação fosse demonstrada com aparência de preocupação e não como uma ameaça, uma punição ou um apelo desesperado. Que dúvidas e incômodos pudessem ser compartilhados, a fim de serem transformados, ao invés de ficarem restritos ao universo individual, se cristalizando e evoluindo para certezas. Que apoio fosse uma palavra com algum significado, mais amplo do que estímulo e mais afetivo do que uma crença no sucesso que não suporta outro desfecho.
Sinto falta de ser incentivada a ser feliz segundo o meu desejo, segundo os meus padrões, como se estivesse condenada ao julgamento daqueles que sabem o que é o melhor para mim. Faz parte do crescimento cair e levantar-se, embora isso soe caótico a alguns ouvidos. Poderia afirmar que uma grande dificuldade presente no contexto familiar é a falta de confiança uns nos outros, desde a relação conjugal até a maneira como se estabelece o laço entre pais e filhos. Mas estaria mais uma vez cometendo o pecado da generalização, na tentativa de tornar abrangente uma questão que, nesse momento, não é de mais ninguém além de mim.
Se eu encontrasse hoje o senhor que eu mencionei, eu diria a ele - entre lágrimas felizes - que eu encontrei uma pessoa que carrega as características que se encaixam no perfil que ele desejou para mim (e no que eu desejei para mim!). Mas que, infelizmente, minha família não merece desfrutar disso. Não merece supor que faz parte dessa história. Não merece acessar o que se passa no meu coração e nos meus pensamentos.



sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sobre (rein)ventar-se

Ouvi dizer que nenhum vento sopra a favor de quem não sabe aonde ir. Faz sentido. "So don't complicate it by hesitating" diz a música, como que dando um basta em toda essa cadeia de pensamentos e ansiedades que rodeiam o desconhecido. Como se fosse simples. Mas às vezes é. Esse não é mais um discurso sobre espontaneidade... se parece mais com um estímulo à ousadia, ao novo. Tenho recordado várias frases de efeito que se popularizaram e foram reescritas, moldando-se a novos contextos. Nunca fez tanto sentido pensar em "seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo". A gente precisa se reinventar. O vento vai, o vento volta... traz um pedaço de alguém, nos aproxima, nos afasta, nos esquece, nos esfarela... Mas o vento não tem intenção, não tem desejo, não tem nada além de força e delicadeza. Vento é só tato, é só sensação. Não é ele que de fato determina aonde vamos. "I do believe if you don't like things you live for some place you've never gone before"... Acho que ultimamente tenho optado por escolhas menos óbvias e mais incertas, talvez até numa tentativa desesperada de não precisar lidar com tudo, com todo o fardo da razão. Talvez pareça inteligente admitir que não se tem controle sobre as circunstâncias. "Fuck this shit". Quem só olha pra trás, não vai pra frente. E o futuro é feito mais de imaginação do que de qualquer outra coisa. Eu não sou o tipo de pessoa supercentrada em viver o presente, que pouco se preocupa com o que virá, o que será, o que eu serei. Não sou um bom exemplo. Mas me parece razoável fazer o que é necessário e o que é prazeroso no momento, mesmo que mude, que o efeito seja passageiro. Mesmo que seja confuso. Sinto que eu sempre evitei a confusão, como se não houvesse beleza no caos e na bagunça. As pessoas são bagunçadas. Eu sou bagunçada. "Se ela te fala assim, com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. Se ela te fosse direta, você a rejeitaria". Hoje acordei musical. E música nada mais é do que emoções ventilando, seja harmoniosamente ou de forma violenta.






"Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais?
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei mais"

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Mesmo que mude

"Ele vai mudar,
Escolher um jeito novo de dizer 'alô'
Vai ter medo de que um dia ela vá mudar
Que aprenda a esquecer sua velha paixão
Mas evita ir até o telefone
Para conversar
Pois é muito tarde pra ligar
Tem pensado nela
Estava com saudade
Mesmo sem ter esquecido que
É sempre amor, mesmo que acabe
Com ele aonde quer que esteja
É sempre amor, mesmo que mude
É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou"


Eu achei que já tivesse escutado demais essa música para gostar de ouvir de novo, mas hoje fez um certo sentido. Sei lá, essa semana foi estranha. Odeio quando coisas que pra mim são invernais ocorrem no verão. E vice-versa. E acho que nunca vou me acostumar a ignorar determinadas notícias e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Nas últimas semanas elas têm chegado aos montes. Mas tudo bem.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Welcome home

Sleep don't visit, so I choke on sun
And the days blur into one

And the backs of my eyes hum with things I've never done



Sheets are swaying from an old clothesline

Like a row of captured ghosts over old dead grass

Was never much but we made the most

Welcome home



Ships are launching from my chest

Some have names but most do not

If you find one, please let me know what piece I've lost



Heal the scars from off my back

I don't need them anymore

You can throw them out or keep them in your mason jars

I've come home



All my nightmares escaped my head

Bar the door, please don't let them in

You were never supposed to leave

Now my head's splitting at the seams

And I don't know if I can



Here, beneath my lungs, I feel your thumbs press into my skin again


.Radical Face.


 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

It's nothing but time and a face that you lose


When there is nothing left to burn,
You have to set yourself on fire


God, that was strange to see you again,
Introduced by a friend of a friend,
Smiled and said 'yes I think we've met before'
In that instant it started to pour,
Captured a taxi despite all the rain,
We drove in silence across Pont Champlain
And all of the time you thought I was sad
I was trying to remember your name...

This scar is a fleck on my porcelain skin,
Tried to reach deep but you couldn't get in.
Now you're outside me,
You see all the beauty
Repent all your sin...

It's nothing but time and a face that you lose,
I chose to feel it and you couldn't chose.
I'll write you a postcard,
I'll send you the news
From a house down the road from real love...

Live through this, and you won't look back...
Live through this, and you won't look back...
Live through this, and you won't look back...

There's one thing I want to say, so I'll be brave...
You were what I wanted,
I gave what I gave.
I'm not sorry I met you.
I'm not sorry it's over.
I'm not sorry there's nothing to say.
I'm not sorry there's nothing to save!

______________________________________________

[ Your ex-lover is dead - Stars ]

Sobre amor em tempos de avião

Sou do tempo em que o príncipe encantado era aquele que lutaria bravamente pela princesa - ou, pelo menos, sofreria muito com a dor de sua perda. Digno de um final estilo Romeu e Julieta. Quando eu falo em sofrer, quero dizer arrancar os cabelos, chorar soluçando com o rosto vermelho e todas esses gestos dramáticos de quem só consegue expressar o desespero em ações, ainda que pareçam limitadas. O sentimento é tanto que não há espaço para razão, para palavra ou frase. E a recíproca seria verdadeira. Oh, o drama da distância, da saudade, dos empecilhos...
Por mais que a tecnologia tenha melhorado muito os meios de comunicação, eu continuo com um resquício desse velho modo de pensar. Que lindo seria acordar com pedrinhas batendo no vidro da janela. Sei lá, eu não estou falando de flores nem nenhuma declaração necessariamente formal de amor. Mas acho interessante pensar nesse modo "antigo" e mais lento de viver intensamente os relacionamentos. Eu penso que de nada adianta se revestir de armaduras - válido é viver, com todas as qualidades possíveis (e indesejáveis também). Se não der certo, paciência. Mas... antes do "paciência", deve existir a crise. A crise é essencial para a formação da identidade de qualquer um - mesmo que isso não apareça em nenhum livro de auto-ajuda. A graça de tudo é o barulho. Relacionamento sem barulho não existe - onde está o resultado da interação?
Fico pensando que hoje em dia qualquer distanciamento é muito mais acessível - apesar de parecer cada vez menos desejável. É só pegar um avião. Mas e o resto? O que fica? O que vai? Por um lado, penso que devemos fazer escolhas sem deixar que certas questões interfiram na decisão. Mas não sei até que ponto essa frieza é sincera ou mesmo benéfica. As vontades de ir e ficar podem coexistir, é claro, mas acredito que - mesmo que inconscientemente - esse período entre uma coisa e outra compreende o desejo de sentir que fará falta. Você vai por querer conhecer o novo, por querer pertencer a um novo espaço. Mas, para isso, como um conforto ou pura segurança, é desejável que uma parte fique - nem que seja um pedacinho - para manter viva naquele local a presença ou a lembrança de alguém que, sim, é importante.
Por mais piegas que isso seja, eu costumo achar compreensível aquelas cenas de filmes e afins em que alguém vai correndo até o aeroporto impedir alguém de embarcar. Ok, geralmente a pessoa decide isso minutos antes do horário do vôo, mas faz parte do suspense amoroso. Não lembro de ter feito nada parecido e nem lembro de nenhum caso com um conhecido. Mas gostaria que isso fosse mais comum. Que essa impulsividade, esse desespero, fosse mais expresso. Não que as pessoas não possam ir... Elas podem. Elas devem. Mas o barulho deve existir. Quantos relacionamentos não terminam por causa de uma viagem? Claro que eu entendo a realidade, os motivos e todas as conseqüências que as novidades podem trazer, mas questiono até que ponto se deve assistir a tudo isso. De mãos no bolso. Assim.
Talvez o que eu esteja tentando dizer seja simplesmente aquela velha história de dizer coisas reais e bonitas a pessoas queridas em tempo de ser ouvido. Mas eu gosto de pensar que é mais do que isso. Porque dizer já se trata de um segundo passo, em que a pessoa já está consciente de seus desejos e suas necessidades, e expressa isso em forma de ação. O primeiro passo é sentir. Sentir, morrer, se descabelar, chorar, ter pensamentos absurdos e catastróficos. Absorver sem utilizar o filtro da racionalidade. Voltar ao zero, sentir-se sozinho no escuro. Acho que todo mundo deveria se sentir assim um dia para, então, experimentar o amor.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fuck this shit.

"Acabei me sentando num banco, num canto um pouquinho menos escuro. Puxa, ainda estava tiritando como um filho da mãe e na parte de trás da cabeça, apesar de eu estar de chapéu, tinha uma porção de pedacinhos de gelo. Isso me preocupou. Achei que provavelmente ia apanhar uma pneumonia e morrer. Fiquei imaginando milhões de chatos indo ao meu enterro e tudo.  Meu avô de Detroit, aquele que fica lendo alto o nome das ruas quando a gente anda numa porcaria dum ônibus com ele, e minhas tias - tenho umas cinqüenta tias - e todos os nojentos dos meus primos. A tropa toda ia estar lá. Estavam todos lá quando o Allie morreu, a cambada toda de imbecis.  Tenho uma  tia imbecil, que tem mau hálito, que não parava de repetir que ele estava tão sereno no caixão. O D.B. é que me contou, eu não fui lá. Ainda estava no hospital. Tive que ir para o hospital e tudo quando machuquei minha mão. Seja como for, fiquei com medo de apanhar uma pneumonia e morrer, por causa daqueles flocos de gelo no cabelo. Me deu uma pena danada do meu pai e da minha mãe. Especialmente da minha mãe, porque ela ainda não se conformou com a morte do Allie. Ela não ia saber o que fazer com todos os meus ternos e equipamentos esportivos e tudo.  Só tinha uma coisa boa, era saber que ela não ia deixar a Phoebe assistir à droga do meu enterro porque é muito criança.  Essa era a única coisa boa. Aí pensei na cambada toda me metendo numa droga de cemitério, com meu nome num túmulo e tudo.  Cercado de gente morta.  Puxa, depois que a gente morre, eles fazem o diabo com a gente.  Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz idéia de me atirar num rio ou coisa parecida.  Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente vindo todo domingo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto?  Ninguém.
 

Quando faz bom tempo, meus pais vão freqüentemente ao cemitério e espetam um punhado de flores no túmulo do Allie. Fui com eles umas duas vezes, mas aí parei. Em primeiro lugar, não tenho o menor prazer em ver o Allie naquele cemitério maluco. Todo cercado de caras mortos e túmulos e tudo. Não é tão ruim quando faz sol, mas duas vezes - duas vezes - estávamos lá dentro quando começou a chover. Foi horroroso. Choveu na porcaria do túmulo dele, e choveu na grama em cima da barriga dele. Chovia por todo lado. O pessoal todo que estava de visita saiu correndo para os carros. Foi isso que me deixou doido. Todo mundo podia correr para dentro dos carros, ligar o rádio e tudo e ir jantar em algum lugar bacana - todo mundo menos o Allie. Não agüento um troço desses. Eu sei que é só o corpo dele e tudo que está no cemitério, que a alma está no céu e essa merda toda, mas assim mesmo não podia agüentar aquilo. Só queria que ele não estivesse lá. Quem conheceu o Allie entende o que estou querendo dizer. Não é tão mau assim quando tem sol, mas o sol só aparece quando cisma de aparecer."


J.D. Salinger


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

One more night

so good when it ends, they'll never be friends
one more night, that's all they can spend

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Fairy Tale

Little lady, your tale has an end
For your love to the skies was sent
He's turned into sparks
That shine with the stars...

...And, by night, he will always be there

For his lady to stare
And thus he's never died.


.
Essa música é uma das minhas favoritas no mundo.
Quis escrever mais, mas hoje é um daqueles dias em que nenhuma palavra traduz o que se passa internamente.



quinta-feira, 21 de julho de 2011

Sobre perdão em tempos de morte

É meio estranho estar entre a idéia do "aproveite cada dia como se fosse o último" e a situação de ver os dias serem muito parecidos, mesmo quando existem surpresas (que nem sempre são boas). O hospital mexeu muito com a minha cabeça, isso é fato. Ontem eu saí dali, fui para um pub encontrar pessoas queridas e, por acaso, encontrei uma ex-colega de escola. E foi algo legal e super espontâneo e eu fiquei feliz. Eu fico fascinada com esse poder de pequenos momentos ou algumas palavras mudarem completamente o clima do dia. Enfim, realmente me emocionei. Foi tão inesperado! E, num horário qualquer, eu peguei um ônibus e o "poema" na janela mais próxima de mim se dirigia a algum passageiro em pé. O autor desejava que esse passageiro lesse o poema com uma gota de chuva escorrendo pelo vidro. Isso foi ontem. Hoje eu peguei mil ônibus, alguns lotados, e a chuva forte foi uma constante. E eu olhei para aqueles vidros embaçados cobertos de gotinhas de água e calor humano e tal e realmente fiquei emburrada quando lembrei do poema. É incrível como uma coisa pode ser linda num dia e péssima no outro. Pelo menos pra mim. Pelo menos às vezes. E nesses tempos de repensar a importância das pessoas, reesquematizar a vida em alguns aspectos, fiquei atenta a algumas palavras adultas. Viva o perdão, esqueça a raiva, a mágoa, o não sei que lá. Eu não sei até que ponto essas idéias limpas podem ser colocadas em prática. Eu sou a favor daquela sinceridade suja, de se descabelar por alguma coisa por sentir necessidade. Mesmo que depois se perceba que a situação não merecia tanto. Acho importante o momento presente, os impulsos, a confusão toda. Tudo bem, eu costumo agir como a Sra. Pretérito, mas realmente dou mais valor ao momento da ação, ao choque, enfim. Então, eu me sinto meio desafiada (e porque não 'ofendida'?) com essa história de perdoar, passar a limpo, etc. Não que eu viva em profundo caos e discórdia, hahaha. Tem uma frase de uma música que eu gosto que diz "Deixe de lado os compromissos marcados, perdoa o que puder ser perdoado, esquece o que não tiver perdão e vamos voltar àquele lugar...", e eu realmente consigo adorar isso, mas não é algo que habita a minha cabeça. Eu realmente acho que a base disso vem da idéia de que no fim, quando morrem, todas as pessoas são boazinhas. Não falo em céu, mas em fatos. Até o maníaco do parque de não sei onde tem família, sei lá. E eu acho que faz parte do mundo existir um equilíbrio. Se tudo for perdoado, vira uma bagunça. Eu sei que o propósito da coisa não é bem esse, não se volta tanto para a pessoa que fez algo errado mas sim para a vítima da história não guardar rancor e sentimentos que possam ser nocivos a ela. Blablablá. Tudo isso para dizer que, mesmo perto ou não da morte, consegui me manter razoavelmente neutra quanto a esse posicionamento. Perdoa-se o que é possível e fim de papo. Me incomoda muito essa pressão para que todas as pessoas sejam Bons Samaritanos e cultivem os mesmo valores e usem coroas de flores na cabeça (na verdade, as flores eu aprovo). Se alguém me conhece bem o bastante pessoalmente, sabe que é nesse momento que eu começo a delirar e dizer coisas do tipo "os chineses são os melhores", "as mulheres têm o direito de não terem filhos", enfim. Adoro me incomodar com certas imposições sociais. Desde colocar ou não os cotovelos na mesa até adotar uma postura ou outra diante de um filho homossexual. Andei vendo tanta porcaria na televisão que me revoltei internamente. É incrível como o mundo quer que as mulheres se sintam gordas. Parei por aqui porque, como viram, perdi o fio da miada. Beijos a todos!



quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sobre certas músicas e seus ouvintes.

Eu fico meio angustiada quando vejo alguém curtindo muito uma música porque a considera romântica, sendo que a letra não faz sentido nenhum e/ou é total não-romântica. Tinha um amigo que implorava para que ninguém contasse a história de alguma música ou traduzisse alguma coisa da letra (é, ele realmente não era bom em inglês). Eu entendo ele, porque eu mesma me deprimo quando não gosto da letra ou percebo que, aos meus ouvidos, a mensagem destoa da melodia. E isso se torna bem comum à medida que novelinhas tipo Malhação ganham trilha sonora de Silverchair. Enfim. Isso não era para ser um texto nem algo muito emocionante, só um desabafo. Eu cheguei em casa e estava tocando "Last Kiss" (Pearl Jam) e isso me deixou um tanto deprimida. Sei lá, em férias invernais, um pouco de depressão cai bem. Mesmo que dessa vez não tenha sido nada muito espontâneo ou passageiro. Por sinal, hoje foi um dia de calor. Nada típico. E não é que eu pense que as músicas devam ser todas iguais e previsíveis e que todos os sentimentos devam ser demonstrados da mesma maneira, mas é que realmente me angustia como em um mesmo lugar as pessoas podem alcançar extremos de felicidade, dor e todas as coisas humanas.

PS: acho que é hora de reler de novo (de novo, de novo, de novo) o Apanhador.


(Merlin e Vivian)
(?)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Chá das cinco.

Virei o chá quente na mão, nas pernas, nos pés. O suspiro foi exagerado, proporcional à sensibilidade do meu dedo. Tá doendo até agora. Eu olhei pro lado e vi ele me olhando daquele jeito imparcialmente neutro, do tipo que até sente pena, mas não o bastante para dar um abraço - o suficiente para pensar "você vai ter que aprender a lidar com isso" (eu diria "com a dor", mas percebo agora o quanto essa diferença na escrita modificaria intencionalmente o significado...). A queimadura me serviu de motivo para poder suspirar, reclamar em voz alta, já que os outros problemas me exigiam postura de adultez. Mas, oras, o que é ser adulto? O que é ser grande? O que é a maturidade numa hora dessas - em que os ponteiros seguem seu ritmo torto por trás do vidro do relógio inviolável? Eu voltei reclamando da dor no dedo a viagem inteira. Ele reclamava do frio intenso. E seguimos trocando reclamações - a placa que não indicava a direção correta, não-sei-quem que tinha feito não-sei-o-quê. Foi a maneira encontrada para externalizar, de modo adulto (embora aparentemente bobo), a angústia, a raiva, a insatisfação. Os adultos não sofrem, não sentem medo, não têm dúvidas. Eles simplesmente enfrentam o que for. E eu desejei que fosse ele quem tivesse queimado o dedo, e que fosse só isso. Que fosse eu a fazer o papel de quem observa. Desejei mais, desejei sentir muita, mas muita dor. Desejei que aquele chá fosse capaz de concentrar em mim toda aquela dor que o silêncio entre nós dois guardava. Mas era só um chá. E, naquele momento, tínhamos que ser dois adultos. Era o que ditava a regra... uma vez conhecido o "efeito dominó", se busca impedir que qualquer peça caia. Mesmo que isso implique conter suspiros, soluços e lágrimas.

"Eu volto pra casa... e te peço pra ficar. Em silêncio... Só ficar."



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